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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A pior transformação de todos os tempos

Mas uma das melhores cenas de novela. Com olhos felinos felizes e tal.





0:14 - Pode encostar naquela duna ali à direita.


0:35 - Cheguei no agreste de motorista.


0:50 - O início da subida.


0:55 - Cenas do passado em transparência.


1:00 - Sofri demais.


1:13 - Consolei a Tássia Camargo.


1:19 - Apanhei do Zé Esteves.


1:24 - Mas agora tudo é passado...


1:32 - Já até dei na cara de Perpétua.


1:50 - Continuo subindo...


2:05 - O ápice. Preparem-se para a revelação de uma nova mulher...


2:17 - ... uma mulher renovada...


2:19 - ... com toda a malícia e segredos. Preparados?


2:41 - UMA NOVA MULHER!


2:54 - Com um corte em camadas e uma permanente.


2:55 - E só.


3:11 - E à milanesa.


3:33 - Chega, Simone, já deu. Corta.



(Em um oferecimento do Vlad.)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Beauty with brains

A dermatologista pegou uma folha de papel sulfite e começou a rabiscar.

"Você pode fazer um preenchimento. Tem também o peeling. E a limpeza de pele, seria bom fazer já..."

A lista seguiu com a indicação de cinco produtos diferentes para o rosto, todos manipulados e com uma rotina de uso tão complicada que levei uma semana para aprender.

Ela estendeu a folha e, ao lado de cada procedimento, os valores iam de 140 a 900 (!) mangos.

Agradeci e disse que ia pensar.

Comprei os produtos e aprendi a usá-los. Pensei em marcar uma limpeza de pele, mas ainda não apareceu tempo.

Peeling e preenchimento, descartei. Se eu fizer tudo isso agora, com 33 anos, aos 50 vou ter que fazer o quê? Arrancar minha cabeça fora e colocar outra?

* * *

Aí outro dia, faz um tempo já, no meio de uma festa no falecido e glorioso bar do Jones, minha atenção foi capturada pelo telão ao fundo da pista. Ele passava cenas do falecido e glorioso programa "Cocktail", do SBT, apresentado pelo falecido e glorioso Miele.

A música silenciou, as pessoas desapareceram, a pista se abriu e de repente só existíamos eu e aquela tela, onde mulheres desfilavam em trajes sumários, agindo de modo estranho e se deslocando por um cenário cafona.

Além disso tudo, e do charme hipnótico do Miele, havia algo mais. Algo que estava prendendo minha atenção desse jeito. Algo que estava aliviando meus olhos. Meu Deus, seria a barba do Miele? Os maiôs com lantejoulas? O display de fruta bizarramente posicionado nas costas delas?

Não, não era nada disso. Depois de oito minutos de um desfile ininterrupto de peitos, notei o que capturara meu olhar: ninguém tinha silicone. E era lindo e muito aliviante ver aquela profusão de formatos, tamanhos e contornos de peitos naturais. Veja você mesmo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Enquanto o mundo cai

"But passion most dissembles, yet betrays
Even by its darkness; as the blackest sky
Foretells the heaviest tempest"
-- Lord Byron, em "Don Juan"

Quando eu tinha 8 anos, assisti "Labirinto - A Magia do Tempo" e fiquei apaixonada pelo David Bowie, mesmo sem saber quem era o David Bowie.

Muito magnético, ele como Rei dos Duendes.

Depois, apareceu em casa uma fita K7 intitulada "Românticas (com eco)". Não sei onde meus pais arrumavam essas coisas.

A primeira música era "As the World Falls Down". Com eco, naturalmente.

Eu ficava ouvindo, rebobinando e ouvindo de novo, sem parar. Descobri que se jogasse a equalização para um caixa só, mesmo sem saber o que era equalização, a música ficava melhor.

E imaginava cenas das quais eu adoraria me lembrar melhor. Mas acho que envolviam o Rei dos Duendes ou o Peixinho, o menino mais bonito da escola; corridas em câmera lenta por campinas verdejantes e um castelo. Tudo na contraluz.

* * *

Quando eu tinha 3 anos, minha mãe me levou ao teatro para assistir a uma montagem da fábula "A Cigarra e a Formiga".

