Mostrando postagens com marcador 1995. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1995. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uma mulher melhor

"She practices her speech as he opens the door"
-- Pearl Jam, Better Man

Outro dia vi uma foto no Facebook (onde mais o passado bate à sua porta antes de ser chamado?) e, naquela única imagem, tinha umas 5 ou 6 paixões da adolescência. Não peguei nenhuma, claro.

Minto. Peguei uma, sim, a mais duradoura.

Mas guardo bilhetes e provas materiais só de outra, reminiscências de quando você tem 13 anos, é jovem e tola e acha que tem uma verve literária nos seus bilhetes de escola.

(Com 17, você acha que jovem e tola era a menina de 13, embora fosse incapaz de ver quantas vezes o amor estava ali, sorrindo e acenando na porta ao lado).

I just couldn't find a better man.

Hoje os amores estão casados, são pais ou professores assistentes em universidades nórdicas. E eu acho que jovem e tola *mesmo* é sempre a gente mesma, ontem.

Hoje eu já sou velha e mais feliz.

* * *

As pessoas que cultuam a juventude nunca estiveram em uma seleção de estagiários, as mãozinhas delas tremendo enquanto seguram os papéis onde fizeram uma colagem para representar quem elas são (!).

Imagina o James Dean numa dinâmica de estágio, fazendo uma colagem para representar quem ele é.

Pronto, acabou culto à juventude.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

60/90

Um dia eu tava no 775 F-10 e tinha um bêbado no banco do fundo.

Toda vez que o ônibus parava no ponto, ele puxava um corinho:

"Por que parou? Parou por quê? Por que parou? Parou por quwajfas ah ah ah (risada de bêbado)".

Ninguém deu confiança.

* * *

Minha adolescência, nos anos 90, foi vivida nos anos 60.

Teve "Anos Incríveis", teve "Forrest Gump", teve "Diana" do Paul Anka e "Never Can Tell" com o Chuck Berry, da trilha sonora do "Pulp Fiction".

Teve um revival hippie, teve Black Crowes e a Mariah de blusinha de crochê no videoclipe de "Heartbreaker".

Tinha Alpha Memory todo dia de manhã, com "My Pledge of Love".

Eram os meus anos incríveis particulares. Paz, amor (platônico) e Gudang Garam. Oh, please, stand by me. Longas tardes esperando o telefone tocar. Longas noites esperando o sol nascer.

Não quero voltar, nunca quis.

Mas às vezes tenho muitas saudades.

domingo, 4 de setembro de 2011

If you can believe your eyes and ears

If you had such a dream
would you get up and do the things you’ve been dreaming
?
-- Belle & Sebastian, I Could Be Dreaming

Lavei o rosto, ajeitei o cabelo, escovei os dentes. Corri para a cozinha para deixar o café passando. A cafeteira estava suja, tive que lavar (nunca mais deixo a cafeteira suja de véspera). Acendi o fogo com fósforo, a ignição não funcionou.

Voltei pro quarto. Telefonei para a Ceretti, ela podia ir me seguindo de bicicleta. Vesti uma roupa. Não gostei. Corri até a lavanderia e peguei outra calça. Não vai dar tempo de maquiar. Lembrei que precisava por gasolina no carro. Senão não chego.

Tomei o café, mastiguei alguma coisa. Chamei o elevador enquanto trancava a porta. Tirei o carro da garagem tão rápido que nem me lembro. Encostei no posto, "põe 50 de álcool, por favor?".

E aí acordei.

Odeio perder a hora quando já estava quase lá.

E, pior ainda, eu não ia ver a Ceretti.

* * *

Ontem aconteceu uma coisa que eu achei que não ia viver para ver: conheci o apartamento do Dener. Do Dener mesmo, onde ele vai morar/está morando sozinho.

Levei uma peça de peito de peru. Daqueles pequeninos, para lanche, embalados a vácuo. Para ele cortar as fatias de cinco dedos de espessura, que ele tanto gosta, e comer puro, como ele fez tantas vezes nas casas alheias.

Levei um baleiro cheio de 7 Belo e Bolete, duas das poucas coisas verdadeiramente boas e baratas da vida.

E uma cesta com danoninho de potão (porque ele já é grande), flan e danete branco. Porque agora ele pode encher a geladeira da casa dele com todas as delícias que a gente sempre sonha comprar no mercado quando a gente for morar sozinho.

Com novos amigos na sala, contamos mais uma vez a história de quando ele foi assediado pelo enfermeiro afrescalhado no PS de Mongaguá.

Fiquei pensando se sonhamos essa história, de tão boa que ela é. Mas acho que sonhamos quase nossa adolescência toda, e sei que sou loucamente privilegiada de ainda ver e amar as pessoas que sonharam comigo.
As coisas boas e baratas da vida

domingo, 3 de abril de 2011

The hardest years


"Eu não encho mais a casa de alegria"
-- Titãs, Não Vou me Adaptar
A adolescência é uma merda.

Quer dizer, é uma época mágica e etc, mas suas roupas param de servir, seu olhar muda e seu quintal continua do mesmo tamanho. É cruel.

