Mostrando postagens com marcador essas pessoas nas minhas fotos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador essas pessoas nas minhas fotos. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de setembro de 2011

If you can believe your eyes and ears

If you had such a dream
would you get up and do the things you’ve been dreaming
?
-- Belle & Sebastian, I Could Be Dreaming

Lavei o rosto, ajeitei o cabelo, escovei os dentes. Corri para a cozinha para deixar o café passando. A cafeteira estava suja, tive que lavar (nunca mais deixo a cafeteira suja de véspera). Acendi o fogo com fósforo, a ignição não funcionou.

Voltei pro quarto. Telefonei para a Ceretti, ela podia ir me seguindo de bicicleta. Vesti uma roupa. Não gostei. Corri até a lavanderia e peguei outra calça. Não vai dar tempo de maquiar. Lembrei que precisava por gasolina no carro. Senão não chego.

Tomei o café, mastiguei alguma coisa. Chamei o elevador enquanto trancava a porta. Tirei o carro da garagem tão rápido que nem me lembro. Encostei no posto, "põe 50 de álcool, por favor?".

E aí acordei.

Odeio perder a hora quando já estava quase lá.

E, pior ainda, eu não ia ver a Ceretti.

* * *

Ontem aconteceu uma coisa que eu achei que não ia viver para ver: conheci o apartamento do Dener. Do Dener mesmo, onde ele vai morar/está morando sozinho.

Levei uma peça de peito de peru. Daqueles pequeninos, para lanche, embalados a vácuo. Para ele cortar as fatias de cinco dedos de espessura, que ele tanto gosta, e comer puro, como ele fez tantas vezes nas casas alheias.

Levei um baleiro cheio de 7 Belo e Bolete, duas das poucas coisas verdadeiramente boas e baratas da vida.

E uma cesta com danoninho de potão (porque ele já é grande), flan e danete branco. Porque agora ele pode encher a geladeira da casa dele com todas as delícias que a gente sempre sonha comprar no mercado quando a gente for morar sozinho.

Com novos amigos na sala, contamos mais uma vez a história de quando ele foi assediado pelo enfermeiro afrescalhado no PS de Mongaguá.

Fiquei pensando se sonhamos essa história, de tão boa que ela é. Mas acho que sonhamos quase nossa adolescência toda, e sei que sou loucamente privilegiada de ainda ver e amar as pessoas que sonharam comigo.
As coisas boas e baratas da vida

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Malatesta

Hoje eu tô com a macaca.

Mas só por dentro.

* * *

Eu me lembro de uma viagem para a praia em que o Chicão foi. Essas viagens de adolescência. O Chicão tinha uns 12 anos e tinha se casado com uns 8. Traduzindo, ele devia ter uns 19 e tinha se casado aos 17, com a namoradinha de infância que ele conhecia desde os 6. Era uma história linda.

Aí a gente tava conversando num dos quartos, ouvindo o barulho do mar, e ele vira e me diz:
- Tirando sua mãe e a minha, eu gostaria de comer todas as mulheres do mundo.

Acho que o casamento dele não ia muito bem.

* * *

Eu me lembro quando eu e minha mãe estávamos em Napoli e tudo tinha dado errado e a merda do trem que esperávamos na Termini parecia incapaz de se decidir em qual binario ia chegar, e quando chegou era outro trem e o funcionário queria que a gente fosse em pé, e quando eu disse "so I want my money back" ele falou, com sotaque italiano, "no! no mâni béqui!", sacudindo as mãos, e no fim eu achei até engraçado.

Mas a gente tava em Napoli e não ia conseguir chegar a Capri, então resolvemos almoçar no porto e parou um navio de cruzeiro destes enormes e desceu um monte de franceses. E a gente continuou lá almoçando e depois decidimos fumar um cigarro e aí chegou um cara vestido de capitão de navio e pediu um cigarro e nós demos.

