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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

The royal we

Matei a academia para comprar flores, vir para casa e ver o por-do-sol.

Até tirei umas fotos para comprovar minha serelepice. Mas o celular e o computador não conversam, o piano anda bebendo e foi impossível colocá-las aqui.

De qualquer forma, o céu agora está azul cobalto. E eu tô aqui sem fazer nada. Matando as saudades do tempo livre.

* * *

Realeza é, de certa forma, saber de onde você vem.

A rainha Ellizabeth II deve ser capaz de remontar sua linhagem por umas 25 gerações passado adentro.

A vendedora da loja em Roma, Solo Roma falou para mim e para minha mãe, com orgulho, que a família dela era romana de verdade -- porque uma pessoa só é romana se a família dela está na cidade há pelo menos sete gerações.

(Magari un po 'razzista. Definitivamente italiano).

Eu sei mais ou menos de onde eu venho.

A parte que eu não sei, invento.
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(Como meu trisavô pirata que singrava os mares com um lêmure de estimação em vez de um papagaio. O bicho sempre rejeitou os biscoitos que o velho oferecia por cima do ombro. Meu trisavô, meio cego, nunca suspeitou do porquê).

* * *
O piano anda bebendo e não sou eu que estou falando.


domingo, 6 de junho de 2010

Tulipas que, de tão pretas, eram púrpura

Teve um dia em Roma em que eu e minha mãe decidimos desligar os despertadores e acordar quando desse vontade.

Ela acordou antes e fez todo o café da manhã. Depois veio me chamar bem baixinho.

E eu tive um estranho flashback de algum ponto da minha vida em que eu morava com ela.

* * *

Algumas diversões da minha mãe em Roma foram tentar decifrar mentalmente a planta do apartamento alugado, a fim de descobrir para onde dava uma porta que estava trancada. E tentar encontrar o pipi das estátuas clássicas, como a dos homens que representam rios na Fontana Dei Quattro Fiumi.

A sala secreta não foi encontrada. Mas o pipi das estátuas ela achou.

* * *

Ela não gostou muito da Galleria Borghese.

(Mas também, deixou os óculos na chapelaria).

No entanto, se apaixonou pelas tulipas do jardim do museu, que eu chamei de negras quando vistas da janela lá de cima, mas que na verdade eram púrpura.

domingo, 30 de maio de 2010

De como as palavras vão mudando

Eu gosto de como as palavras vão mudando e desenterrando sentidos.

Siena é um pigmento marrom avermelhado de pintura. O pigmento siena chama assim porque vem da terra da cidade de Siena, na Itália. A cidade de Siena chama assim porque, segundo a lenda, foi fundada por Senio, filho de Remo.

Ele, que provavelmente é inventado, jamais poderia imaginar que daria nome a um marrom avermelhado.

(E a um carro da Fiat).

Outras palavras mudam de lugar, mas não de sentido.

O Capitólio era uma das sete colinas romanas, sede do poder mundial daqueles tempos de Roma caput mundi e tal. E é um prédio em Washington, sede do poder mundial destes tempos, "a A América para os americanos" e tal.

* * *

Não dá para não amar Roma e os romanos. Estou lá, lendo a história mítica da fundação da cidade, e *no mito* eles são fundados por gêmeos que mamaram em uma loba, foram morar com um pastor e roubavam salteadores em emboscadas na estrada. Quando decidiram partir do lugar onde foram criados, levaram com eles todos os párias possíveis e, no fim, um matou o outro porque cada qual queria que a cidade fosse num canto.

O mito é uma chance que se dá às pessoas de explicar suas origens com alguma licença poética, some embellishment, e ainda assim fiel à verdade. Mas o mito de Roma já é tipo "Náufragos, traficantes e degredados".

domingo, 16 de maio de 2010

O que eu mais quero/O que mais eu quero

Durante a semana em Roma, havia uma imagem e uma frase poderosas que dominavam os corredores de todas as estações do metrô. Era o cartaz de um filme chamado "Cosa voglio di più".
Pensei que "cosa voglio di più" significasse "o que eu mais desejo". Acho que foi a foto do cartaz que me induziu à tradução errada.