Eu fiquei apaixonada pela Cigarra.

Quando ela morreu, eu chorei. E não parei mais.

Não adiantou nada minha mãe explicar que a Cigarra não tinha morrido, que era só faz-de-conta e o moço estava vivo lá atrás do palco.

Ela me levou às coxias para provar que estava falando a verdade. Aí eu vi que o moço estava vivo mesmo, ele sorriu e fez festinha na minha bochecha e falou "tá tudo bem, viu?".

Mas ele não era a Cigarra. Era só um impostor com as roupas dela.

Ela tinha morrido mesmo.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ponteiros

She dreams in color, she dreams in red
-- Pearl Jam, Better man

Depois de 13 anos com um IMC que qualquer criatura decente classificaria como pífio, esta é a primeira vez em que as partes internas das minhas coxas se encontram em pelo menos um ponto, bem em cima, quando fico em pé com as pernas juntas.

Antes, quando eu ficava em pé com as pernas juntas, elas formavam um vácuo pelo qual era possível ver a vida passando, as crianças brincando no parquinho, etc. Pernas finas e tortas.

Quando a gente tinha uns 15 anos e passava as férias na praia, as coxas da Tati juntavam perfeitamente. Ela achava um saco, dizia que dava alergia por causa do calor, de ficar de biquíni o dia inteiro com as pernas relando.

Eu adoraria ter tido pernas relando nesta época. Mas agora está bom também.

Passei de um IMC "pífio" para "risível", apenas.

Se eu chegar aos 50 quilos, vou correndo doar sangue antes que o ponteiro -- imaginário, porque estas balanças nem existem mais -- caia de novo.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

60/90

Um dia eu tava no 775 F-10 e tinha um bêbado no banco do fundo.

Toda vez que o ônibus parava no ponto, ele puxava um corinho:

"Por que parou? Parou por quê? Por que parou? Parou por quwajfas ah ah ah (risada de bêbado)".

Ninguém deu confiança.

* * *

Minha adolescência, nos anos 90, foi vivida nos anos 60.

Teve "Anos Incríveis", teve "Forrest Gump", teve "Diana" do Paul Anka e "Never Can Tell" com o Chuck Berry, da trilha sonora do "Pulp Fiction".

Teve um revival hippie, teve Black Crowes e a Mariah de blusinha de crochê no videoclipe de "Heartbreaker".

Tinha Alpha Memory todo dia de manhã, com "My Pledge of Love".

Eram os meus anos incríveis particulares. Paz, amor (platônico) e Gudang Garam. Oh, please, stand by me. Longas tardes esperando o telefone tocar. Longas noites esperando o sol nascer.

Não quero voltar, nunca quis.

Mas às vezes tenho muitas saudades.

domingo, 4 de setembro de 2011

If you can believe your eyes and ears

If you had such a dream
would you get up and do the things you’ve been dreaming
?
-- Belle & Sebastian, I Could Be Dreaming

Lavei o rosto, ajeitei o cabelo, escovei os dentes. Corri para a cozinha para deixar o café passando. A cafeteira estava suja, tive que lavar (nunca mais deixo a cafeteira suja de véspera). Acendi o fogo com fósforo, a ignição não funcionou.

Voltei pro quarto. Telefonei para a Ceretti, ela podia ir me seguindo de bicicleta. Vesti uma roupa. Não gostei. Corri até a lavanderia e peguei outra calça. Não vai dar tempo de maquiar. Lembrei que precisava por gasolina no carro. Senão não chego.

Tomei o café, mastiguei alguma coisa. Chamei o elevador enquanto trancava a porta. Tirei o carro da garagem tão rápido que nem me lembro. Encostei no posto, "põe 50 de álcool, por favor?".

E aí acordei.

Odeio perder a hora quando já estava quase lá.

E, pior ainda, eu não ia ver a Ceretti.

* * *

Ontem aconteceu uma coisa que eu achei que não ia viver para ver: conheci o apartamento do Dener. Do Dener mesmo, onde ele vai morar/está morando sozinho.

Levei uma peça de peito de peru. Daqueles pequeninos, para lanche, embalados a vácuo. Para ele cortar as fatias de cinco dedos de espessura, que ele tanto gosta, e comer puro, como ele fez tantas vezes nas casas alheias.

