domingo, 26 de dezembro de 2010

Lições da infância

Uma vez, quando eu era pequena, ganhei um quebra-cabeças.

Como balainho novo tem três dias de torno, eu não largava o quebra-cabeças. Para lá e para cá.

Mas, mesmo amando muito meu quebra-cabeças, depois de montá-lo no quintal com algum raro amiguinho da rua, deixei as peças lá, esparramadas sobre as lajotas da garagem.

Pouco mais tarde, fui procurar o quebra-cabeças lá, exatamente onde o deixei.

E nada de quebra-cabeças.

Sentei à mesa do jantar e perguntei para o meu pai se ele tinha visto o quebra-cabeças quando chegou do trabalho.

E ele: "não".

E eu: "ué".

E ele: "vai ver alguém roubou".

E eu (só pensando): "que tipo de gente serra um portão de alumínio para roubar um quebra-cabeças de 20 peças, e depois forja o portão rapidinho no mesmo lugar, sem deixar rastros?" (Eu já tinha analisado as barras do portão).

E ele: "você precisa aprender a guardar suas coisas direito".

E eu (só pensando): "acho que ele está tentando me dar uma lição".

Depois do jantar ele devolveu meu brinquedo.

Desde esse dia aprendi que dificilmente alguém invade uma casa para roubar um quebra-cabeças. Mas pais podem fazer coisas ainda menos sensatas.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bombril

(Not so) secretly feeling like shit.

* * *

Sabe, eu acho que as pessoas já podiam parar de publicar esses livros começados com "1001".

"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer"

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer"

"1001 Livros Para Ler Antes de Morrer"

"1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer"

"1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Comidas Para Provar Antes de Morrer" (cuja capa é uma lagosta CLARAMENTE tentando escapar da panela, que tipo de gente faz isso?)

Se for para ficar só nestes, eu já tenho SETE MIL E SETE porras de compromissos. Ou seja, já lotou.

E, para dizer a verdade, no fundo esse tipo de livro estimula outra atividade: 1 milhão e oitocentos mil downloads para fazer (sendo que você não vai usufruir de metade).

Joga lá no Google p'cê ver.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Not for me

"I've found more clouds of grey
Than any Russian play could guarantee"
-- George and Ira Gershwin, But Not for Me

Tem coisas que eu acho bonitas só nos outros.

Como roupas cor de rosa, bijuterias douradas e imponência.

Eu jamais teria uma casa com um portão de 3 metros de altura. Nem um brinco folheado a ouro.

Mas, estranhamente, eu tenho um casaquinho pink.

E não sei explicar.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tudo que você não pode deixar para trás

"E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô,
Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento,
todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

-- Macunaíma, capítulo VII (A Macumba), Mario de
Andrade

A primeira vez que vi a neve achei que ela tinha pernas estúpidas.


* * *

Sonhei que eu tinha que tirar o João Paulo do Morro do Alemão, antes que os traficantes matassem ele. Meu plano era passar a noite em uma espécie de ong, onde eu sabia que estaríamos seguros, sair do Morro de madrugada e usar o dinheiro do prêmio para levá-lo para fora do país. Ou pelo menos para outro estado.

As moças da ong nos serviam pratos de salada e perguntavam se a gente não queria coração de galinha também.

No meio da comida, que mal me descia porque meu irmão podia ser assassinado *a qualquer momento* e ninguém viria nos salvar, começou mais um tiroteio. E eu pensei "é agora ou nunca". Eu não queria decidir, mas achei que nossa melhor chance era deixar os pratos de salada pela metade e eu gritei "corre, João!".

Depois a gente via uns caras correndo, armados. E nós também tínhamos armas.

E então eu acordei, graças a Deus.

* * *

Então ele se levantou e bebeu o leite que ele mesmo preparou.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Matinal

Meus pais me mandam SMSs estranhos antes das 10 da manhã.

Minha mãe:

09:06
Oi
Esqueci de dar a grana do ímã.
Beijos

Meu pai:

09:22
Sabia que o melhor nhoque de Sampa é do Aguzzo e é seu vizinho?


Eles não sabem que ontem eu fui dormir às 3 da manhã, ainda meio bêbada, depois da festa da firma.

Mas, se soubessem, acho que mandariam estes SMSs mesmo assim.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Physical

Eu sei que as mulheres da academia me olham com uma cara estranha.

Provavelmente porque elas pensam que eu sou anoréxica.

Mas tudo bem. Eu também olho para elas com cara de espanto.

Para mim, nenhuma precisava emagrecer.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Talvez pudéssemos

Às vezes eu acho que minha vida seria bem mais fácil se, dentro da canequinha de água que fica na minha mesa do trabalho, tivesse pinga.

* * *

Toda vez que vou escrever "prórpio" sai "prórpio".

Olhaí. Aconteceu de novo.

* * *

Conversando com Vlad, concluímos que "pau na sua bunda" é um xingamento que soa mais grosseiro do que "pau no seu cu", embora "cu", separadamente, seja mais pesado que "bunda".

Estranho, né?

* * *

Botaram TV digital lá em casa.

As primeiras coisas que assisti depois disso foram "Melhor É Impossível" e "O Silêncio dos Inocentes".

Se não foi auspiciosa, essa instalação.

* * *

- Come on in and try not to ruin everything by being yourself.
- Maybe we could live without the wisecracks.
- ... maybe we could.



* * *

O Rio de Janeiro continua sendo:


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Coisas que perdemos pelo caminho (graças a Deus)

Assistir a TV demais.

Assistir a Discovery Home & Health demais (o que significa ver bebês demais, mulheres rejuvenescidas demais e ambientes decorados demais).

Ter um sofá grande demais para a sala.

Ficar tempo demais em casa.

Ficar tempo demais sozinha.

Achar um produto de limpeza de 5 reais muito caro.

400 contra a cama

A locadora aqui perto de casa tem um talento raríssimo e incrível para colar na porta os pôsteres dos filmes mais desinteressantes e obscuros do mês.

Como "400 Contra 1" (?!) e "Minha Cama de Zinco", cujo pôster é especialmente caprichado, pois não dá pista alguma sobre a história, ou sequer de que gênero trata.

Conheçam "Minha Cama de Zinco":

sábado, 27 de novembro de 2010

The hard knock life

"'Steada treated, we get tricked!
'Steada kisses, we get kicked!"
-- Annie and the orphans, It's the hard-knock
life
Hoje eu fui comprar coisas para o Samuel.

A missão foi um pouco difícil, porque eu não conheço o Samuel.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria aprender latim. E grego. Culpa do meu professor de História, que era meu maior herói.

Eu também queria ter uma jaqueta (de pelo) da Fruto Verde. E um tênis Nike.

Mas minha mãe só comprava Popi.

* * *

O Samuel tem 12 anos, veste 16 e calça 38. Não achei tênis para ele nas lojas infantis, fui a uma loja de adulto.

Comprei também uma camiseta verde. Mas temendo que ele seja corintiano.

* * *

Quando eu tinha 12 anos escrevia um diário. A capa do meu diário foi decorada em alguma tarde na casa da Roberta, em um estilo criado em conjunto que mais tarde ficou conhecido (entre nós duas) como "furacão de cabeças".

Tinha um Bart Simpson e um Axl Rose. Mas eu nem gostava de Guns.

* * *

Tenho que comprar um brinquedo para o Samuel. A Veruska me disse no e-mail que ele tem "muitos irmãos menores" e que às vezes "tem que se responsabilizar por eles".

Não entendi muito bem. Comprei um jogo de tabuleiro. Imagem & Ação. Ele pode desenhar *and* distrair os irmãos menores brincando com eles.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria ser arqueóloga. Culpa vocês já sabem de quem.

Até que minha mãe me disse que minha vida *não* ia ser igual à do Indiana Jones.

Aí eu quis ser professora, acho.

E eu fui.

* * *

Falta só um livro para completar meu pacote para o Samuel.

Queria comprar "Raul da Ferrugem Azul", da Ana Maria Machado, mas não sei se está esgotado.

Eu li "Raul" pela primeira vez aos 8 ou 9 anos. Mas continuo lendo esse livro até hoje, mesmo sem tê-lo aqui em casa.

Porque ele me diz, de uma forma colorida e bem disfarçada, tão disfarçada que levei 23 anos para decifrar: a vida é dura. Faça a coisa certa.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Eu sou neguinha?

Meu cabelo sempre foi loiro e liso. Aí eu queria fazer uma permanente (não riam, eram os anos 80) e/ou cortar bem curto.

Mas meu cabelo, vejam bem, era incortável. Pelo menos na opinião geral. Porque era liso e loiro.

"Pra que vai cortar um cabelo tão bom, tão bonito?", me diziam.

Eu cortei meu cabelo com 21 ou 22 anos e nunca mais deixei crescer.

* * *

Um dia perguntei pro meu primo Roni, que desde muito antes de eu conseguir cortar meu cabelo usa a cabeça raspada, por que ele não deixava o cabelo crescer.

Ele riu e me disse: "cabelo de preto é ruim. Tem que raspar".




terça-feira, 23 de novembro de 2010

É de comer?