E ele começou a balbuciar umas palavras e a gente disse canhestramente, em umas cinco línguas diferentes, "desculpe, não entendo, não sou daqui (não tenho amor)", mas ele continuava balbuciando. E tirou os sapatos e colocou em cima da cadeira e eu pensei "mas esses franceses são bem à vontade, não?", mas de repente ele foi embora e o garçom do restaurante veio e falou: "malatesta!".

E pronto, eu amei essa palavra. O mala testa de Napoli.

O porto de Napoli bem naquele dia azul. O mala testa é o quarto à direita
.
.
.
.
.
.
.
Mentira.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Oxítona, paroxítona, proparoxítona

A última vez que eu chorei foi quando a minha amiga me contou como tinha contado para a afilhada dela que a mãe (da afilhada) tinha morrido.

A penúltima vez que chorei foi porque eu pensei que era um tipo de pessoa, mas não era.

A antepenúltima vez que eu chorei foi no show do Arcade Fire no Hyde Park.

(Mas dessa vez eu estava com a cara cheia. Não sei se conta).

* * *

A ante-antepenúltima vez que eu chorei foi quando meu irmão me contou que a filha dele vai se chamar Clara em minha homenagem. Eu mal posso me conter em mim quando conto isso para qualquer pessoa.

* * *

Acabo de perder o controle remoto do dock do iPod embaixo do sofá. Estou à mercê do shuffle.

Por enquanto tá tudo bem, estamos com "Strange Currencies".

* * *

E quando você está irritada eternamente, queima demais o açúcar do chá antigripal, não consegue inicializar o próprio computador, não encontra os acentos no computador emprestado e ainda perde o controle do dock debaixo do sofá?

* * *

Você nem imagina o que tem no seu iPod até perder o controle do dock.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Glub Glub ou A ingenuidade eterna dos irmãos mais novos

Um dia, acho que eu tinha 17 anos - eu sempre acho que eu tinha 17 anos - a gente estava assistindo "Glub Glub" e o João Paulo falou:
- Tata, como eles fazem para entrar nessa fantasia de peixe?

E eu disse:
- É assim, João: esse corpinho do peixe é um capacete, só na cabeça. Os atores usam uma malha verde do pescoço para baixo, e ficam em frente a um cenário todo pintado de verde, todinho, porque aí depois se projeta um fundo que só aparece na TV, chamado cromaquí.

Ele levou uns três segundos me olhando com cara de desconfiado e depois falou:
- Como você mente, eu sei que são atores anõezinhos!

No que eu devia ter rebatido "e como chama a mulher do anão?". Mas fui completamente desarmada pela ingênua incredulidade invertida do meu irmão.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Altas esperanças

"Não existe mais a casa...
-- Mas o menino ainda existe"
-- Manuel Bandeira, em Velha Chácara

O nível de esperança de uma pessoa que vai passar férias em Londres, Dublin e Edimburgo e, antes, marca uma depilação é...

a. doentio
b. razoável
c. descolado da realidade
d. normal. É verão na Europa, os termômetros vão marcar loucos 17 graus e nós vamos nos jogar na Serpentine. \o/

* * *

É incrível como seis pessoas que, antes, dividiam o espaço de um mero sobrado de dois quartos na rua dos Crisântemos possam ter se dispersado para tão longe.

Hoje as cinco pessoas que moraram comigo em quase toda minha memória de infância se espalham por cidades tão distantes quanto Curitiba e Bertioga. Mesmo as que moram perto ficam longe, de alguma forma, pelo trânsito, pela agenda, pelo adiantado da hora: Cotia, São Judas, São Bernardo, Cambuci.

Eu tenho muitas saudades destas pessoas todas. Eu tenho saudades de dividir um pacote de bolacha no sofá e brigar pela última, ou pelo sabor do pacote que deveria ser aberto: doce de leite, chocolate ou morango? As três eram definitivamente umas tranqueiras, mas cada um gostava de uma.

Eu tenho saudades de brigar pelo controle remoto e pelo melhor lugar do sofá. Eu tenho saudades de passar direto pelas pessoas de manhã, sem a obrigação de falar com elas.