Levei um baleiro cheio de 7 Belo e Bolete, duas das poucas coisas verdadeiramente boas e baratas da vida.

E uma cesta com danoninho de potão (porque ele já é grande), flan e danete branco. Porque agora ele pode encher a geladeira da casa dele com todas as delícias que a gente sempre sonha comprar no mercado quando a gente for morar sozinho.

Com novos amigos na sala, contamos mais uma vez a história de quando ele foi assediado pelo enfermeiro afrescalhado no PS de Mongaguá.

Fiquei pensando se sonhamos essa história, de tão boa que ela é. Mas acho que sonhamos quase nossa adolescência toda, e sei que sou loucamente privilegiada de ainda ver e amar as pessoas que sonharam comigo.
As coisas boas e baratas da vida

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Malatesta

Hoje eu tô com a macaca.

Mas só por dentro.

* * *

Eu me lembro de uma viagem para a praia em que o Chicão foi. Essas viagens de adolescência. O Chicão tinha uns 12 anos e tinha se casado com uns 8. Traduzindo, ele devia ter uns 19 e tinha se casado aos 17, com a namoradinha de infância que ele conhecia desde os 6. Era uma história linda.

Aí a gente tava conversando num dos quartos, ouvindo o barulho do mar, e ele vira e me diz:
- Tirando sua mãe e a minha, eu gostaria de comer todas as mulheres do mundo.

Acho que o casamento dele não ia muito bem.

* * *

Eu me lembro quando eu e minha mãe estávamos em Napoli e tudo tinha dado errado e a merda do trem que esperávamos na Termini parecia incapaz de se decidir em qual binario ia chegar, e quando chegou era outro trem e o funcionário queria que a gente fosse em pé, e quando eu disse "so I want my money back" ele falou, com sotaque italiano, "no! no mâni béqui!", sacudindo as mãos, e no fim eu achei até engraçado.

Mas a gente tava em Napoli e não ia conseguir chegar a Capri, então resolvemos almoçar no porto e parou um navio de cruzeiro destes enormes e desceu um monte de franceses. E a gente continuou lá almoçando e depois decidimos fumar um cigarro e aí chegou um cara vestido de capitão de navio e pediu um cigarro e nós demos.

E ele começou a balbuciar umas palavras e a gente disse canhestramente, em umas cinco línguas diferentes, "desculpe, não entendo, não sou daqui (não tenho amor)", mas ele continuava balbuciando. E tirou os sapatos e colocou em cima da cadeira e eu pensei "mas esses franceses são bem à vontade, não?", mas de repente ele foi embora e o garçom do restaurante veio e falou: "malatesta!".

E pronto, eu amei essa palavra. O mala testa de Napoli.

O porto de Napoli bem naquele dia azul. O mala testa é o quarto à direita
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Mentira.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Glub Glub ou A ingenuidade eterna dos irmãos mais novos

Um dia, acho que eu tinha 17 anos - eu sempre acho que eu tinha 17 anos - a gente estava assistindo "Glub Glub" e o João Paulo falou:
- Tata, como eles fazem para entrar nessa fantasia de peixe?

E eu disse:
- É assim, João: esse corpinho do peixe é um capacete, só na cabeça. Os atores usam uma malha verde do pescoço para baixo, e ficam em frente a um cenário todo pintado de verde, todinho, porque aí depois se projeta um fundo que só aparece na TV, chamado cromaquí.

Ele levou uns três segundos me olhando com cara de desconfiado e depois falou:
- Como você mente, eu sei que são atores anõezinhos!

No que eu devia ter rebatido "e como chama a mulher do anão?". Mas fui completamente desarmada pela ingênua incredulidade invertida do meu irmão.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Altas esperanças

"Não existe mais a casa...
-- Mas o menino ainda existe"
-- Manuel Bandeira, em Velha Chácara

O nível de esperança de uma pessoa que vai passar férias em Londres, Dublin e Edimburgo e, antes, marca uma depilação é...

a. doentio
b. razoável
c. descolado da realidade
d. normal. É verão na Europa, os termômetros vão marcar loucos 17 graus e nós vamos nos jogar na Serpentine. \o/

* * *

É incrível como seis pessoas que, antes, dividiam o espaço de um mero sobrado de dois quartos na rua dos Crisântemos possam ter se dispersado para tão longe.

