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terça-feira, 6 de setembro de 2011

60/90

Um dia eu tava no 775 F-10 e tinha um bêbado no banco do fundo.

Toda vez que o ônibus parava no ponto, ele puxava um corinho:

"Por que parou? Parou por quê? Por que parou? Parou por quwajfas ah ah ah (risada de bêbado)".

Ninguém deu confiança.

* * *

Minha adolescência, nos anos 90, foi vivida nos anos 60.

Teve "Anos Incríveis", teve "Forrest Gump", teve "Diana" do Paul Anka e "Never Can Tell" com o Chuck Berry, da trilha sonora do "Pulp Fiction".

Teve um revival hippie, teve Black Crowes e a Mariah de blusinha de crochê no videoclipe de "Heartbreaker".

Tinha Alpha Memory todo dia de manhã, com "My Pledge of Love".

Eram os meus anos incríveis particulares. Paz, amor (platônico) e Gudang Garam. Oh, please, stand by me. Longas tardes esperando o telefone tocar. Longas noites esperando o sol nascer.

Não quero voltar, nunca quis.

Mas às vezes tenho muitas saudades.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Never mind the gap

Faz tempo.

* * *

Sempre que eu ouço o Ney cantando bem melífluo sobre o amor da flor de cactus, eu penso nesta pintura da Tarsila. Que nem é um cactus, mas um manacá.

* * *

Eu acho que nunca vi um manacá de verdade. Se vi, não sabia o que era ou não prestei atenção.

Assim como nunca vi uma groselha, nem um sagu.

* * *

O mês passado nas ilhas me levou a algumas observações safadas e genéricas sobre os ingleses.

Os ingleses têm três grandes obsessões, sendo a primeira as coisas feitas da maneira proper e a própria palavra em si. Tudo é ou deveria ser proper, até os cachorros-quentes e hambúrgueres.

A segunda (obsessão) são os trocadilhos, que vão das manchetes de jornais (ver "Fish in best ever shape after cutting the chips") aos nomes das lojas (ver a enoteca "Planet of the Grapes") aos títulos dos grandes clássicos da literatura nativa (ver "The Importance of Being Earnest").

E sendo a terceira o ameaçador, assustador, perigosíssimo e insidioso...

THE GAP.

Eles passam metade do tempo mandando você tomar cuidado com ele em todas as estações do metrô, às vezes com anúncios de voz escabrosa. Como se um vão de dez centímetros entre o trem e a plataforma fosse a maior ameaça viva ao império britânico nestes tempos de crise.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Entre sem bater

"Brutalize me with music"
-- Bob Marley, Trenchtown Rock

Sempre amei essa música, mas só hoje vi as letras. E descobri esta versão do Sublime.

Só fica melhor. E é tudo verdade, todo verso. Porque, no fim, you gotta tell Jah.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Racio-símio

Quando você é legal, pega um punhado de trocadilhos e chavões e faz uma música assim:




Quando não, faz essa bosta:




* * *

Aliás, eu não quero ser aquele tipo de fã cretino que reclama a cada menção de mudança de uma banda. Mas como os Titãs eram legais.

E não são mais.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Enquete

O trecho "Manequim, mil carinhas com o queixo na mão" se refere...

a. às poses que a suposta modelo e tema da música faz, colocando as mãos sob o queixo, conforme visto aos 2:00 (finge que ele é a manequim)

b. aos meninos que estão atrás da modelo, com o queixo caído?

Sério, eu nunca consegui chegar a uma conclusão a respeito.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

The royal we

Matei a academia para comprar flores, vir para casa e ver o por-do-sol.

Até tirei umas fotos para comprovar minha serelepice. Mas o celular e o computador não conversam, o piano anda bebendo e foi impossível colocá-las aqui.

De qualquer forma, o céu agora está azul cobalto. E eu tô aqui sem fazer nada. Matando as saudades do tempo livre.

* * *

Realeza é, de certa forma, saber de onde você vem.

A rainha Ellizabeth II deve ser capaz de remontar sua linhagem por umas 25 gerações passado adentro.

A vendedora da loja em Roma, Solo Roma falou para mim e para minha mãe, com orgulho, que a família dela era romana de verdade -- porque uma pessoa só é romana se a família dela está na cidade há pelo menos sete gerações.

(Magari un po 'razzista. Definitivamente italiano).