Eu tenho saudades de quase tudo, e às vezes esta saudade fica forte mesmo, de doer a garganta, por mais que eu visite estas pessoas, às vezes menos do que eu gostaria.

* * *

Mas aí pelo menos você chega no trabalho segunda de manhã e as amigas elogiam sua bunda.

A mesma bunda que, poucos meses atrás, você descobriu que caiu sem aviso prévio, antes mesmo que você notasse que um dia sua bunda foi empinadinha.

terça-feira, 22 de março de 2011

Há limites

Quando eu era pequena e passava as férias na praia, às vezes todo mundo tinha preguiça e ficava acertado que teria bauruzinho de jantar. Aquele lanche de pão de forma com presunto, queijo e tomate, um clássico das casas de praia de todo o Brasil.


Então minha mãe comprava meio quilo de presunto, meio quilo de queijo e três pacotes de pão de forma. E aquilo tinha que virar bauruzinho para os 523 primos que estavam ali na casa de praia, jogando Jogo da Vida ou Rouba Monte ou zanzando em volta da casa, pelos corredores do quintalzão.


Logo, cada lanche levava tão somente uma fatia de presunto. Uma única, contada fatia, senão o presunto acabava antes. (E, se o presunto acabasse antes, faziam-se os lanches apenas com queijo).


Hoje eu ainda hesito ao estender a mão rumo a uma segunda fatia de peito de peru quando faço um lanche para o meu café da manhã. Porque este é o tipo de coisa que forja o caráter, dividir o presunto com 522 primos.


* * *


Minha mãe, por sua vez, quando era pequena, só comia apresuntado. E olhe lá.


* * *


A Lara não gostou muito do carpaccio que ela experimentou hoje, pela primeira vez, no restaurante tipo buffet aqui perto.


(Em compensação, adorou os chips de abobrinha e o tiramisú de rapadura).


Quando ela quis voltar a se servir e eu disse para ela usar o mesmo prato, ela comeu todo o carpaccio que estava no cantinho, sem reclamar.


Está forjando o caráter.


* * *


Fazer coisas que a gente não gosta forja o caráter. Mesmo que seja pelo prazer de se livrar delas quando a gente cresce.


Como colocar duas, às vezes três fatias de peito de peru no sanduíche das manhãs e se sentir feliz com isso.

* * *


O Arcade Fire não é uma bad hair band?

Ainda bem que eles não precisam ser mais uns rostinhos bonitos na multidão.

* * *

Only Dean has the magic technique.


segunda-feira, 14 de março de 2011

San Andreas Fault

"Go west, paradise is there"
-- San Andreas Fault, Natalie Merchant

Um dia minha mãe assistiu a um documentário sobre a Falha de San Andreas e ficou, como posso dizer?, fascinada.

Tão fascinada que me contou tudo a respeito.

Eu fiquei mais maluca ainda quando soube que existia uma rachadura especial sob a Terra. Como um pontilhado. E que todos esperavam que, um dia, este pontilhado se destacasse de vez. Esperam, ainda.

E eu ainda acho isso estranhamente aceitável e maluco.



* * *

Os temas de interesse da minha mãe são, como posso dizer?, um pouco como terremotos.

Ela se interessa (ou já se interessou) por coisas tão diversas quanto gnomos, tradições gaúchas e a série "Jornada nas Estrelas".

Eles vêm, sacodem a vida dela, botam algumas coisas para sempre em lugares diferentes e se vão.



quarta-feira, 9 de março de 2011

A completa desconhecida

"Stop telling the same story"
-- Ziggy Marley, Tomorrow People

Eu queria um grooveshark em que a gente digitasse "músicas da praia" e ele tocasse "Tomorrow People", "Corações Psicodélicos" e outras músicas que me lembram as tardes de chuva ou de sol em todos aqueles anos de Bertioga.

* * *

Um dia minha tia mais nova saiu para ir à padaria. Caiu a maior chuva e ela voltou para casa dividindo o seu próprio guarda-chuva com uma completa estranha. Só estávamos eu e minha tia mais velha em casa.