Hoje as cinco pessoas que moraram comigo em quase toda minha memória de infância se espalham por cidades tão distantes quanto Curitiba e Bertioga. Mesmo as que moram perto ficam longe, de alguma forma, pelo trânsito, pela agenda, pelo adiantado da hora: Cotia, São Judas, São Bernardo, Cambuci.

Eu tenho muitas saudades destas pessoas todas. Eu tenho saudades de dividir um pacote de bolacha no sofá e brigar pela última, ou pelo sabor do pacote que deveria ser aberto: doce de leite, chocolate ou morango? As três eram definitivamente umas tranqueiras, mas cada um gostava de uma.

Eu tenho saudades de brigar pelo controle remoto e pelo melhor lugar do sofá. Eu tenho saudades de passar direto pelas pessoas de manhã, sem a obrigação de falar com elas.

Eu tenho saudades de quase tudo, e às vezes esta saudade fica forte mesmo, de doer a garganta, por mais que eu visite estas pessoas, às vezes menos do que eu gostaria.

* * *

Mas aí pelo menos você chega no trabalho segunda de manhã e as amigas elogiam sua bunda.

A mesma bunda que, poucos meses atrás, você descobriu que caiu sem aviso prévio, antes mesmo que você notasse que um dia sua bunda foi empinadinha.

terça-feira, 22 de março de 2011

Há limites

Quando eu era pequena e passava as férias na praia, às vezes todo mundo tinha preguiça e ficava acertado que teria bauruzinho de jantar. Aquele lanche de pão de forma com presunto, queijo e tomate, um clássico das casas de praia de todo o Brasil.


Então minha mãe comprava meio quilo de presunto, meio quilo de queijo e três pacotes de pão de forma. E aquilo tinha que virar bauruzinho para os 523 primos que estavam ali na casa de praia, jogando Jogo da Vida ou Rouba Monte ou zanzando em volta da casa, pelos corredores do quintalzão.


Logo, cada lanche levava tão somente uma fatia de presunto. Uma única, contada fatia, senão o presunto acabava antes. (E, se o presunto acabasse antes, faziam-se os lanches apenas com queijo).


Hoje eu ainda hesito ao estender a mão rumo a uma segunda fatia de peito de peru quando faço um lanche para o meu café da manhã. Porque este é o tipo de coisa que forja o caráter, dividir o presunto com 522 primos.


* * *


Minha mãe, por sua vez, quando era pequena, só comia apresuntado. E olhe lá.


* * *


A Lara não gostou muito do carpaccio que ela experimentou hoje, pela primeira vez, no restaurante tipo buffet aqui perto.


(Em compensação, adorou os chips de abobrinha e o tiramisú de rapadura).


Quando ela quis voltar a se servir e eu disse para ela usar o mesmo prato, ela comeu todo o carpaccio que estava no cantinho, sem reclamar.


Está forjando o caráter.


* * *


Fazer coisas que a gente não gosta forja o caráter. Mesmo que seja pelo prazer de se livrar delas quando a gente cresce.


Como colocar duas, às vezes três fatias de peito de peru no sanduíche das manhãs e se sentir feliz com isso.

* * *


O Arcade Fire não é uma bad hair band?

Ainda bem que eles não precisam ser mais uns rostinhos bonitos na multidão.

* * *

Only Dean has the magic technique.


segunda-feira, 14 de março de 2011

San Andreas Fault

"Go west, paradise is there"
-- San Andreas Fault, Natalie Merchant

Um dia minha mãe assistiu a um documentário sobre a Falha de San Andreas e ficou, como posso dizer?, fascinada.

Tão fascinada que me contou tudo a respeito.

Eu fiquei mais maluca ainda quando soube que existia uma rachadura especial sob a Terra. Como um pontilhado. E que todos esperavam que, um dia, este pontilhado se destacasse de vez. Esperam, ainda.

E eu ainda acho isso estranhamente aceitável e maluco.



* * *

Os temas de interesse da minha mãe são, como posso dizer?, um pouco como terremotos.