Pronto, já é Natal. Tempo das espetaculares pirâmides de panetone nos hipermercados, de gastar uma hora e meia para atravessar o Ibirapuera e de tirar os reis magos do armário e botá-los para levar ouro, incenso e mirra para o Menino Jesus do presépio.

Ouro e incenso, ok. Mas mirra?

Mirra, como todos sabem, ninguém sabe o que é.

(Nem a Virgem Mandy).

Muito provavelmente porque o ouro e o incenso vieram em caixinhas e palitos, mas a mirra veio num daqueles saquinhos de ketchup e até hoje ninguém conseguiu abrir.




-- Dedicado à Carocha

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Não seja

Todo mundo que fala "sem querer ser chato" é porque, logo na sequência, vai ser.

--- (~) FIM (~) ---

As rampas do planeta

Quando eu era pequena, minha mãe ouvia um LP da Gal chamado "Profana".

Tinha uma capa preta, com a cara bem de perto de uma Gal bem branca, com batom vermelho. Meio vampiresca. Eu podia olhar no Google e confirmar. Mas na minha cabeça era assim.

Eu gostava da música "Vaca Profana". Porque eu fazia imagens (loucas) das coisas (loucas) de que a letra falava, sem saber muito bem onde ficava Tel Aviv ou quem era Thelonious Monk. Mas eu literalmente viajava com aquilo.

Além de tudo, ela falava tetas. Era meio que um prazer clandestino, um semipalavrão.

Mas o que eu mais me lembro é que eu pensava que a Gal falava das "rampas do planeta", não das "Ramblas do planeta". Só fui descobrir quando fui a Barcelona. Com mais de 25 anos.

E o lance da orchata de chufa descobri ano passado.

Não que faça muita diferença, no fim, eu acho.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Levanta, defunto

"I felt so much love this mornin'"

-- Joe Jeffrey Group, My Pledge of Love

Joe Jeffrey Group: me ajudando a levantar da cama desde 1995 (quando eu ouvia Alpha Memory).

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Tem dias

Às vezes, eu telefono para alguém esperando que caia na caixa postal ou na secretária eletrônica. E me desaponto quando a pessoa atende.

Às vezes eu ainda falo "alô? Ué! Mas você não devia não estar aí?". Aí me sinto culpada.

E, se a pessoa não atende mesmo, às vezes eu contorno a minha própria culpa antecipada deixando um recado besta, do tipo “olha, eu vou tentar te ligar de novo, mas se eu não conseguir, bom, me liga quando você puder”.

Eu não presto.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The objects of my affection

Eu tinha uns objetos de desejo muito estranhos.

Tão estranhos que havia me esquecido de alguns deles.

É o caso do biombo. Lembrei quando estava assistindo "Piaf" outro dia: teve uma época em que tudo que eu queria era ter um biombo.

Até hoje não sei direito o que eu faria com o biombo. Provavelmente me trocaria atrás dele, lançando as roupas por cima -- é o que todo mundo faz nos filmes.

Ou fumaria atrás dele, na contraluz.

* * *
Noutra época eu queria ter... uma prancheta.

Não sei o que dizer a respeito.

Hoje eu sou fissurada por uma galinha de borracha. Sabe, aquelas que às vezes penduram nas antenas de jipes? Essas daí.

* * *
Só tem uma coisa mais estranha do que ter estes objetos do desejo: nunca tê-los realizado.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

El día de los muertos

"The days to come, the days to share"
-- REM, Photograph

Na casa da minha avó era a maior economia.

O papel higiênico era Primavera, sempre. Áspero e cor de rosa.

As cascas de ovos iam para os vasos de orquídeas.

Os restos de sabonetes eram amalgamados em pequenas bolinhas multicor, que continuavam ali para se lavar as mãos.

O sofá era reencapado.

As pontas das canetas eram aquecidas na boca do fogão.


* * *
Minha avó sorria e me chamava de "boba" quando eu, fresca, não queria comer ou fazer alguma coisa. Ou quando eu respirava pela boca ao passarmos pelas barracas de peixe na feira.

Meu avô era enorme, esbravejava e consertava tudo.

(E gostava de jogar no bicho. Ao lado do telefone ficava um bloquinho impresso com siglas que eu não entendia. Fiz muitos desenhos e escritinhos nessas folhinhas, que mais tarde percebi que eram folhas de apostas de jogo do bicho, para todos, federal, essas coisas).

* * *
No fim, acho que a Nina gostava do Berto.




segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O último lugar

"The sun may rise on the east, at least it settles in its final location"
-- Red Hot Chili Peppers, Californication

Los Angeles roubou meu coração.

A cidade é quente e azul. Cheia de gente morena. E barulho de carro. E placas de "proibido estacionar" de um detalhismo inenarrável. E com um melão delicioso oferecido no café da manhã do bed & breakfast da Dianne (em compensação aos sabonetinhos vulgares que ela nos dava para tomar banho).

Mas não quero fazer muito fuss a respeito (vt+vi exagerar, espalhafatar, estardalhaçar, excitar-se, inquietar-se, alvoroçar-se, estar irrequieto, agastar-se à toa; obrigada Michaelis).

Prefiro fazer fosquinha.

sábado, 9 de outubro de 2010

Como se fosse 95

Um dia eu acordei e me senti em 1995.

Não é que eu me lembrei por um instante de como era estar no terceiro ano colegial. Ter 17 anos e 43 quilos. Precisar de um emprego. E de pernas mais grossas. Ser apaixonada por um garoto que não queria namorar comigo. Achar Pulp Fiction o melhor filme da história. Namorar garotos que eu não queria tanto namorar. Ter a vida toda pela frente, mas achar que o mundo ia acabar se a minha mãe não me deixasse sair naquele sábado. Arranjar novos amigos. Viajar com eles. I can't stop loving you. Take me out tonight. Fumar cigarro de cravo. Ver a Roberta todo dia. Acordar ouvindo músicas dos anos 60. Passar delineador às 6h30 da manhã. Entrar em uma sala luminosa às 7h30, meio atrasada e procurando o menino de rabo de olho. Escrever artigos para o jornal da escola. O cheiro do anfiteatro. O fusca da Rose, que levava a gente para fazer as reportagens do jornal. O fichário encapado com contact, uma foto PB da Marilyn de um lado, uma propaganda de cigarro do outro. Dormir à tarde. Acordar e assistir Cavaleiros do Zodíaco. Minha mãe meio longe. Uma irmã meio nova. Estudar Física, Química e Biologia. Querer ser diferente. Rezar para ser igual.

Não. Nada disso.

Um dia eu simplesmente acordei como se fosse 1995. E eu fosse a menina de 17 anos, 43 quilos etc e tal.

Vale tudo

Olhar a Gal cantando sem camisa é que nem espiar o mecanismo de um relógio por dentro.

Olha esse diafragma, Brasil.






PS: Curti os peitinhos também.

* * *

Na fila da farmácia

Puta merda. Me diz que não é a Claudia Leitte ali no pacote de modess.

Caralho. É.

E ela ainda está fazendo a princesinha.

Não há limites.

* * *

Eu forço ligações, como um ladrão de carros.

Viu? Fiz de novo.

Mas, desta vez, o segredo está no título.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

E se você encontrasse Deus...

- E se você encontrasse Deus e pudesse fazer uma única pergunta, qual seria?
- Eu ia mostrar a Torá e perguntar 'e aí, é isso aqui mesmo?'
- Péssima pergunta. E se ele fala... ∞não!∞?
- Aí fodeu.

* * *

- E se você encontrasse Deus e pudesse fazer uma única pergunta, qual seria?
- Hum. 'Onde acaba o universo?'
- Ã-ãh. E se ele fala ∞o universo é infinito∞? Pronto, você fica na mesma!

* * *

- E se você encontrasse Deus e pudesse fazer uma única perg...
- 'E se você encontrasse Deus e pudesse fazer uma única pergunta, qual seria?'
- Uou.

sábado, 2 de outubro de 2010

Xerolenta obvia

A TV está me explicando como se formou o deserto.

* * *

"Imagens meramente ilustrativas. Croqui ilustrativo sem escala. Sugestão de consumo".

O que eles estas pessoas estão vendendo, afinal?

E que tipo de gente precisa destes avisos?

Alguém acha que vai encontrar um pavê igual ao da foto, pronto, dentro do pacote de bolacha champanhe? Ou que dentro da caixa de macarrão se esconde uma pasta à matriciana -- e, quem sabe, um garfo? Se forem mesmo chiques, podiam colocar um guardanapo de pano.

Adoro guardanapos de pano.

* * *

Agora a TV está falando do Zodíaco. O assassino em série, não o círculo de animais.
* * *

Estava assistindo a um documentário muito interessante na TV Cultura, quinta de madrugada (eu podia ser zoada o resto da vida só por falar isso. Mas piora).

Era sobre Darwin e a teoria da evolução (eu disse que piorava).

Eles mostraram uns caracóis típicos dos campos ingleses. Eu me interessei pelo tema (simplesmente não acaba, não é?) e, em uma rápida pesquisa, descobri que tem uns caracóis que se chamam...
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Xerolenta obvia.


Cara, ninguém vai acreditar.


domingo, 26 de setembro de 2010

Deus quando fecha uma porta

Carambolas e dálmatas são obviamente cuidadosos projetos de design.