Eu sei mais ou menos de onde eu venho.

A parte que eu não sei, invento.
.
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(Como meu trisavô pirata que singrava os mares com um lêmure de estimação em vez de um papagaio. O bicho sempre rejeitou os biscoitos que o velho oferecia por cima do ombro. Meu trisavô, meio cego, nunca suspeitou do porquê).

* * *
O piano anda bebendo e não sou eu que estou falando.


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Harder, better, faster, stronger

Às vezes eu me pego dançando sozinha, bem devagarzinho, no trabalho. Como se não tivesse ninguém em volta. Como se todos os computadores sumissem.

Depois eles voltam e as pessoas também e, no fundo, eu nem ligo se tiver alguém vendo.

Hoje a culpa foi do Daft Punk.

* * *

Mulheres fingem orgasmo. Se alguma disser que nunca fingiu, provavelmente está mentindo. Como os homens que dizem que nunca brocharam.

Mulheres fingem orgasmos porque estão entediadas. Porque querem resolver logo. Porque já estão satisfeitas. Porque têm mais o que fazer. Porque estão com calor demais. Porque se angustiaram. Porque vai começar o Letterman e seu ator favorito vai estar lá. Porque estão com fome e querem comer logo. Porque não querem ferir o orgulho masculino. Porque não querem ferir o orgulho feminino. Porque estão com preguiça de explicar. Porque estão com preguiça de aprender.

* * *

"Cantor do Black Eyed Peas vira diretor criativo da Intel" e "Condessa quer despejar João Gilberto". Em que mundo estamos vivendo, meu Deus?


domingo, 9 de janeiro de 2011

Meus amigos invisíveis

"C'est la vie, say the old
folks, it goes to show you never can tell"
-- Chuck Berry, Never can Tell. Da
trilha de Pulp Fiction


O Mestre dos CDs deixava avisos ciosos e meio ameaçadores para mim.

"Não encoste o dedo no CD!"

"Cuidado ao tirar o encarte!"

"Atenção! Estou de olho!"

Tudo isso em papeizinhos enfiados nas caixas dos CDs que ele me emprestava. Não sei como ele arrumava tanto lugar onde por bilhetinhos em um simples CD. Quando você menos esperava, caía de alguma parte da caixinha um pedaço de papel assinado, que descia rodopiando até o chão:

"Assinado: Mestre dos CDs"

Sempre escrito em letra bastão, uma caligrafia ciosa como ele era com os CDs.

Tá certo que eu não acreditava no preceito básico de "guardar um CD dentro da caixa que lhe é correspondente". E eu ria na cara da ideia de "manter os CDs em ordem alfabética". Mas, na cabeça do Mestre dos CDs, toda vez que fosse ouvir uma música, eu provavelmente sentiria uma vontade louca e descontrolada e lambuzar os dedos de manteiga, e isso seria fatal.

Eu não ligava, ciosa como eu era com ele.

E ele era meu melhor amigo, o Mestre dos CDs.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bombril

(Not so) secretly feeling like shit.

* * *

Sabe, eu acho que as pessoas já podiam parar de publicar esses livros começados com "1001".

"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer"

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer"

"1001 Livros Para Ler Antes de Morrer"

"1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer"

"1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Comidas Para Provar Antes de Morrer" (cuja capa é uma lagosta CLARAMENTE tentando escapar da panela, que tipo de gente faz isso?)

Se for para ficar só nestes, eu já tenho SETE MIL E SETE porras de compromissos. Ou seja, já lotou.

E, para dizer a verdade, no fundo esse tipo de livro estimula outra atividade: 1 milhão e oitocentos mil downloads para fazer (sendo que você não vai usufruir de metade).

Joga lá no Google p'cê ver.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As rampas do planeta

Quando eu era pequena, minha mãe ouvia um LP da Gal chamado "Profana".

Tinha uma capa preta, com a cara bem de perto de uma Gal bem branca, com batom vermelho. Meio vampiresca. Eu podia olhar no Google e confirmar. Mas na minha cabeça era assim.

Eu gostava da música "Vaca Profana". Porque eu fazia imagens (loucas) das coisas (loucas) de que a letra falava, sem saber muito bem onde ficava Tel Aviv ou quem era Thelonious Monk. Mas eu literalmente viajava com aquilo.

