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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Oxítona, paroxítona, proparoxítona

A última vez que eu chorei foi quando a minha amiga me contou como tinha contado para a afilhada dela que a mãe (da afilhada) tinha morrido.

A penúltima vez que chorei foi porque eu pensei que era um tipo de pessoa, mas não era.

A antepenúltima vez que eu chorei foi no show do Arcade Fire no Hyde Park.

(Mas dessa vez eu estava com a cara cheia. Não sei se conta).

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A ante-antepenúltima vez que eu chorei foi quando meu irmão me contou que a filha dele vai se chamar Clara em minha homenagem. Eu mal posso me conter em mim quando conto isso para qualquer pessoa.

* * *

Acabo de perder o controle remoto do dock do iPod embaixo do sofá. Estou à mercê do shuffle.

Por enquanto tá tudo bem, estamos com "Strange Currencies".

* * *

E quando você está irritada eternamente, queima demais o açúcar do chá antigripal, não consegue inicializar o próprio computador, não encontra os acentos no computador emprestado e ainda perde o controle do dock debaixo do sofá?

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Você nem imagina o que tem no seu iPod até perder o controle do dock.


sábado, 7 de agosto de 2010

Sem figuras

As figuras de linguagem atrapalham minha vida.

Depois de tantos cantores e poetas declararem que pensam em alguém todo dia, como é que eu vou falar pro meu amigo Caio que pensei nele duas vezes esta semana?

Parece pobre.

Pensei com afeto, espontaneamente, de coração. Do nada. Não é que lembrei que ele me deve um layout para este blog, nem que olhei uma fotografia de Salvador e pensei "puxa, é mesmo, olha o Caio".

* * *

As figuras estabelecem um novo padrão de carinho. Um padrão hiperbólico. Mais beijinhos que peixinhos no mar. Pensar em você todo orado dia.

Não há quem aguente.

(Além do mais, pensar em alguém todo dia não é necessariamente bom. Você pode pensar no filhodaputa que te passou herpes, por exemplo).

* * *

Quando o João Paulo era pequeno, ele chamava aquele formigamento da língua em contato com o gás do refrigerante de "figuras".

Claro que ele não tinha a menor ideia de que figura = desenho, ilustração, aparência. Então ele pegou essa palavra de algum lugar e a colocou a serviço de explicar para os outros porque ele punha a língua para fora depois de beber guaraná:

"É que me dá figuras na língua".

* * *

Gente, não se esqueçam que aqueles cabelos da propaganda da Garnier não existem. Nem as partículas de extra-limpeza. Nem o Laboratório de Pesquisas Oral-B, forrado de telões e cheio de gente de jaleco branco.

É tudo figura.

domingo, 30 de maio de 2010

De como as palavras vão mudando

Eu gosto de como as palavras vão mudando e desenterrando sentidos.

Siena é um pigmento marrom avermelhado de pintura. O pigmento siena chama assim porque vem da terra da cidade de Siena, na Itália. A cidade de Siena chama assim porque, segundo a lenda, foi fundada por Senio, filho de Remo.

Ele, que provavelmente é inventado, jamais poderia imaginar que daria nome a um marrom avermelhado.

(E a um carro da Fiat).

Outras palavras mudam de lugar, mas não de sentido.

O Capitólio era uma das sete colinas romanas, sede do poder mundial daqueles tempos de Roma caput mundi e tal. E é um prédio em Washington, sede do poder mundial destes tempos, "a A América para os americanos" e tal.

* * *

Não dá para não amar Roma e os romanos. Estou lá, lendo a história mítica da fundação da cidade, e *no mito* eles são fundados por gêmeos que mamaram em uma loba, foram morar com um pastor e roubavam salteadores em emboscadas na estrada. Quando decidiram partir do lugar onde foram criados, levaram com eles todos os párias possíveis e, no fim, um matou o outro porque cada qual queria que a cidade fosse num canto.

O mito é uma chance que se dá às pessoas de explicar suas origens com alguma licença poética, some embellishment, e ainda assim fiel à verdade. Mas o mito de Roma já é tipo "Náufragos, traficantes e degredados".