Quando Deus trabalha sem freelas, ele faz cachorros normais -- como os labradores -- e flores óbvias -- como as margaridas.

Eu, que sou temente a Deus, adoro labradores e margaridas.

Mas sinto um soluço de espanto quando vejo dálmatas. (Quando vejo freiras também, mas isso não vem tanto ao caso).

Já quando Deus trabalha com estagiários, temos coisas como o pepino e o bilby.


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Dedicado à Raquel e aos nossos frutíferos after hours

Info/Photos/Cities Visited

Tenho sonhado com coisas malucas.

Tudo bem. Estranho é sonhar com coisas normais.

Noite passada, pessoas mortas sacudiam elevadores antigos e a Ana Maria Braga pilotava um avião. Ela foi me buscar na praia (de avião) para eu fazer um exame do refluxo. Eu sabia que tinha de levar os famigerados exames anteriores, mas só encontrava uma das endoscopias -- e eu já fiz duas. Não tinha ideia de onde procurar a outra. E a Ana ficava lá, me esperando, com o avião na areia.

Noites antes, tivemos uma salva de palmas para minha vó, e uma pergunta tão cortante que não ouso descrever.

É como se eu estivesse a um fio.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Macarrão com cebolinha

Quando eu tinha uns 20 e poucos, trabalhava em uma pequena agência que fazia uma revista de decoração meio tosca.

A "redação" se resumia a mim, outro jornalista e uma estagiária, a Giu.

Nessa época, meu irmão tinha uns 15 ou 16. E me ligava pelo menos uma vez por semana, perto da hora do almoço, para saber como fazer macarrão com cebolinha.

A receita de macarrão com cebolinha é muito simples. Consiste, basicamente, em macarrão cozido com molho de manteiga e cebolinha frita (na própria manteiga).

Mas o João Paulo nunca se lembrava do que tinha que colocar primeiro na panela: o macarrão? A manteiga? A cebola?

A receita é bem simples e o macarrão com cebolinha pode ser obtido assim: cozinhe o macarrão; reserve*; frite cebola bem picadinha em uma ou duas colheres de manteiga; jogue o macarrão dentro; salpique com queijo ralado a gosto e está pronto.

Acho que a parte do "reserve" é a chave do preparo, e é justamente a que fugia ao João Paulo toda vez. Então ele achava que aquilo tudo ia sair de uma mesma panela: macarrão, água, manteiga, cebolinha. Até o queijo ralado, quiçá.

Até a Giu aprendeu a fazer o macarrão com cebolinha.

Já o João Paulo, não sei. Acho que ele aprendeu. Ou nunca mais teve vontade de comer.


* Pode-se, inclusive, reservar o macarrão na própria tampa da panela, se você quiser economizar louça. Mas isso pode causar acidentes como: queimaduras nas mãos do cozinheiro ao pegar a maldita tampa pela borda para misturar a massa ao molho; perda parcial ou total da massa para o ralo da pia devido à instabilidade da tampa, quando colocada de ponta cabeça; ou, ainda, ambas as anteriores.

Um amor absoluto pelo homem que eu vi

Como eu vivi até hoje sem essa música?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tempos difíceis

"She totally confused all the passing
piranhas"

-- Presidents of the USA, Lump
Quando eu estava no terceiro ano colegial não havia internet. Pelo menos, eu não conhecia ninguém que tivesse.

Eram tempos difíceis para quem queria cantar direito suas músicas favoritas em inglês: poucos CDs tinham encartes, a Bizz Letras Traduzidas saía em uma periodicidade muito particular, quiçá insondável, e os folhetos da Fisk praticamente só tinham músicas do Roxette e do Bryan Adams.

Então, se você gostava de Presidents of the United States ou daquela música cantada por uma mina na trilha sonora do Pulp Fiction, tinha que se esforçar. E tirar de ouvido.

Aí, quando eu estava no terceiro ano colegial, um menino da minha classe foi estudar um semestre nos EUA.

Eu até gostei mais dele, que eu achava bobo antes, depois disso.

(Talvez porque eu gostasse de me apaixonar um pouco pelas coisas que estavam indo embora).

E na volta o menino ganhou alguma reputação, porque cantava "Lump" de cor e salteado, sem errar, nem embromar.



Esse era o tipo de coisa que te dava alguma reputação em 1995.

Vá chamar o Vincebo

Começava assim:

"- Vá chamar o Vincebo."

A partir dessa frase corriqueira, toda a família se alvoroçava. Eles não eram ricos, longe disso, mas também não eram miseráveis. Moravam no campo, sem dúvida. Aquelas casas iluminadas à luz de lampião e caiadas de branco com janelas verde-água. Ou caiadas de verde-água com janelas azuis. Enfim.

A velhinha estava deitada na cama e só mandava chamar o Vincebo uma vez, decidida. Seu pedido seria atendido, mas custaria um bocado de elucubrações individuais para cada membro daquela família.

O problema é que *eu não consigo me lembrar porque ela estava mandando chamar o Vincebo*.

Eu pensei nessa história quando estava quase dormindo. Ela parecia muito boa. Muito boa mesmo. E, sobretudo, ela fazia total sentido.

Só que agora eu não me lembro do fim. Quer dizer, do motivo. O motivo era tudo. O motivo da velhinha para chamar o Vincebo.

Ou talvez eu só estivesse com febre, para inventar um nome assim.

(Pronuncia-se vincêbo, sim?, com a tônica no ê).

domingo, 12 de setembro de 2010

Um branco, um xis, um zero

2010. A Lara entrou no meu quarto e falou:

- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.

1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.

- Minotaure.

Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).

Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.

Não é mais o menino. É só o perfume.

Léxico familiar


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos

But it takes so long, my lord
-- George Harrison, "My Sweet Lord"
Aí que quando vi pela primeira vez as fotos da Beatriz -- que, veja só, eu só conheço em fotos -- me apaixonei de imediato por ela. E estava tocando "Shine Yellow", da Mallu. E essa virou a música da Beatriz.



E pouco antes do Pedro nascer -- depois de uma gestação que para nós, os mais de 35 mil espectadores pagantes (e ansiosos), pareceu levar cinco anos -- eu fui à casa dos pais dele e joguei Beatles Rock Band. E a gente, que enchia a sala, cantou "Dear Prudence". Tudo horrível, desafinado e cheio de amor. E essa virou a música do Pedro.



E quando eu soube que ia ser madrinha do Caetano, meus olhos se encheram de água e meu coração também. E o Winamp começou a tocar "My Sweet Lord". Que, no fundo, é uma oração. E essa continua sendo a música do Caetano.



Eu dou sorte com as circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vincent

Algumas coisas na vida são realmente equivocadas.

Por exemplo, um serviço bancário personalizado e exclusivo intitulado Van Gogh.

O cara não vendeu uma única pintura em vida. Era sustentado pelo irmão mais novo. E se matou aos 34 anos.

Eu gostaria de saber de que forma essa existência solitária e miserável se conecta a um serviço bancário seletivo, oferecido apenas a quem tem um cascalho considerável, e que permite a você telefonar para o seu gerente às 9 da noite.

* * *

Depois de morto, Van Gogh virou uma referência. Em 90, seu "Retrato do Doutor Gachet" foi vendido em leilão por 82 milhões. De dólares.

Quando a mulher de Theo, irmão mais novo e esteio de Vincent, ficou grávida, ele escreveu a Van Gogh dando a boa nova. E avisou que o bebê ganharia o nome do irmão.

Vincent, então, pintou um quadro e o enviou ao irmão. Que ficou todo orgulhoso e o pendurou em lugar de destaque na casa da família.

Era o Almond Blossom.
* * *

Não é como se alguém abrisse uma firma de investimentos e colocasse o nome de Marx & Engels Brokers Co.?

(Obrigada, Daniel)


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Igual ao meu avô

Mi allontano dalla patria... San Giuseppe proteggimi!
-- Título de um manual de ajuda aos emigrantes italianos, Museo Della Emigrazione Italiana, Roma

O meu avô era igual ao Adoniran Barbosa, mas sem a ternura.

Ele se chamava Umberto sem H. Italianíssimo, mas nascido no Brasil das comidas gigantes.

Ele usava invariavelmente uma regata branca por debaixo da camisa. Ele nunca usou camisetas. Nem tênis. Só camisa. Com regata branca por baixo. E calças de alfaiate.

A regata branca era parte integrante do pacote e não podia ser vista separadamente. A não ser quando ele estava em casa. Aí ele tirava a camisa e ficava de regata branca, calças de alfaiate e com aqueles chinelos de velho.

Hoje eu fui trabalhar com uma calça de alfaiate. E regata branca.

Eu sempre me sinto parecida com o meu vô quando me visto assim.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pequeno dicionário amoroso

G - Gut!, substantivo próprio. 1. revista de modelos feita à canetinha. 2. fig. interjeição que sempre era falada pelas modelos da capa.
O tempo é pródigo e livre quando você é pequeno. Para preenchê-lo, além de assistir ao Viva a Noite e ao Comando da Madrugada quando nossos pais saíam e nos deixavam por conta, a Tati e eu desenhávamos revistas de moda. A brochura era improvisada com cinco ou seis folhas sulfite dobradas ao meio e grampeadas bem no canto. Depois, desenhávamos as modelos - elas invariavelmente tinham caras quadradas - envergando os looks - sempre divididos em classificações como 'praia', 'campo', 'cidade' e... 'punk' (?!). A modelo mais legal era eleita em uma reunião editorial do nosso staff de duas pessoas, e refeita em tamanho maior, ou em uma pequena variação de pose, na capa. E da boca da modelo da capa *sempre* saía um balãozinho onde se lia... Gut!