Ela parou na porta com aquela perfeita desconhecida ao lado e falou: "adivinhem quem eu encontrei na padaria?".

E eu pensei: "eu devia conhecer esta mulher?".

E minha tia mais velha ficou sem fala.

Como as crianças sabem que quase nunca estão por dentro do que acontece no mundo dos adultos, logo dei de ombros. Minha tia trouxe uma desconhecida em casa, mas tudo bem. Talvez eu esteja perdendo uma parte da história e, de alguma forma, isso é normal.

Aí a mulher foi tomar banho. E minha tia mais velha ficou no corredor, falando baixinho e fazendo caretas para a minha tia mais nova: "bom, agora ela está colocando todas as coisas de valor na bolsa".

E eu pensei: "mas o que ela pode roubar do banheiro? Sabonetes?"

Acho que minha tia mais velha falava mais para torturar a mais nova, recriminando a cabecice-de-vento da irmã caçula. Porque ninguém pode roubar algo de valor de um... banheiro.

(Tirando algum ladrão que entrasse no castelo daquele rei da França que mantinha a Mona Lisa no banheiro).

Minha tia mais nova era cabeça-de-vento e coração-de-ouro. Conheceu a mulher na padaria, deu carona para ela no guarda-chuva e, por alguma razão, se compadeceu dela e convidou-a para tomar banho em casa.

A mulher desconhecida aceitou a generosidade, tomou banho, foi embora e todos os sabonetes continuaram lá.

Minhas tias provavelmente nem se lembram desta história. E talvez ela nem tenha acontecido mesmo.

A gente preenche o passado com impressões e imaginação, e depois não sabe mais o que é cada qual.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A memória vívida do Carnaval

"Tem xinxim e acarajé,
Tamborim e samba no pé"
-- Samba-enredo da Mangueira, 1986

Se tenho uma memória vívida do sobrado do bairro Assunção, além das almofadas estampadas em círculos com verde de vários tons, ornando com a cortina, é que dia e noite, naquela casa, tocava o disco dos sambas-enredo do ano.

Dia e noite não. Noite só, que era quando meu pai chegava em casa. E os discos eram dele.

Às vezes a gente afastava as almofadas em vários tons de verde e a cadeira de balanço de vime e ficava dançando na sala.

E aí, naquela casa de um subúrbio paulista, eu virei uma torcedora fiel da Estação Primeira de Mangueira.

E desenhava com canetinha verde e rosa as saias da porta-bandeira.



- Para o meu pai.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Corte seco

Abri os olhos de manhã e vi um cursor de mouse estampado no cenário do meu quarto.

* * *

Nunca houve uma faca decente na minha casa de infância e adolescência, nem nas minhas casas adultas.

Era uma espécie de maldição, um encantamento que algum amolador de facas cigano deve ter jogado na minha mãe.

Não existia um conjunto completo de facas, como qualquer ser humano normal deve ter: uma de legumes, uma de carne, uma de pão, etc. Tinha uma faca boa - às vezes de lâmina, às vezes de serra - e muitas ruins.

E a gente descascava batata com faca de serra, porque era a única boa. No fim, a batata parecia uma ruffles.

Ou cortávamos pão com faca de lâmina, porque era a única boa. No meio do corte, terminávamos o serviço com a mão.

Anteontem eu comprei um conjunto de facas de marca boa, com quatro facas e, pasme!, uma tesoura de cozinha. (Na casa da minha mãe não se achava as tesouras nunca, fossem elas de qualquer cômodo. Muitas vezes a culpa era minha).

Custou só 86 reais.

Eu não sei porque demorei tanto.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lições da infância

Uma vez, quando eu era pequena, ganhei um quebra-cabeças.

Como balainho novo tem três dias de torno, eu não largava o quebra-cabeças. Para lá e para cá.

Mas, mesmo amando muito meu quebra-cabeças, depois de montá-lo no quintal com algum raro amiguinho da rua, deixei as peças lá, esparramadas sobre as lajotas da garagem.