Ela se interessa (ou já se interessou) por coisas tão diversas quanto gnomos, tradições gaúchas e a série "Jornada nas Estrelas".

Eles vêm, sacodem a vida dela, botam algumas coisas para sempre em lugares diferentes e se vão.



quarta-feira, 9 de março de 2011

A completa desconhecida

"Stop telling the same story"
-- Ziggy Marley, Tomorrow People

Eu queria um grooveshark em que a gente digitasse "músicas da praia" e ele tocasse "Tomorrow People", "Corações Psicodélicos" e outras músicas que me lembram as tardes de chuva ou de sol em todos aqueles anos de Bertioga.

* * *

Um dia minha tia mais nova saiu para ir à padaria. Caiu a maior chuva e ela voltou para casa dividindo o seu próprio guarda-chuva com uma completa estranha. Só estávamos eu e minha tia mais velha em casa.

Ela parou na porta com aquela perfeita desconhecida ao lado e falou: "adivinhem quem eu encontrei na padaria?".

E eu pensei: "eu devia conhecer esta mulher?".

E minha tia mais velha ficou sem fala.

Como as crianças sabem que quase nunca estão por dentro do que acontece no mundo dos adultos, logo dei de ombros. Minha tia trouxe uma desconhecida em casa, mas tudo bem. Talvez eu esteja perdendo uma parte da história e, de alguma forma, isso é normal.

Aí a mulher foi tomar banho. E minha tia mais velha ficou no corredor, falando baixinho e fazendo caretas para a minha tia mais nova: "bom, agora ela está colocando todas as coisas de valor na bolsa".

E eu pensei: "mas o que ela pode roubar do banheiro? Sabonetes?"

Acho que minha tia mais velha falava mais para torturar a mais nova, recriminando a cabecice-de-vento da irmã caçula. Porque ninguém pode roubar algo de valor de um... banheiro.

(Tirando algum ladrão que entrasse no castelo daquele rei da França que mantinha a Mona Lisa no banheiro).

Minha tia mais nova era cabeça-de-vento e coração-de-ouro. Conheceu a mulher na padaria, deu carona para ela no guarda-chuva e, por alguma razão, se compadeceu dela e convidou-a para tomar banho em casa.

A mulher desconhecida aceitou a generosidade, tomou banho, foi embora e todos os sabonetes continuaram lá.

Minhas tias provavelmente nem se lembram desta história. E talvez ela nem tenha acontecido mesmo.

A gente preenche o passado com impressões e imaginação, e depois não sabe mais o que é cada qual.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A memória vívida do Carnaval

"Tem xinxim e acarajé,
Tamborim e samba no pé"
-- Samba-enredo da Mangueira, 1986

Se tenho uma memória vívida do sobrado do bairro Assunção, além das almofadas estampadas em círculos com verde de vários tons, ornando com a cortina, é que dia e noite, naquela casa, tocava o disco dos sambas-enredo do ano.

Dia e noite não. Noite só, que era quando meu pai chegava em casa. E os discos eram dele.

Às vezes a gente afastava as almofadas em vários tons de verde e a cadeira de balanço de vime e ficava dançando na sala.

E aí, naquela casa de um subúrbio paulista, eu virei uma torcedora fiel da Estação Primeira de Mangueira.

E desenhava com canetinha verde e rosa as saias da porta-bandeira.



- Para o meu pai.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E se minha mãe

"Aids, pop, repressão
O que é que eu fiz para merecer isto?"
-- Ratos de Porão

Sempre que passo por reveses em sequência -- a series of the same misfortunate event -- tenho a clara sensação de que aquilo nunca vai acabar. Eu nunca mais vou dormir bem, o sol nunca mais vai sair, etc.

É meio que o contrário da sensação de abrir a gaveta de roupas de lã no auge do verão e pensar indignada: "como eu pude usar isso um dia?"

* * *

Acordei às 7h e 55 minutos depois estava naquele ambiente asséptico, com chão de granito e suaves tons creme, iluminação indireta, ar condicionado, gente uniformizada falando baixinho.

Cheiro de aeroporto.