H - Hadibre, substantivo próprio. 1. rei mandão.
Eu gostava muito de preencher folhas de linguagem com composições. Às vezes as folhas de linguagem, que eram quadradas e achatadinhas, com dois furos na margem, para prender com bailarinas, acabavam cedo demais (na história). Aí eu ganhava folhas de papel almaço e me dedicava a enchê-las com o resto do enredo. Uma das minhas composições mais longas se chamava "A história de um rei mandão chamado Hadibre" e eu não me lembro muito bem da trama, muito menos de onde veio esse nome (possivelmente do banco de nomes da escrivaninha. V. escrivaninha). Possivelmente era um amontoado de clichês, mas eu tinha oito anos e decorei toda a história com figurinhas recortadas de gibi, então tirei um "Excelente!". Com exclamação.

I - Itatinga, substantivo próprio. 1. vila fundada no início do século 19 nos arredores de Bertioga, onde meus primos moravam. 2. 'Pedra branca', em tupi-guarani.
O Itatinga era uma vila encravada entre a serra e o mar, no meio da Mata Atlântica, em Bertioga. A vila foi construída por engenheiros ingleses, que cravaram uma usina ali, no meio do mato. A Usina Hidrelétrica do Itatinga fornecia energia para a cidade (ou para o porto?) de Santos. Não me lembro bem, mas lembro que meu tio trabalhava lá e, portanto, morava na vila do Itatinga com sua mulher e seus quatro filhos, meus primos. Sempre que a gente ia para Bertioga visitava o Itatinga. Tinha que pegar uma estrada de terra, um barco para atravessar o rio Itapanhaú e um bondinho que ia pelo meio da mata, por uma meia hora, até dar na vila: duas fileiras de casas de madeira amarelas, com janelas e portas verde-água, que apontavam para a imponente usina de pedra ao pé da serra, lá no fundo. Tinha um grupo escolar, uma capela, um ambulatório. Demorou muito para ter um orelhão. Parecia os anos 50. Era incrível. Era tipo o paraíso. Até você morar lá.

Meus primos sempre iam para a casa de Bertioga nas férias de verão. O intercâmbio era mão única: eles na minha casa, em Bertioga ou em São Bernardo. Até que certo ano, por alguma razão, o intercâmbio foi mão dupla. Minha mãe levou o Roni e me deixou. Eu quase morri no Itatinga. Foram os 3 ou 4 dias mais longos da minha vida. Eu não gostava da comida da minha tia. Eu era picada por borrachudos. Eles tomavam toddy, e não nescau (meus primos, não os borrachudos). A gente assistiu "A Mosca" no videoclube à noite. Eu voltei para casa achando que, a qualquer momento, ia ser atacada por uma gigantesca mosca metamorfoseada, igual à do filme, saída de qualquer um dos arbustos que cercavam o caminho. O orelhão estava quebrado e eu tentava me conectar telepaticamente com a minha mãe para ela vir me buscar.

Acho que deu certo. Ela apareceu uns dias antes do combinado, com o Roni todo pimpão e feliz pela temporada longe de casa. E eu passei todos aqueles longos dias assistindo filmes de terror e tomando toddy, e não nescau.

domingo, 15 de agosto de 2010

Assim é a vida, Charlie Brown

Eu tinha 16 anos e era aula de Filosofia da Educação.

O professor se chamava Luis e as meninas achavam ele gatinho. Eu achava ele blasé.

Ele entrou e disse: "não se pode inventar nada que já não exista".

Eu pensei: "que tonto, eu mesma já inventei um monte de coisas que não existem" e já ia dizer: "olha, eu imaginei um monstro de geleia azul, com olhos de mola e meias vermelhas, por acaso isso existe? Não? Então eu inventei algo que não existe, como queríamos demonstrar", mas alguma menina com imaginação menos saltitante foi mais rápida:

- Mas e se eu inventar uma bruxa, professor?
- Bom, uma bruxa não existe, mas é a combinação de características e coisas que existem: uma mulher existe. Chapéu pontudo existe. Vassoura existe. Caldeirão existe. Verruga na ponta do nariz existe. Tudo o que você faz é imaginar uma combinação, não algo realmente novo.

Surtei.

Essa foi uma das grandes descobertas da minha vida.

Assim como quando minha mãe me contou que a bucha do banheiro era uma planta (isso explicava as misteriosas sementes que apareciam dentro dela!) e que é a gente que esquenta o cobertor, e não o cobertor que esquenta a gente.

A verdadeira sabedoria vem de onde a gente menos espera. Como o box do banheiro ou a sala de aula.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não sai da cabeça

- "Cavaleiros do Zodí-á-cô
Luuutadores com po-deras-tral
Siu inimigo é demoní-á-cô
Sua luta é normal!"

- Que cê tá cantando?

- A música dos Cavaleiros do Zodíaco.

- Eu sei, mas você prestou atenção?

- No quê?

- Como a luta deles pode ser "normal", se eles enfrentam um inimigo "demoníaco"?!

- Mas era assim.

- Não era não.

- Era, lembro direitinho.

- Não era. Não pode ser.

- Era, pô.

- Procura o vídeo na internet.



- Ah, é. É "mortal". A luta é mortal. Não pode ser normal, né, se os inimigos são demoníacos.

- Foi o que eu falei.

Pequeno dicionário amoroso

D - Duduca, substantivo masculino próprio. 1. Amigo imaginário do meu irmão.
O João Paulo passava longas horas sentado na escada do sobrado do bairro Assunção, à tarde, bem debaixo de um vitrô onde minha mãe deixava um vaso de violetas. Quando perguntado o que estava fazendo ali, estava invariavelmente conversando com o Duduca. Não sei sobre o que eles falavam. Nos desenhos do João Paulo, o Duduca era algo aproximado a uma bolinha, cheia de pernas. Um dia, com todo mundo já embarcado no carro, de mala e cuia prontas para a viagem de férias para Bertioga, o João Paulo fez todo mundo descer do carro para ele buscar o Duduca, que ele tinha esquecido.

Passou um tempo e o João Paulo parou de passar suas horas vespertinas no degrau da escada. Minha mãe perguntou onde estava o Duduca e o João Paulo respondeu: "foi pra Bahia".

E assim acabou a amizade deles.

E - escrivaninha, substantivo feminino. 1. mesa em que se escreve. 2. mesa de escritórios, com gavetas e escaninhos.
Eu não ligava de fazer a lição de casa, com seus arme e efetues e composições, na mesa de fórmica da cozinha mesmo. Mas minha mãe resolveu redecorar o sobrado do bairro Assunção numa época em que viviam lá muitas pessoas, então trocou os móveis do meu quarto por um beliche, um guarda-roupa novo e uma escrivaninha. Padrão cerejeira. Eu me apaixonei de pronto e enchia suas gavetinhas menores com itens do Museuzinho e nomes inventados escritos em tirinhas de papel. A gaveta maior guardava cadernos de desenho preenchidos com mãos e mapas imaginários, folhas de sulfite, composições antigas, pastas de papel de carta e recortes de jornal e papéis avulsos em geral. E seu fundo invariavelmente cedia, pesado demais para comportar minha vida e minha desorganização. E minha mãe brigava e me mandava arrumar.

Ah, eu também fazia lição nela.

F - Flicts, substantivo próprio. 1. certa cor.
Eu chorava toda vez em que lia Flicts.


sábado, 7 de agosto de 2010

Sem figuras

As figuras de linguagem atrapalham minha vida.

Depois de tantos cantores e poetas declararem que pensam em alguém todo dia, como é que eu vou falar pro meu amigo Caio que pensei nele duas vezes esta semana?

Parece pobre.

Pensei com afeto, espontaneamente, de coração. Do nada. Não é que lembrei que ele me deve um layout para este blog, nem que olhei uma fotografia de Salvador e pensei "puxa, é mesmo, olha o Caio".

* * *

As figuras estabelecem um novo padrão de carinho. Um padrão hiperbólico. Mais beijinhos que peixinhos no mar. Pensar em você todo orado dia.

Não há quem aguente.

(Além do mais, pensar em alguém todo dia não é necessariamente bom. Você pode pensar no filhodaputa que te passou herpes, por exemplo).

* * *

Quando o João Paulo era pequeno, ele chamava aquele formigamento da língua em contato com o gás do refrigerante de "figuras".

Claro que ele não tinha a menor ideia de que figura = desenho, ilustração, aparência. Então ele pegou essa palavra de algum lugar e a colocou a serviço de explicar para os outros porque ele punha a língua para fora depois de beber guaraná:

"É que me dá figuras na língua".

* * *

Gente, não se esqueçam que aqueles cabelos da propaganda da Garnier não existem. Nem as partículas de extra-limpeza. Nem o Laboratório de Pesquisas Oral-B, forrado de telões e cheio de gente de jaleco branco.