Mas o pior é a desproporcionalização. Nada está do tamanho que devia estar. Nem o seu nariz, muito grande; nem a sua bunda, muito pequena; nem suas ambições, desmedidas; nem os seus pelos, muito longos; nem seu cabelo, muito curto; nem suas dores, infinitas.

Em "Persépolis", tem uma cena que mostra isso perfeitamente.




Na verdade, adolescer é um mal necessário, seja em São Bernardo ou no Irã (ou melhor, exilada em Viena).



(Dedicado ao Ricardo)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Meus amigos invisíveis

"C'est la vie, say the old
folks, it goes to show you never can tell"
-- Chuck Berry, Never can Tell. Da
trilha de Pulp Fiction


O Mestre dos CDs deixava avisos ciosos e meio ameaçadores para mim.

"Não encoste o dedo no CD!"

"Cuidado ao tirar o encarte!"

"Atenção! Estou de olho!"

Tudo isso em papeizinhos enfiados nas caixas dos CDs que ele me emprestava. Não sei como ele arrumava tanto lugar onde por bilhetinhos em um simples CD. Quando você menos esperava, caía de alguma parte da caixinha um pedaço de papel assinado, que descia rodopiando até o chão:

"Assinado: Mestre dos CDs"

Sempre escrito em letra bastão, uma caligrafia ciosa como ele era com os CDs.

Tá certo que eu não acreditava no preceito básico de "guardar um CD dentro da caixa que lhe é correspondente". E eu ria na cara da ideia de "manter os CDs em ordem alfabética". Mas, na cabeça do Mestre dos CDs, toda vez que fosse ouvir uma música, eu provavelmente sentiria uma vontade louca e descontrolada e lambuzar os dedos de manteiga, e isso seria fatal.

Eu não ligava, ciosa como eu era com ele.

E ele era meu melhor amigo, o Mestre dos CDs.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Levanta, defunto

"I felt so much love this mornin'"

-- Joe Jeffrey Group, My Pledge of Love

Joe Jeffrey Group: me ajudando a levantar da cama desde 1995 (quando eu ouvia Alpha Memory).

sábado, 9 de outubro de 2010

Como se fosse 95

Um dia eu acordei e me senti em 1995.

Não é que eu me lembrei por um instante de como era estar no terceiro ano colegial. Ter 17 anos e 43 quilos. Precisar de um emprego. E de pernas mais grossas. Ser apaixonada por um garoto que não queria namorar comigo. Achar Pulp Fiction o melhor filme da história. Namorar garotos que eu não queria tanto namorar. Ter a vida toda pela frente, mas achar que o mundo ia acabar se a minha mãe não me deixasse sair naquele sábado. Arranjar novos amigos. Viajar com eles. I can't stop loving you. Take me out tonight. Fumar cigarro de cravo. Ver a Roberta todo dia. Acordar ouvindo músicas dos anos 60. Passar delineador às 6h30 da manhã. Entrar em uma sala luminosa às 7h30, meio atrasada e procurando o menino de rabo de olho. Escrever artigos para o jornal da escola. O cheiro do anfiteatro. O fusca da Rose, que levava a gente para fazer as reportagens do jornal. O fichário encapado com contact, uma foto PB da Marilyn de um lado, uma propaganda de cigarro do outro. Dormir à tarde. Acordar e assistir Cavaleiros do Zodíaco. Minha mãe meio longe. Uma irmã meio nova. Estudar Física, Química e Biologia. Querer ser diferente. Rezar para ser igual.

Não. Nada disso.

Um dia eu simplesmente acordei como se fosse 1995. E eu fosse a menina de 17 anos, 43 quilos etc e tal.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tempos difíceis

"She totally confused all the passing
piranhas"

-- Presidents of the USA, Lump
Quando eu estava no terceiro ano colegial não havia internet. Pelo menos, eu não conhecia ninguém que tivesse.

Eram tempos difíceis para quem queria cantar direito suas músicas favoritas em inglês: poucos CDs tinham encartes, a Bizz Letras Traduzidas saía em uma periodicidade muito particular, quiçá insondável, e os folhetos da Fisk praticamente só tinham músicas do Roxette e do Bryan Adams.

Então, se você gostava de Presidents of the United States ou daquela música cantada por uma mina na trilha sonora do Pulp Fiction, tinha que se esforçar. E tirar de ouvido.

Aí, quando eu estava no terceiro ano colegial, um menino da minha classe foi estudar um semestre nos EUA.

Eu até gostei mais dele, que eu achava bobo antes, depois disso.

(Talvez porque eu gostasse de me apaixonar um pouco pelas coisas que estavam indo embora).

E na volta o menino ganhou alguma reputação, porque cantava "Lump" de cor e salteado, sem errar, nem embromar.



Esse era o tipo de coisa que te dava alguma reputação em 1995.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um branco, um xis, um zero

2010. A Lara entrou no meu quarto e falou:

- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.

1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.

- Minotaure.

Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).

Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.

Não é mais o menino. É só o perfume.