Além de tudo, ela falava tetas. Era meio que um prazer clandestino, um semipalavrão.

Mas o que eu mais me lembro é que eu pensava que a Gal falava das "rampas do planeta", não das "Ramblas do planeta". Só fui descobrir quando fui a Barcelona. Com mais de 25 anos.

E o lance da orchata de chufa descobri ano passado.

Não que faça muita diferença, no fim, eu acho.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Levanta, defunto

"I felt so much love this mornin'"

-- Joe Jeffrey Group, My Pledge of Love

Joe Jeffrey Group: me ajudando a levantar da cama desde 1995 (quando eu ouvia Alpha Memory).

sábado, 9 de outubro de 2010

Vale tudo

Olhar a Gal cantando sem camisa é que nem espiar o mecanismo de um relógio por dentro.

Olha esse diafragma, Brasil.






PS: Curti os peitinhos também.

* * *

Na fila da farmácia

Puta merda. Me diz que não é a Claudia Leitte ali no pacote de modess.

Caralho. É.

E ela ainda está fazendo a princesinha.

Não há limites.

* * *

Eu forço ligações, como um ladrão de carros.

Viu? Fiz de novo.

Mas, desta vez, o segredo está no título.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um amor absoluto pelo homem que eu vi

Como eu vivi até hoje sem essa música?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tempos difíceis

"She totally confused all the passing
piranhas"

-- Presidents of the USA, Lump
Quando eu estava no terceiro ano colegial não havia internet. Pelo menos, eu não conhecia ninguém que tivesse.

Eram tempos difíceis para quem queria cantar direito suas músicas favoritas em inglês: poucos CDs tinham encartes, a Bizz Letras Traduzidas saía em uma periodicidade muito particular, quiçá insondável, e os folhetos da Fisk praticamente só tinham músicas do Roxette e do Bryan Adams.

Então, se você gostava de Presidents of the United States ou daquela música cantada por uma mina na trilha sonora do Pulp Fiction, tinha que se esforçar. E tirar de ouvido.

Aí, quando eu estava no terceiro ano colegial, um menino da minha classe foi estudar um semestre nos EUA.

Eu até gostei mais dele, que eu achava bobo antes, depois disso.

(Talvez porque eu gostasse de me apaixonar um pouco pelas coisas que estavam indo embora).

E na volta o menino ganhou alguma reputação, porque cantava "Lump" de cor e salteado, sem errar, nem embromar.



Esse era o tipo de coisa que te dava alguma reputação em 1995.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos

But it takes so long, my lord
-- George Harrison, "My Sweet Lord"
Aí que quando vi pela primeira vez as fotos da Beatriz -- que, veja só, eu só conheço em fotos -- me apaixonei de imediato por ela. E estava tocando "Shine Yellow", da Mallu. E essa virou a música da Beatriz.



E pouco antes do Pedro nascer -- depois de uma gestação que para nós, os mais de 35 mil espectadores pagantes (e ansiosos), pareceu levar cinco anos -- eu fui à casa dos pais dele e joguei Beatles Rock Band. E a gente, que enchia a sala, cantou "Dear Prudence". Tudo horrível, desafinado e cheio de amor. E essa virou a música do Pedro.



E quando eu soube que ia ser madrinha do Caetano, meus olhos se encheram de água e meu coração também. E o Winamp começou a tocar "My Sweet Lord". Que, no fundo, é uma oração. E essa continua sendo a música do Caetano.



Eu dou sorte com as circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos.

sábado, 31 de julho de 2010

Oito anos

Um dia qualquer no segundo semestre de 1986.

- Como assim, mãe, ele estava andando de camelo na cidade?
- "De camelo" quer dizer "a pé", Cla.

- E ela tinha uma lata de tinta no cabelo?!
- Ele quer dizer que ela tingia os cabelos.

- Ah. E nada a ver isso, "ela era de leão e ele tinha 16". Por que ele não fala a idade dela também? Não tinha que ser idade com idade?
- O que ele quer dizer, Cla, é que ela tinha uma personalidade forte, de um signo forte, e ele era novinho ainda, bem moleque, mais frágil que ela. Olha só, ela gosta de um monte de bandas e artistas importantes, e ele gosta de ver novela e brincar com o avô.