É tudo figura.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Colombo, esse pioneiro

Colombo foi o primeiro frila da história.

Ele, que era italiano, fez um puta frila para a Espanha. Navegou da Europa até a América, aportando por aqui em 1492 e enchendo o caixa de Fernando e Isabel.

Mas assinou uma espécie de cessão de direitos autorais e ficou com uma mísera parte da riqueza que gerou.

Não tão mísera, na verdade. Mas como era um administrador pífio (como todo frila), morreu esquecido e renegado pelo edit..., digo, rei da Espanha.

E, para completar, como todo frila, ele ficou conhecido por vários pseudônimos, ao gosto do freguês: Cristóbal Colón, Christophorus Columbus, Cristóvão Colombo, Christopher Columbus e o original Cristoforo Colombo.

Acho que o Colombo devia ser o patrono dos frilas.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pequeno dicionário amoroso

A - Assiralc, substantivo feminino próprio. 1. Meu nome ao contrário.
Quando eu era pequena, tinha bastante tempo para me divertir explorando as coisas de vários ângulos, inclusive do avesso. Entrava no guarda-roupa e o olhava por dentro: as dobradiças da porta com restos de cola, os cantinhos, o cheiro de dentro. Virava meu nome. Desenhava retratos fiéis só da minha mão, depois de transferir seu contorno para um papel sulfite, preenchendo-o de detalhes como os poros das falanges, seus pelinhos muito finos e as linhas das juntas -- que, no fundo, eram as dobradiças dos dedos. Assim como Assiralc seria meu nome escrito se alguém olhasse por baixo do bordado.

B - Bertioga, substantivo feminino próprio. 1. Cidade balneário do litoral norte de São Paulo. 2. Vila de Bertioga; bairro central da cidade. 3. metonímia: casa onde passávamos as férias.
Tento manter viva a memória de Bertioga porque é o lugar que conheço há mais tempo na vida. A cidade já não é aquela que eu conheço, mas é a cidade onde nasceram meus pais e tios, e minha parenta mais velha ainda viva, a tia de meu pai, Ana. Eu achava que talvez desse para ver a África depois do mar de Bertioga. E que tinha fantasmas morando no Forte. E que a caixa d'água, uma grande construção de concreto no fundo do quintal, era um palquinho para cantar e dançar com panos de chão enrolados no corpo, presos com pregadores, e uma vassoura à guisa de microfone.

C - costa, substantivo feminino. 1. Parte de trás do tronco.
O João Paulo, como todo mundo, aprendeu a falar construindo sua própria hipótese sobre as coisas e as palavras. Eu ficava confortavelmente sentada em minha própria construção, só olhando e me divertindo. Ele calculava que 'costas', naturalmente, era um plural, de forma que só se aplicava a duas partes de trás do tronco de uma pessoa. Logo, quando ele se referia às próprias costas, falava no singular: "Mãe, tá doendo a minha costa" ou "Tata, tem um bicho na minha costa?". Eu morria de rir. De vez em quando, eu saía do meu sólido castelinho de hipóteses já construídas e ia brincar no quintal dele. Dizia: Paulo, como chama a mulher do bonitão? E ele: bonitona. E do grandão? Ele: grandona. E do anão? Ele: anona. E eu morria de rir de novo.

Não sei se ele achava muita graça.

sábado, 31 de julho de 2010

Oito anos

Um dia qualquer no segundo semestre de 1986.

- Como assim, mãe, ele estava andando de camelo na cidade?
- "De camelo" quer dizer "a pé", Cla.

- E ela tinha uma lata de tinta no cabelo?!
- Ele quer dizer que ela tingia os cabelos.

- Ah. E nada a ver isso, "ela era de leão e ele tinha 16". Por que ele não fala a idade dela também? Não tinha que ser idade com idade?
- O que ele quer dizer, Cla, é que ela tinha uma personalidade forte, de um signo forte, e ele era novinho ainda, bem moleque, mais frágil que ela. Olha só, ela gosta de um monte de bandas e artistas importantes, e ele gosta de ver novela e brincar com o avô.

- Ahn, entendi.
- Viu? Aí eles ficam juntos e ele muda, mas ainda assim ela já está se formando quando ele entra na faculdade. Ela era super cabeça e ele era brincalhão.

- Mas aí, se ele mudou, por que no fim ele fala que "o filhinho do Eduardo tá de recuperação"? O filho não é dos dois, mãe?
- É, mas ele quer dizer que tem coisas que nunca mudam.

Minha mãe me ensinou a ler quando eu tinha 4 anos e nunca mais parou.

A mão de capivara

A mão de capivara é parte integrante da nossa vida e não pode ser vendida separadamente.

Ela consistia, bem, em uma... mão de capivara. Pata, na verdade, né. Empalhada. Era do meu avô, mas ele deu para o João Paulo, acho que de tanto o moleque insistir.

Eu tinha absoluto pavor da mão de capivara. Ela era dura, morta, conservava unhas escuras e, morram, pelos. De capivara. Era um troço bem nojento, ainda mais quando você tem 14 ou 15 anos.

Quando você é menino e tem 9 ou 10, pelo contrário, a mão de capivara é uma das coisas mais legais que você já viu na vida. O João Paulo amava aquela mão de capivara, guardava com todo carinho, levava na escola quando podia e, sobretudo, colocava em cima do meu travesseiro para me assustar.

A mão de capivara também é legal quando você é uma menina com os mesmos 14 ou 15, mas signatária de um respeitável espírito de porco. Então, a Roberta amava a mão de capivara e tinha planos para ela. E me fez levá-la para a Disney, na nossa excursão de comemoração aos 15 anos.

No aeroporto, ela escondeu a mão de capivara sob a manga, segurando o cartão de embarque contra a pata empalhada. Como se a mão de capivara fosse a mão direita dela. E estendeu-a para a aeromoça. Que tomou um susto e deu um salto de banda, desfazendo o sorriso de boas-vindas em uma cara de horror.

E assim começou a viagem para a Disney.

Não sei onde foi parar a mão de capivara.

Até hoje, quando vemos uma capivara nos parques de Curitiba, meu irmão se pergunta se é naquela que está faltando uma patinha.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Very supersteentious

Quando eu era adolescente praticava um sem número de superstições bobinhas das quais me lembro até hoje.

Se você falava uma mesma palavra junto com outra pessoa, tinha que pegar no verde e dizer "sorte para mim, sorte para você". Mas eu jamais fazia isso na frente de um menino.

Se tinha um fiapo na sua blusa é porque um menino estava pensando em você. Se o fiapo fosse escuro, era um menino moreno. Se fosse branco ou claro, era um loiro.

Se você olhava para o relógio e ele estivesse marcando 13:13, 14:14, 21:21 ou similares, era para pensar no menino porque ele estava pensando em você.

Nossa. Como a gente era casadoira.

Ou eram só os hormônios em ebulição?


Para ler ouvindo Superstition, do Stevie Wonder:

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Precisa me amar

Ou: De como continuar atormentando seu irmão

JonY - I Can Fly - Meu jeito direto de ser... diz:
como eu coloco o nome das pessoas no meio dos meus twitts?

Clarissa diz:digita @ antes
e o 'nome' da pessoa no twitter
tipo "a @clarissaaa é a irmã mais legal do mundo. fato."(é só copiar e colar agora! \o/)


Update (19.07, 13:35)



Histórias de banco

Vou ao Banco do Brasil, onde tenho uma conta compulsória porque a corporação achou por bem abrir uma conta em meu nome lá, onde eles depositam meu salário e fornecem meus dados para os gerentes me ligarem com ofertas de cartões de crédito, planos de previdência e títulos de capitalização, coisas nas quais tenho tanto interesse quanto na vida marinha da Fossa das Marianas.

Pois quero transformar minha conta naquela joça em conta-salário, justamente para nunca mais pisar naquela merda. Leva 45 minutos. Não importa, estou armada de paciência. Podia assistir até a um documentário sobre a vida marinha na Fossa das Marianas.

Na hora do vamos-ver, a *bancária* vira e pergunta para mim:
- Ahn... Você sabe qual é o número do Banco Real?

Mano. A bancária não sabe o número de um banco. É como se eu fosse ao médico e ele dissesse: "hum. Você sabe qual é o nome do remédio? Aquele, de dor de cabeça. De blister meio verdinho".

Tenho uma colega de trampo que foi bancária há *anos* e até hoje ela me diz os famigerados números dos bancos na hora de fazer docs. E a bancária em exercício não sabe qual é. Eu tenho que dizer:
- 356, acho?

Pausa. Hesitação. Digitação esparsa.
- Erhn... Ah, é isso mesmo.

Saí que nem a mulher do fundador do banco: bati os sapatos e decretei que "dessa agência não levo nem o pó!"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Neblina e sombras

Eu estava tentando provar que aquela loira misteriosa era uma assassina fria e interesseira.

Ela se chamava Mariana Ximenes. Era bonita e elegante. Havia cometido um assassinato brutal mas meticuloso, e estava disposta a apagar as poucas pistas deixadas para trás.