Pouco mais tarde, fui procurar o quebra-cabeças lá, exatamente onde o deixei.

E nada de quebra-cabeças.

Sentei à mesa do jantar e perguntei para o meu pai se ele tinha visto o quebra-cabeças quando chegou do trabalho.

E ele: "não".

E eu: "ué".

E ele: "vai ver alguém roubou".

E eu (só pensando): "que tipo de gente serra um portão de alumínio para roubar um quebra-cabeças de 20 peças, e depois forja o portão rapidinho no mesmo lugar, sem deixar rastros?" (Eu já tinha analisado as barras do portão).

E ele: "você precisa aprender a guardar suas coisas direito".

E eu (só pensando): "acho que ele está tentando me dar uma lição".

Depois do jantar ele devolveu meu brinquedo.

Desde esse dia aprendi que dificilmente alguém invade uma casa para roubar um quebra-cabeças. Mas pais podem fazer coisas ainda menos sensatas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Matinal

Meus pais me mandam SMSs estranhos antes das 10 da manhã.

Minha mãe:

09:06
Oi
Esqueci de dar a grana do ímã.
Beijos

Meu pai:

09:22
Sabia que o melhor nhoque de Sampa é do Aguzzo e é seu vizinho?


Eles não sabem que ontem eu fui dormir às 3 da manhã, ainda meio bêbada, depois da festa da firma.

Mas, se soubessem, acho que mandariam estes SMSs mesmo assim.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Eu sou neguinha?

Meu cabelo sempre foi loiro e liso. Aí eu queria fazer uma permanente (não riam, eram os anos 80) e/ou cortar bem curto.

Mas meu cabelo, vejam bem, era incortável. Pelo menos na opinião geral. Porque era liso e loiro.

"Pra que vai cortar um cabelo tão bom, tão bonito?", me diziam.

Eu cortei meu cabelo com 21 ou 22 anos e nunca mais deixei crescer.

* * *

Um dia perguntei pro meu primo Roni, que desde muito antes de eu conseguir cortar meu cabelo usa a cabeça raspada, por que ele não deixava o cabelo crescer.

Ele riu e me disse: "cabelo de preto é ruim. Tem que raspar".




terça-feira, 2 de novembro de 2010

El día de los muertos

"The days to come, the days to share"
-- REM, Photograph

Na casa da minha avó era a maior economia.

O papel higiênico era Primavera, sempre. Áspero e cor de rosa.

As cascas de ovos iam para os vasos de orquídeas.

Os restos de sabonetes eram amalgamados em pequenas bolinhas multicor, que continuavam ali para se lavar as mãos.

O sofá era reencapado.

As pontas das canetas eram aquecidas na boca do fogão.


* * *
Minha avó sorria e me chamava de "boba" quando eu, fresca, não queria comer ou fazer alguma coisa. Ou quando eu respirava pela boca ao passarmos pelas barracas de peixe na feira.

Meu avô era enorme, esbravejava e consertava tudo.

(E gostava de jogar no bicho. Ao lado do telefone ficava um bloquinho impresso com siglas que eu não entendia. Fiz muitos desenhos e escritinhos nessas folhinhas, que mais tarde percebi que eram folhas de apostas de jogo do bicho, para todos, federal, essas coisas).

* * *
No fim, acho que a Nina gostava do Berto.




segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Macarrão com cebolinha

Quando eu tinha uns 20 e poucos, trabalhava em uma pequena agência que fazia uma revista de decoração meio tosca.

A "redação" se resumia a mim, outro jornalista e uma estagiária, a Giu.

Nessa época, meu irmão tinha uns 15 ou 16. E me ligava pelo menos uma vez por semana, perto da hora do almoço, para saber como fazer macarrão com cebolinha.

A receita de macarrão com cebolinha é muito simples. Consiste, basicamente, em macarrão cozido com molho de manteiga e cebolinha frita (na própria manteiga).