- Ahn, entendi.
- Viu? Aí eles ficam juntos e ele muda, mas ainda assim ela já está se formando quando ele entra na faculdade. Ela era super cabeça e ele era brincalhão.

- Mas aí, se ele mudou, por que no fim ele fala que "o filhinho do Eduardo tá de recuperação"? O filho não é dos dois, mãe?
- É, mas ele quer dizer que tem coisas que nunca mudam.

Minha mãe me ensinou a ler quando eu tinha 4 anos e nunca mais parou.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Very supersteentious

Quando eu era adolescente praticava um sem número de superstições bobinhas das quais me lembro até hoje.

Se você falava uma mesma palavra junto com outra pessoa, tinha que pegar no verde e dizer "sorte para mim, sorte para você". Mas eu jamais fazia isso na frente de um menino.

Se tinha um fiapo na sua blusa é porque um menino estava pensando em você. Se o fiapo fosse escuro, era um menino moreno. Se fosse branco ou claro, era um loiro.

Se você olhava para o relógio e ele estivesse marcando 13:13, 14:14, 21:21 ou similares, era para pensar no menino porque ele estava pensando em você.

Nossa. Como a gente era casadoira.

Ou eram só os hormônios em ebulição?


Para ler ouvindo Superstition, do Stevie Wonder:

sábado, 26 de junho de 2010

Sometimes the clothes do not make the decade

"Gotta have some faith in the sound
It's the one good thing that I've got"

Há 20 anos George Michael lançava "Freedom '90".

Quer dizer, não há 20 anos exatos, porque o single saiu em 15 de dezembro.

Era o fim dos anos 80 e George declarava ele mesmo, em alto e bom som, que já não era mais aquele, olha a cara dele.




Uma nova década parecia surgir no horizonte, com a promessa de faces como Linda Evangelista, Cindy Crawford, Christy Turlington e Tatjana Patitz deixando para trás a era de Magda Cotrofe e Kelly LeBrock. Com a esperança de nunca mais cortarmos os cabelos daquele jeito ridículo ou de combinarmos rosa choque com amarelo e verde abacate.

Mal sabíamos que os anos 80 ainda iam durar mais 20 anos.

Mas a música continua uma delícia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mine've been like Verlaine's and Rimbaud

Então, ao que eu entendi, um poeta casado de 27 anos caiu de amores por um enfant terrible, não menos talentoso, de 17. E o século em vigor ainda era o 19. Muitos números.

Chamou o menino para morar na casa dele, e não nos admiremos que a esposa não curtiu.

Ele vivia de versos e absinto e da obsessão pelo enfant, e a mulher, que absolutamente não tinha nada a ver *com* nem como lutar *contra* aqueles olhos azuis e aquele cabelo em irresistível desalinho, se encheu.

O poeta mais velho foi para Londres com o menino, também poeta e não menos terrible, a tiracolo. Uma vida de pobreza em Camden e dias na Biblioteca Nacional para não passar frio.

Quando o menino decidiu ir embora, o mais velho foi na estação de trem. Deu basfond e atirou.

Foi preso, se converteu ao catolicismo, a mulher já tinha dado linha na pipa.

O menino virou traficante de armas.

E os dois viraram versos de uma música linda do Bob Dylan.

(Mas que eu conheci pela Madeleine Peyroux, porque eu quase sempre conheço as versões pelo lado torto).

E o referido é verdade e dou fé.

Mas com essa cara até eu, né, Yolanda?

terça-feira, 18 de maio de 2010

Música de verão

Gravado entre 67 e 68, "The Papas & The Mamas" foi lançado pela banda de nome contrário em maio do ano que não terminou. Ao contrário do ano, tanto a banda quanto o álbum acabaram em grande estilo: com Midnight Voyage, uma música que eu ouço há 16 anos.



E só hoje descobri que o Little Joy fez uma versão ano passado. 41 anos depois da gravação da música, 16 anos depois de eu ter transformado, à revelia de todos os primos adolescentes, o meu The Mamas and The Papas: 16 of Their Greatest Hits - descoberto e adquirido em suave negociação com meu pai em uma visita ao Carrefour Anchieta - no hit álbum absoluto do verão de 1994, em Bertioga.

Tenho até hoje. Mas começa a pular em Monday Monday e só para em My Girl. Ainda bem que a excelente Dream a Little Dream of Me de Mama Cass permanece intocada.