Só havia uma pessoa capaz de impedi-la: eu. E um objeto capaz de incriminá-la: a minha latinha de coca-cola edição especial forrada em veludo.

Mas, antes de estar certa de que a solução do crime residia na latinha, decidi procurar meus antigos camaradas. Era certo que, naquela cidade coberta de fumaça e sombras, eles poderiam me ajudar.

Curiosamente, toda vez eu via um vulto esguio, vestindo sempre vermelho, nas ruas próximas quando ia às casas dos meus amigos. Será que a infiel se adiantara, procurando-os antes para virar suas cabeças e convencê-los de que o demônio era um incompreendido anjo dos céus?

Ao me receber, meus antigos camaradas me tratavam de forma evasiva quando eu colocava as cartas na mesa: estava investigando um assassinato. Estava disposta a provar que a Mariana Ximenes era a assassina. Eles se esquivavam, davam desculpas, seus olhos passeavam ao redor da sala escura para não encontrar os meus. Não podiam me ajudar.

Mulher nefasta. Sua habilidade de sedução era mais poderosa do que o cano que eu levava em minha cintura e já havia fulminado a boa vontade dos meus amigos.

Ora, diabos. Tudo bem se meus amigos me deixassem na mão. Eu ainda tinha a lata de coca-cola edição especial forrada de veludo. As impressões digitais da criminosa estariam lá. A justiça seria feita. Havia uma esperança! Mas...

Eu tinha levado a lata de coca-cola edição especial forrada de veludo para o homem que transformava latinhas em canecas! Mas que merda. Será que ele já tinha trabalhado a minha encomenda? Será que a manipulação do objeto que guardava toda a minha esperança já apagara qualquer vestígio da prova do crime?

Corri pelas esquinas e becos molhados da cidade.

E aí acordei.

Eu sonho em noir, com atrizes famosas e latas de coca cola que jamais existiram.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

"Cézanne"

Ali naquela tarde, no D'Orsay, não eram incomuns os estudantes de arte fazendo reproduções de obras nos seus cadernos de estudos.

Aí tinha um japonês sentado de frente para uma tela.

E ele parou atrás do japonês e ficou olhando o trabalho.

Depois olhou para a tela original.

E de novo para o caderno do japonês.

E mais uma vez para a tela.

Parecia um filme mudo ou um desenho animado.

E eu vi que aquilo ia acabar de algum jeito.

Até que o japonês olhou para ele, por cima do ombro, queixo para cima. E falou: "Cézanne!"

E pronto, essa virou a hashtag da viagem.

Eike loucura

Estou obcecada pelo Twitter do @eikebatista.

Passei os 3 primeiros dias achando que era um fake do cara. Provavelmente meu sentimento foi embasado por tweets como:

"@eikebatista Sabem o que a Lagartixa falou para o Crocodilo? Nossa que "exagero"! Rs rs!"

ou

"@eikebatista Ja empreendi na Russia,Grecia,Rep.Tcheka,Canada, EUA,Venezuela,Argentina,,Bolivia,Peru,Chile,Nicaragua... o Brasil e imbativel"

O cara conjuga o verbo "empreender", cara.

Aí descobri que esse é o Eike *mesmo*. O cara mais rico do Brasil. O empresário intocável. O ex-marido da Luma (e, convenhamos, agora eu entendo o lance com o bombeiro, viu).

Agora proponho a criação do Troféu Eike Batista de Reals. Um contraponto ao já consagrado Troféu Vitor Fasano de Fakes.

Porque o Eike real consegue ser melhor do que um fake dele seria. Me diz que não:

"@eikebatista Yes, voce tambem mora no Paraiso! O Meio Ambiente tem que ser tratado como se fosse um Filho ou Filha! AVATAR"

(por que ele grita AVATAR no fim do tweet???!!!)

"@eikebatista My 2 Boys not loosing my Modesty, profound Knowledge how to make the world Brazil more efficient!Execution of all my cia Mega Projects"

(num intindi o que ele falou)

domingo, 27 de junho de 2010

No farol

Dia desses eu estava parada no farol quando uma moça vestida de joaninha se aproximou e me entregou um panfleto que alardeava as últimas unidades de um empreendimento imperdível, bem localizado e perto de tudo que eu preciso.

Uma moça vestida de joaninha.

O que acontece com as incorporadoras e imobiliárias que fazem as pessoas entregarem folhetos no farol vestidas de joaninha, egípcia ou envergando trajes de gala?

Roberta outro dia me disse que um possível surgimento da commedia dell'arte está nos vendedores dos mercados que precisavam se diferenciar no anúncio de seus produtos.

Um gritava, o outro gritava também. Então o um decidia ir trabalhar fantasiado. E o outro o superava com piruetas. E o um declamava um poema. Tudo para atrair a freguesia. A gente precisa do dicumê, né?


Aí lembrei do Marx (Karl, não Groucho), que cabeceou a bola lançada por Hegel e resumiu num golaço: a história se repete, primeiro como farsa e depois como tragédia.

The lost weekend

Quase todos os dias ele me acorda e, então, ouve a frase:
- Eu não quero mais ir.

Eu nunca quero ir a lugar algum de manhã. Nem trabalhar, nem caminhar, nem andar de bicicleta, nem andar de avião. Nem ir ao shopping. Nem ver o Brasil.

Na noite anterior eu posso até estar de acordo com meu destino na manhã seguinte, mas quando essa manhã chega nada parece melhor que a minha cama, então eu nunca quero mais ir - seja para onde for.

O problema é que hoje eu não pude dizer isso, pois eu já não queria ir desde ontem à noite. Desde sexta.

Que bom que o plantão acabou.

sábado, 26 de junho de 2010

Sometimes the clothes do not make the decade

"Gotta have some faith in the sound
It's the one good thing that I've got"

Há 20 anos George Michael lançava "Freedom '90".

Quer dizer, não há 20 anos exatos, porque o single saiu em 15 de dezembro.

Era o fim dos anos 80 e George declarava ele mesmo, em alto e bom som, que já não era mais aquele, olha a cara dele.




Uma nova década parecia surgir no horizonte, com a promessa de faces como Linda Evangelista, Cindy Crawford, Christy Turlington e Tatjana Patitz deixando para trás a era de Magda Cotrofe e Kelly LeBrock. Com a esperança de nunca mais cortarmos os cabelos daquele jeito ridículo ou de combinarmos rosa choque com amarelo e verde abacate.

Mal sabíamos que os anos 80 ainda iam durar mais 20 anos.

Mas a música continua uma delícia.

...

O espelho da penteadeira do meu quarto tem uma leve deformação. Daquelas que esticam ou achatam o reflexo, como naquelas casas de espelhos de parques de diversão antigos.

E aí eu notei que tem um ângulo específico na penteadeira em que eu fico a cara do Matt Damon.



É realmente impressionante.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cheiro de cravo, cor de canela

A primeira vez em que vi uma cena de "Gabriela", a estonteante personagem de Jorge Amado vivida na tv e no cinema pela Sonia Braga, não entendi porque todo mundo achava ela tão sexy.

Principalmente depois que vi o pelão.




Hoje eu entendo. Depilação é um processo cruel, e felizes das mulheres que viveram ou vivem em tempos ou culturas em que o pelão é ok.

Não que ele seja lindo ou cheiroso.

Mas ninguém devia ser obrigada.

(Veja o pelão no 0:33)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De bon cœur

- Amontoamento de costelas!

Era isso que a Roberta gritava quando sentia que, bem, suas costelas estavam se amontoando.

Um belo dia, da primeira vez, ela disse "sabe quando parece que suas costelas se amontoam?".

Eu já tinha respondido "sim" para várias perguntas da Roberta que começavam com "sabe quando", e perguntas das mais variadas naturezas. Mas pela primeira vez eu disse "não".

Não existe esse negócio de costelas amontoarem. Aquilo devia ser outra coisa que a gente não sabia diagnosticar.

"Amontoamento de costelas!", a voz dela ficava meio embargada e eu começava a rir e ela também, o que piorava o estado da paciente.

Acabamos concluindo que eram palpitações, mas ainda hoje o amontoamento de costelas me intriga.

Mine've been like Verlaine's and Rimbaud

Então, ao que eu entendi, um poeta casado de 27 anos caiu de amores por um enfant terrible, não menos talentoso, de 17. E o século em vigor ainda era o 19. Muitos números.

Chamou o menino para morar na casa dele, e não nos admiremos que a esposa não curtiu.

Ele vivia de versos e absinto e da obsessão pelo enfant, e a mulher, que absolutamente não tinha nada a ver *com* nem como lutar *contra* aqueles olhos azuis e aquele cabelo em irresistível desalinho, se encheu.

O poeta mais velho foi para Londres com o menino, também poeta e não menos terrible, a tiracolo. Uma vida de pobreza em Camden e dias na Biblioteca Nacional para não passar frio.

Quando o menino decidiu ir embora, o mais velho foi na estação de trem. Deu basfond e atirou.

Foi preso, se converteu ao catolicismo, a mulher já tinha dado linha na pipa.

O menino virou traficante de armas.

E os dois viraram versos de uma música linda do Bob Dylan.

(Mas que eu conheci pela Madeleine Peyroux, porque eu quase sempre conheço as versões pelo lado torto).

E o referido é verdade e dou fé.