Mas o João Paulo nunca se lembrava do que tinha que colocar primeiro na panela: o macarrão? A manteiga? A cebola?

A receita é bem simples e o macarrão com cebolinha pode ser obtido assim: cozinhe o macarrão; reserve*; frite cebola bem picadinha em uma ou duas colheres de manteiga; jogue o macarrão dentro; salpique com queijo ralado a gosto e está pronto.

Acho que a parte do "reserve" é a chave do preparo, e é justamente a que fugia ao João Paulo toda vez. Então ele achava que aquilo tudo ia sair de uma mesma panela: macarrão, água, manteiga, cebolinha. Até o queijo ralado, quiçá.

Até a Giu aprendeu a fazer o macarrão com cebolinha.

Já o João Paulo, não sei. Acho que ele aprendeu. Ou nunca mais teve vontade de comer.


* Pode-se, inclusive, reservar o macarrão na própria tampa da panela, se você quiser economizar louça. Mas isso pode causar acidentes como: queimaduras nas mãos do cozinheiro ao pegar a maldita tampa pela borda para misturar a massa ao molho; perda parcial ou total da massa para o ralo da pia devido à instabilidade da tampa, quando colocada de ponta cabeça; ou, ainda, ambas as anteriores.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um branco, um xis, um zero

2010. A Lara entrou no meu quarto e falou:

- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.

1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.

- Minotaure.

Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).

Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.

Não é mais o menino. É só o perfume.

Léxico familiar


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Igual ao meu avô

Mi allontano dalla patria... San Giuseppe proteggimi!
-- Título de um manual de ajuda aos emigrantes italianos, Museo Della Emigrazione Italiana, Roma

O meu avô era igual ao Adoniran Barbosa, mas sem a ternura.

Ele se chamava Umberto sem H. Italianíssimo, mas nascido no Brasil das comidas gigantes.

Ele usava invariavelmente uma regata branca por debaixo da camisa. Ele nunca usou camisetas. Nem tênis. Só camisa. Com regata branca por baixo. E calças de alfaiate.

A regata branca era parte integrante do pacote e não podia ser vista separadamente. A não ser quando ele estava em casa. Aí ele tirava a camisa e ficava de regata branca, calças de alfaiate e com aqueles chinelos de velho.

Hoje eu fui trabalhar com uma calça de alfaiate. E regata branca.

Eu sempre me sinto parecida com o meu vô quando me visto assim.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pequeno dicionário amoroso

G - Gut!, substantivo próprio. 1. revista de modelos feita à canetinha. 2. fig. interjeição que sempre era falada pelas modelos da capa.
O tempo é pródigo e livre quando você é pequeno. Para preenchê-lo, além de assistir ao Viva a Noite e ao Comando da Madrugada quando nossos pais saíam e nos deixavam por conta, a Tati e eu desenhávamos revistas de moda. A brochura era improvisada com cinco ou seis folhas sulfite dobradas ao meio e grampeadas bem no canto. Depois, desenhávamos as modelos - elas invariavelmente tinham caras quadradas - envergando os looks - sempre divididos em classificações como 'praia', 'campo', 'cidade' e... 'punk' (?!). A modelo mais legal era eleita em uma reunião editorial do nosso staff de duas pessoas, e refeita em tamanho maior, ou em uma pequena variação de pose, na capa. E da boca da modelo da capa *sempre* saía um balãozinho onde se lia... Gut!

H - Hadibre, substantivo próprio. 1. rei mandão.
Eu gostava muito de preencher folhas de linguagem com composições. Às vezes as folhas de linguagem, que eram quadradas e achatadinhas, com dois furos na margem, para prender com bailarinas, acabavam cedo demais (na história). Aí eu ganhava folhas de papel almaço e me dedicava a enchê-las com o resto do enredo. Uma das minhas composições mais longas se chamava "A história de um rei mandão chamado Hadibre" e eu não me lembro muito bem da trama, muito menos de onde veio esse nome (possivelmente do banco de nomes da escrivaninha. V. escrivaninha). Possivelmente era um amontoado de clichês, mas eu tinha oito anos e decorei toda a história com figurinhas recortadas de gibi, então tirei um "Excelente!". Com exclamação.