Fiquei com aquilo na cabeça, assim como fiquei com a imagem e o amor de outras palavras escritas também em uma estação do metrô, mas na plataforma da Re di Roma, feitas com o dedo sobre a sujeira que levanta dos trilhos e se gruda aos azulejos:

Roma, solo Roma
Caput Mundi

E só hoje, ao escrever esta historinha, vim a descobrir que talvez "cosa voglio di più" não signifique "o que eu mais quero", mas sim "o que mais eu quero" ("what more do I want"), o que muda tudo; e mudar tudo me desaponta um pouco porque eu estava errada, mas também me enche de alegria porque mostra como uma mera, pequena troca de ordem, só de duas palavras, pode mudar todo o sentido de uma frase, e eu gosto de sentir que uma mera, pequena alteração em alguma coisa pode mudar tudo de forma radical.

Passei semanas refletindo sobre o que eu mais quero instigada pela imagem e pelas palavras do cartaz. A resposta, por incrível que pareça, é a mesma que eu daria se tivesse me esforçado para responder à pergunta "o que mais eu posso querer?". O que eu mais quero é o que mais eu posso querer.

Me surpreendi ainda mais, porque às vezes, mudar tudo não muda nada.

Os olhos treinados pegam a declaração de amor improvisada
e subterrânea a uma cidade

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tudo sobre

É muito difícil eu querer saber tudo sobre um assunto.

Acho gente especializada um troço incrível. Tenho a maior admiração. Mas não consigo imaginar em torno de qual mesmo tema eu poderia gravitar pelo resto da minha vida. Pelo resto da minha vida, cara.

É como escolher uma comida só para almoçar, todos os dias, até a morte (a propósito, eu escolheria batata, porque dá para fazer de várias formas: assada, frita, purê etc).
Eu não sei se é falta de costume, falta de disciplina ou falta de saco - para falar a verdade, eu sequer sei qual a diferença entre costume, saco e disciplina.

Mas eu nunca consegui passar muito tempo debruçada sobre a mesma coisa.

Não que eu não saiba contemplar. Eu sei, e gosto. Sou um pouquinho ansiosa, sim, como todo mundo agora, mas estou longe do tipo que tem DDA.

Só acho chato passar uma vida falando e pensando sobre uma coisa só. Eu tenho um tempo para mastigar coisas, e pequenas obsessões de momento (das quais, quase invariavelmente, me envergonho depois), mas sempre chega a hora de dizer chega.

No entanto, se eu tivesse que escolher uma coisa sobre a qual se debruçar pelo resto da vida, e sobre a qual eu gostaria de saber tudo, e quando eu achasse que já sabia tudo sobre aquilo, ainda gostaria de descobrir mais um pouco, seria... a Capela Sistina.

Porque eu gosto demais daquele Deus que flutua em uma espécie de nave grená formada pelo próprio manto, para lá e para cá, mandando em tudo (inclusive no cara de bunda de fora, que eu não sei se é ele mesmo ou o quê):

E adoro a cobra gordinha (que é claramente uma mulher) e a cara blasé da Eva na cena em que ela e Adão caem em tentação:


E tenho um particular amor pela imagem de Jonas, o profeta, com um peixão atrás dele:

E não escapo de amar, sobretudo, aquela imagem manjada em que Michelângelo capta o momento da criação - e o momento da criação, para mim, é aquilo mesmo; as mãos que se estendem e não se tocam, o quase, o coro de violinos subindo em oitavas, prendo a respiração:


Mas nesta última visita me interessei sobremaneira pelo afresco da parede do altar, o Giudizio Universale, com um Cristo Juiz decidido e bem alimentado.

Se recuperou bem da cruz, benzadeus

Depois de um longo inverno

(Ou ainda no meio dele)

As cidades têm uns sons que, quando a gente mora, deixa de perceber.

Eu tenho que me concentrar um pouco para ouvir o som de São Paulo (a não ser o caminhão do lixo ou o gerador do prédio ao lado quando acaba a energia, porque eles soam em uma frequência que funciona, para mim, como aqueles apitos de irritar cachorros).

Mas quando você passa um tempo em outra cidade, escuta tudo de novo.

Em Roma, as ambulâncias soam o tempo todo. E soam diferente das daqui. (As ambulâncias que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá). Aquilo me deixava em estado de atenção quase constante, porque a gente nem percebe, mas sobe os ombros quando ouve uma sirene.

Minha mãe e eu, que viajamos juntas, ficamos tentando entender qual era a das ambulâncias romanas. Vai ver o trânsito é tão disgramento - e, acredite-me, ele é - que os motoristas de ambulância ligam a sirene quando entram no veículo, de manhã, e só desligam à noite. Ou vai ver acontecem muitos acidentes, enfartos e corações partidos em Roma, então se precisa muito da ambulância e é sempre uma emergência.

Depois percebemos que estávamos hospedadas perto de um hospital.