Mas com essa cara até eu, né, Yolanda?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Para cima os corações

Às vezes, quando estou andando na rua, tenho uma vontade quase incontrolável de colocar coisas na cabeça.

Pode ser minha bolsa, o cachecol ou uma sacola.

Sabe o stuff on my cat? Vou fazer um stuff on my head.

* * *

Você sabe que está ficando velha quando percebe um sensível aumento no medo de ser atropelada. Mas sempre olha para a mão errada da rua antes de atravessar.

E quando não encontra mais o código de embed depois que o YouTube muda o layout.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

No improviso é diferente

Há duas noites sonhei que estava em um auditório lotado, esperando uma apresentação teatral.

Lembro que estávamos eu, minha mãe e meu irmão, e algumas amigas do trabalho.

Aí começava o espetáculo e um dos atores chamava meu irmão para subir ao palco e improvisar. E ele não ia.

(O auditório era tão grande que eu nem conseguia ver o que estava acontecendo no palco).

Então eu virava para dizer para o João que ele era um palhacinho e que devia ter ido, quando vejo a Beyoncé. Sentada bem atrás de mim.

E ela defendia o João Paulo e falava: "eu também não iria".

Aí eu esquecia o João Paulo e falava para a Beyoncé: "mano, você canta para milhões de pessoas, como ia ter vergonha de participar daqui do gwshfordszix?" (Estou usando essa palavra porque eu não sei o que era aquele espetáculo, afinal, mas no sonho eu sabia).

E ela explicava: "ah, mas uma coisa é quando você ensaia, entendeu?, para fazer o seu número. Outra é improvisar".

Acho que entendi, Beyoncé.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O corpo invisível

Às vezes eu me esqueço de secar umas partes do meu corpo ao sair do banho.

E só percebo quando a camiseta que eu vesti parece meio úmida e colada às minhas costelas. Ou quando a calça do pijama gruda na parte de trás da coxa.

* * *

Estava de plantão no sábado e descobri uma celebridade que se chama Thaila Ayala. Thaila Ayala, Thaila Ayala, Thaila Ayala. Não consigo parar de falar esse nome tão peculiar.

Thaila Ayala, atriz e trava-línguas.

Me lembrou da Ruby Navarro, atriz e... trava anão.

(Não clique se estiver no trabalho)

Eu avisei.

* * *

Eu fiquei realmente obcecada com a Ruby Navarro. Até descobri o blog dela.

Ela não atualiza mais, mas o "Quem Sou Eu" é incrível. "Posso não ser a perfeita... mas sou a única" e "Antes de me criticarem ... tentem me superar" são meus trechos favoritos.

Também gosto um bocado da parte em que ela é decidida, resignada e tenaz, nesta ordem:

"Tento sempre chegar a onde quero .... mas as vezes não é possivel ... mas com a luta sempre se chega a onde se quer.... !!!"

Gostei muito da Trava Anão. Ela agora é minha segunda travesti favorita, logo depois de Vanessão, que eu acho tão digna e ninguém sabe se ainda vive ou não.

domingo, 6 de junho de 2010

Tulipas que, de tão pretas, eram púrpura

Teve um dia em Roma em que eu e minha mãe decidimos desligar os despertadores e acordar quando desse vontade.

Ela acordou antes e fez todo o café da manhã. Depois veio me chamar bem baixinho.

E eu tive um estranho flashback de algum ponto da minha vida em que eu morava com ela.

* * *

Algumas diversões da minha mãe em Roma foram tentar decifrar mentalmente a planta do apartamento alugado, a fim de descobrir para onde dava uma porta que estava trancada. E tentar encontrar o pipi das estátuas clássicas, como a dos homens que representam rios na Fontana Dei Quattro Fiumi.

A sala secreta não foi encontrada. Mas o pipi das estátuas ela achou.

* * *

Ela não gostou muito da Galleria Borghese.

(Mas também, deixou os óculos na chapelaria).

No entanto, se apaixonou pelas tulipas do jardim do museu, que eu chamei de negras quando vistas da janela lá de cima, mas que na verdade eram púrpura.

sábado, 5 de junho de 2010

Be aggressive

Ontem eu estava uma vaca insuportável.

Mas só por dentro.

* * *

Darlene* tinha uma forma bem engraçada de expressar sua, digamos, insatisfação com alguém ou com alguma situação.

Ela ouvia atentamente o interlocutor -- um professor arrogante ou uma colega de classe folgada, sei lá -- e, em seguida, coçava alguma parte do rosto com o dedo médio, dando ao ato ênfase suficiente para eu perceber que ela estava, de fato, mandando a pessoa ir se fuder. Mas também com delicadeza suficiente para que parecesse, ao ofendido, um gesto corriqueiro.

Às vezes ela esfregava o canto da testa com o polegar e o indicador. Isso significava que o interlocutor era um corno.

* * *
Eu nunca arrumei um jeito tão bom assim de expressar minha agressividade.

Por isso, quando fico uma vaca mesquinha e insuportável, é só por dentro.

* O nome foi trocado para que Darlene possa continuar amaldiçoando as pessoas apenas coçando a testa ou a bochecha, sem que elas percebam.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

To follow my bliss

Eu disse a ele que não seria mais engraçada, porque homens gostam de meninas bonitas, não de meninas engraçadas.

Ele riu.

Quais as minhas chances?

***

Da correspondência diária:

"Eu tenho uma limitação terrível, da qual só me dei conta há pouco. Tendo a achar que, depois que a folhinha virou para 2000 e eu terminei a faculdade, nada de novo aconteceu. Talvez isso seja motivado por crescer achando que a vida se resumia a infância-adolescência-vida adulta. Então, depois do diploma, de um casamento e dos anos 00, eu já era adulta e nada mais podia acontecer.

Então vem a vida de verdade (não aquela que você imagina, divide, quantifica e classifica) e muda tudo."

Escrevi isso com toda sinceridade em uma ampla e carinhosa troca de emails motivada pelos 5 anos da ocasião em que lancei, com amigas queridas, um livro. E me lembrei de Joseph Campbell, um jedi da vida moderna, que disse, entre um milhão de outras coisas incríveis:

"Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. (...)

"Quando nos deixamos guiar pela felicidade, nos posicionamos num tipo de caminho que sempre esteve ali, à nossa espera, e vivemos exatamente a vida que deveríamos estar vivendo."

Joseph também disse que "mitologia é o nome que damos às religiões dos outros".

Acho que vou fundar a igreja Joseph Campbell é Amor.

domingo, 30 de maio de 2010

2012 é aqui

Vaticinei há algum tempo no Twitter que 2010 era o novo 2012, mas isso foi só porque eu queria fazer parte da onda apocalíptica e tals. Mas depois que as manchetes deram conta de um naufrágio em Brasília e desse buraco na Guatemala, acho que estamos prontos para o fim do mundo.


Eu curto demais profecias do fim dos tempos. O terror, os mortos levantando, Jesus voltando flutuando em uma nuvem, os DJs, as trombetas, a vodca no open bar...

Tá. Eu sei que não é assim. Mas gosto de imaginar, a sério, os cenários fantásticos e cheios de horror. É o fim, camarada. Se você foi um bosta, nada vai te salvar de algo pior do que a morte.

Quer dizer, a gente sabe que as narrativas são, assim, meio míticas, né? Que, tipo, você tem que se comportar e tal, ser um bom cristão/judeu/muçulmano/iorubá, ou sua alma não será gratificada. Mas...

Sabe o que ia ser mesmo legal? Se todos aqueles lances fantasiosos de gafanhotos com sete cabeças, bebês nascendo no meio do céu e gente flutuando de repente acontecessem... *mesmo*.

Imagina Deus falando: "vão pensando que são boy".

E saindo numa kombi filmada, com um adesivo "nem me viu" no vidro de trás.

De como as palavras vão mudando

Eu gosto de como as palavras vão mudando e desenterrando sentidos.

Siena é um pigmento marrom avermelhado de pintura. O pigmento siena chama assim porque vem da terra da cidade de Siena, na Itália. A cidade de Siena chama assim porque, segundo a lenda, foi fundada por Senio, filho de Remo.

Ele, que provavelmente é inventado, jamais poderia imaginar que daria nome a um marrom avermelhado.

(E a um carro da Fiat).

Outras palavras mudam de lugar, mas não de sentido.

O Capitólio era uma das sete colinas romanas, sede do poder mundial daqueles tempos de Roma caput mundi e tal. E é um prédio em Washington, sede do poder mundial destes tempos, "a A América para os americanos" e tal.

* * *

Não dá para não amar Roma e os romanos. Estou lá, lendo a história mítica da fundação da cidade, e *no mito* eles são fundados por gêmeos que mamaram em uma loba, foram morar com um pastor e roubavam salteadores em emboscadas na estrada. Quando decidiram partir do lugar onde foram criados, levaram com eles todos os párias possíveis e, no fim, um matou o outro porque cada qual queria que a cidade fosse num canto.

O mito é uma chance que se dá às pessoas de explicar suas origens com alguma licença poética, some embellishment, e ainda assim fiel à verdade. Mas o mito de Roma já é tipo "Náufragos, traficantes e degredados".

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Family girl

A minha parente mais velha é a minha tia-avó Ana.