I - Itatinga, substantivo próprio. 1. vila fundada no início do século 19 nos arredores de Bertioga, onde meus primos moravam. 2. 'Pedra branca', em tupi-guarani.
O Itatinga era uma vila encravada entre a serra e o mar, no meio da Mata Atlântica, em Bertioga. A vila foi construída por engenheiros ingleses, que cravaram uma usina ali, no meio do mato. A Usina Hidrelétrica do Itatinga fornecia energia para a cidade (ou para o porto?) de Santos. Não me lembro bem, mas lembro que meu tio trabalhava lá e, portanto, morava na vila do Itatinga com sua mulher e seus quatro filhos, meus primos. Sempre que a gente ia para Bertioga visitava o Itatinga. Tinha que pegar uma estrada de terra, um barco para atravessar o rio Itapanhaú e um bondinho que ia pelo meio da mata, por uma meia hora, até dar na vila: duas fileiras de casas de madeira amarelas, com janelas e portas verde-água, que apontavam para a imponente usina de pedra ao pé da serra, lá no fundo. Tinha um grupo escolar, uma capela, um ambulatório. Demorou muito para ter um orelhão. Parecia os anos 50. Era incrível. Era tipo o paraíso. Até você morar lá.

Meus primos sempre iam para a casa de Bertioga nas férias de verão. O intercâmbio era mão única: eles na minha casa, em Bertioga ou em São Bernardo. Até que certo ano, por alguma razão, o intercâmbio foi mão dupla. Minha mãe levou o Roni e me deixou. Eu quase morri no Itatinga. Foram os 3 ou 4 dias mais longos da minha vida. Eu não gostava da comida da minha tia. Eu era picada por borrachudos. Eles tomavam toddy, e não nescau (meus primos, não os borrachudos). A gente assistiu "A Mosca" no videoclube à noite. Eu voltei para casa achando que, a qualquer momento, ia ser atacada por uma gigantesca mosca metamorfoseada, igual à do filme, saída de qualquer um dos arbustos que cercavam o caminho. O orelhão estava quebrado e eu tentava me conectar telepaticamente com a minha mãe para ela vir me buscar.

Acho que deu certo. Ela apareceu uns dias antes do combinado, com o Roni todo pimpão e feliz pela temporada longe de casa. E eu passei todos aqueles longos dias assistindo filmes de terror e tomando toddy, e não nescau.

domingo, 15 de agosto de 2010

Assim é a vida, Charlie Brown

Eu tinha 16 anos e era aula de Filosofia da Educação.

O professor se chamava Luis e as meninas achavam ele gatinho. Eu achava ele blasé.

Ele entrou e disse: "não se pode inventar nada que já não exista".

Eu pensei: "que tonto, eu mesma já inventei um monte de coisas que não existem" e já ia dizer: "olha, eu imaginei um monstro de geleia azul, com olhos de mola e meias vermelhas, por acaso isso existe? Não? Então eu inventei algo que não existe, como queríamos demonstrar", mas alguma menina com imaginação menos saltitante foi mais rápida:

- Mas e se eu inventar uma bruxa, professor?
- Bom, uma bruxa não existe, mas é a combinação de características e coisas que existem: uma mulher existe. Chapéu pontudo existe. Vassoura existe. Caldeirão existe. Verruga na ponta do nariz existe. Tudo o que você faz é imaginar uma combinação, não algo realmente novo.

Surtei.

Essa foi uma das grandes descobertas da minha vida.

Assim como quando minha mãe me contou que a bucha do banheiro era uma planta (isso explicava as misteriosas sementes que apareciam dentro dela!) e que é a gente que esquenta o cobertor, e não o cobertor que esquenta a gente.

A verdadeira sabedoria vem de onde a gente menos espera. Como o box do banheiro ou a sala de aula.