Ela me contou que, em 88 anos de vida, só vomitou duas vezes. A primeira, quando estava grávida da segunda filha. A segunda, quando fez a operação de catarata, uns 5 ou 6 anos atrás.


Ela passou bem mal com a operação. E nem sequer voltou a enxergar direito. "Me botaram na mão dos estudantes!", ela me diz, indignada.

A mãe da tia Ana, que é minha bisavó e avó do meu pai, era parteira. Ela se chamava Filomena e morava no Indaiá, uma vila de Bertioga que devia ser meio parecida com as vilas de pescadores das novelas.

Eu perguntei se pagavam ela pelo trabalho. Ela disse que não era um serviço, assim, pago. As pessoas davam alguma coisa que tinham, ou nada. Era como eu imaginava, e fiquei orgulhosa.

A tia Ana tem saudades de comer tainhas. Tinha um monte delas por lá; meu tio Tião, que é sobrinho dela e irmão do meu pai, se lembra de uma pescaria mitológica, quando pegaram 4 mil tainhas passando a rede no Indaiá. "Ovada, Cla!", ele detalha. Isso quer dizer que elas tinham ovinhos na barriga, ovinhos que você pode assar e comer também.

Acho que vou investigar mais a respeito.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Mac, make me up

Quando eu não precisava, achava realmente um barato me maquiar. Acordava mais cedo para passar rímel, lápis de sobrancelha e batom.

Nos finais de semana ou nas festas de formatura, passava também delineador e blush. Virei mestra do delineador na mesma época em que passei a frequentar a Twists, danceteria de São Caetano que abria aos domingos, das 20h à meia-noite. A prática levou à perfeição.

Passar maquiagem, na verdade, é usar uma cara que não é a sua.

Achava que esta máxima se aplicava somente à Lady Gaga, mas outro dia vi uma colega de trabalho sem make e quase não reconheci.

Maquiagem é propaganda enganosa. Por isso não passo todo dia. Para economizar um pouco na mentira.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sorte grande

Eu vou confessar uma coisa sinistra.

Às vezes quase choro de emoção quando ouço "Sorte Grande", da Ivete Sangalo. É. A música que eu (e a torcida do Flamengo) jurávamos se chamar "Poeira".

Engraçado, porque eu sempre tive o maior desprezo por axé music (coisa que veio a mudar depois do Carnaval de 2009, mas isso conto em momento mais adequado). Só que, num belo sábado de 2006, acordei amando essa música. Assim mesmo, acordei amando. Não é que acordei com ela na cabeça; que baixei e ouvi umas 4 ou 5 vezes no dia e passou. Não. Acordei amando.

Aí tudo bem, ficou aquele amor pelo hit de verão de Ivete ali, guardado. E, de repente, eu percebi que talvez eu amasse essa música porque ela me lembrava o meu irmão João.

Um, por razões óbvias: ele adora axé. Dois, por razões que só fui perceber depois: quando o João Paulo nasceu, eu não gostava muito dele. Narrei essa história mil vezes, e hoje ela é mesmo engraçada, mas eu sofri de verdade naquele outubro de 83, quando ele chegou depois de nove meses de promessas de "um amiguinho" e de repente eu tinha que dividir todo o meu mundo com mais alguém.

Mas em seis meses eu acho que já gostava mais do João Paulo do que de qualquer outra pessoa do mundo. A minha sorte grande foi ele cair do céu. Minha paixão verdadeira.


Olhaí, meu olho já se encheu de água.
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Canta, Ivete, enquanto eles riem.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Música de verão

Gravado entre 67 e 68, "The Papas & The Mamas" foi lançado pela banda de nome contrário em maio do ano que não terminou. Ao contrário do ano, tanto a banda quanto o álbum acabaram em grande estilo: com Midnight Voyage, uma música que eu ouço há 16 anos.



E só hoje descobri que o Little Joy fez uma versão ano passado. 41 anos depois da gravação da música, 16 anos depois de eu ter transformado, à revelia de todos os primos adolescentes, o meu The Mamas and The Papas: 16 of Their Greatest Hits - descoberto e adquirido em suave negociação com meu pai em uma visita ao Carrefour Anchieta - no hit álbum absoluto do verão de 1994, em Bertioga.

Tenho até hoje. Mas começa a pular em Monday Monday e só para em My Girl. Ainda bem que a excelente Dream a Little Dream of Me de Mama Cass permanece intocada.

domingo, 16 de maio de 2010

Os homens de saias

Eu quase nunca não estou fazendo nada. Eu devia não fazer nada mais vezes.

Mas sempre que não estou fazendo nada eu fico pensando em ações mirabolantes que vão definir a minha vida. Como escrever um livro, fundar uma ONG, me mudar para uma cidade longínqua ou pelo menos arrumar os comprovantes de pagamento das minha contas, que se acumulam em maços de papéis alojados nos lugares mais insuspeitos, como uma bolsa que eu não uso há meses ou a gaveta de lençóis do guarda roupa.

Quando eu penso em escrever um livro, quase sempre desisto porque nunca encontro a frase inicial perfeita. Imagina, então, encontrar o fim. Antes de largar a ideia, no entanto, fico pensando em quem eu seria de saias. Porque todo mundo parece ter essa fixação em definir uma mulher como um determinado fulano "de saias". Pode ser qualquer um, não importa: basta acrescentar o "de saias". "Nabokov de saias", "Paulo Coelho de saias", "Joyce de saias" - este último, para o português de costume, parece apenas uma expressão natural descrevendo a manicure, a vizinha ou a recepcionista do consultório envergando uma bela e florida peça usual do vestuário feminino, e não uma comparação perversa de gêneros (tanto sexuais como literários).

Caso o objeto de comparação já seja uma mulher, pode-se passar para o "tupiniquim", com a variação pseudolibertária "dos trópicos". Assim: Miranda July tupiniquim. Marian Keyes tupiniquim. Jane Austen dos trópicos.

Depois disso, só falta ganhar o Jabuti, que é o "Oscar da literatura". E se ver envolvida em um escândalo de superfaturamento de edições noticiado como o "editoragate".

O que eu mais quero/O que mais eu quero

Durante a semana em Roma, havia uma imagem e uma frase poderosas que dominavam os corredores de todas as estações do metrô. Era o cartaz de um filme chamado "Cosa voglio di più".
Pensei que "cosa voglio di più" significasse "o que eu mais desejo". Acho que foi a foto do cartaz que me induziu à tradução errada.

Fiquei com aquilo na cabeça, assim como fiquei com a imagem e o amor de outras palavras escritas também em uma estação do metrô, mas na plataforma da Re di Roma, feitas com o dedo sobre a sujeira que levanta dos trilhos e se gruda aos azulejos:

Roma, solo Roma
Caput Mundi

E só hoje, ao escrever esta historinha, vim a descobrir que talvez "cosa voglio di più" não signifique "o que eu mais quero", mas sim "o que mais eu quero" ("what more do I want"), o que muda tudo; e mudar tudo me desaponta um pouco porque eu estava errada, mas também me enche de alegria porque mostra como uma mera, pequena troca de ordem, só de duas palavras, pode mudar todo o sentido de uma frase, e eu gosto de sentir que uma mera, pequena alteração em alguma coisa pode mudar tudo de forma radical.

Passei semanas refletindo sobre o que eu mais quero instigada pela imagem e pelas palavras do cartaz. A resposta, por incrível que pareça, é a mesma que eu daria se tivesse me esforçado para responder à pergunta "o que mais eu posso querer?". O que eu mais quero é o que mais eu posso querer.

Me surpreendi ainda mais, porque às vezes, mudar tudo não muda nada.

Os olhos treinados pegam a declaração de amor improvisada
e subterrânea a uma cidade

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Pedindo pouco

Depois de muito tempo sem cometer este tipo de bizarrice, tomei uma decisão desconsiderando completamente a existência do amanhã e desafiando tudo que meu corpo aguenta e tudo que aprendi, a duras penas, ao longo de tantos anos.

Comprei uma minipringles de páprica para o café da manhã. (E acompanhei com água com gás).

Se vocês acham que isso é amadorismo, esperem até ouvir a história da minha amiga Chris, que, em ato de rebeldia contra os poderes maternos, que nunca a deixavam pintar os cabelos, resolveu radicalizar e comprou um... xampu tonalizante.

Da mesma cor dos cabelos dela.

* * *
Ontem, entrei no táxi de manhã, disse "bom dia, moço, vamos para a praça Buenos Aires, ali em Higienópolis, o senhor conhece? Que bom" e espirrei. Aí assoei o nariz. Aí o taxista vira para mim e entra de sola:

- Você já tomou a vacina da gripe?!

E eu: "hã?".

E ele: "a vacina da gripe. Precisa tomar, hein. Sua faixa etária já foi."

E eu: "olha, moço, não. A minha faixa etária é agora, é esta semana."

E ele, solando mais uma vez: "Quantos anos você tem?!"

E eu: "32!"

E ele: "Nossa, não parece. Mas não parece mesmo, hein, moça."

Gosto de como a gente nunca sabe para onde uma história vai.

* * *

Meu reino por uma semana, uma semaninha só, sem nenhum círculo em torno dos dias.