Tinha um espaço infantil, uma espécie de castelinho com pinturas coloridas e mesas minúsculas de plástico. Fiquei pensando como seria se eu tivesse uma filha e ela estivesse ali comigo. Imediatamente meu cérebro rebobinou sem eu pedir e pensei como seria se minha mãe estivesse ali e eu com ela, pequena.

Eu não iria no castelinho.

Mas o cheiro do lugar, as cores, as pessoas, iam ficar na minha cabeça para sempre.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tempo livre

Quando eu era pequena, tinha muito tempo livre.

Tinha tempo de congelar moscas e revivê-las de novo em colherzinhas cuidadosamente balançadas sobre a chama mínima do fogão.

(E ainda tinha tempo de convencer minha mãe de que os procedimentos eram absolutamente higiênicos, porque depois eu lavava a colher com álcool).

Tinha tempo de congelar xampu e condicionador em potinhos vazios outrora ocupados por filmes fotográficos do meu pai.

E depois tomar banho com eles, convencida de que o congelamento garantia uma melhor distribuição do produto.

(Eu tinha tempo de me convencer disso também).

Acho que eu era meio ligada em criogenia.

Ou apenas tinha muito tempo livre.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Meus amigos invisíveis

"C'est la vie, say the old
folks, it goes to show you never can tell"
-- Chuck Berry, Never can Tell. Da
trilha de Pulp Fiction


O Mestre dos CDs deixava avisos ciosos e meio ameaçadores para mim.

"Não encoste o dedo no CD!"

"Cuidado ao tirar o encarte!"

"Atenção! Estou de olho!"

Tudo isso em papeizinhos enfiados nas caixas dos CDs que ele me emprestava. Não sei como ele arrumava tanto lugar onde por bilhetinhos em um simples CD. Quando você menos esperava, caía de alguma parte da caixinha um pedaço de papel assinado, que descia rodopiando até o chão:

"Assinado: Mestre dos CDs"

Sempre escrito em letra bastão, uma caligrafia ciosa como ele era com os CDs.

Tá certo que eu não acreditava no preceito básico de "guardar um CD dentro da caixa que lhe é correspondente". E eu ria na cara da ideia de "manter os CDs em ordem alfabética". Mas, na cabeça do Mestre dos CDs, toda vez que fosse ouvir uma música, eu provavelmente sentiria uma vontade louca e descontrolada e lambuzar os dedos de manteiga, e isso seria fatal.

Eu não ligava, ciosa como eu era com ele.

E ele era meu melhor amigo, o Mestre dos CDs.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lições da infância

Uma vez, quando eu era pequena, ganhei um quebra-cabeças.

Como balainho novo tem três dias de torno, eu não largava o quebra-cabeças. Para lá e para cá.

Mas, mesmo amando muito meu quebra-cabeças, depois de montá-lo no quintal com algum raro amiguinho da rua, deixei as peças lá, esparramadas sobre as lajotas da garagem.

Pouco mais tarde, fui procurar o quebra-cabeças lá, exatamente onde o deixei.

E nada de quebra-cabeças.

Sentei à mesa do jantar e perguntei para o meu pai se ele tinha visto o quebra-cabeças quando chegou do trabalho.

E ele: "não".

E eu: "ué".

E ele: "vai ver alguém roubou".

E eu (só pensando): "que tipo de gente serra um portão de alumínio para roubar um quebra-cabeças de 20 peças, e depois forja o portão rapidinho no mesmo lugar, sem deixar rastros?" (Eu já tinha analisado as barras do portão).

E ele: "você precisa aprender a guardar suas coisas direito".

E eu (só pensando): "acho que ele está tentando me dar uma lição".

Depois do jantar ele devolveu meu brinquedo.

Desde esse dia aprendi que dificilmente alguém invade uma casa para roubar um quebra-cabeças. Mas pais podem fazer coisas ainda menos sensatas.

sábado, 27 de novembro de 2010

The hard knock life

"'Steada treated, we get tricked!
'Steada kisses, we get kicked!"
-- Annie and the orphans, It's the hard-knock
life
Hoje eu fui comprar coisas para o Samuel.

A missão foi um pouco difícil, porque eu não conheço o Samuel.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria aprender latim. E grego. Culpa do meu professor de História, que era meu maior herói.

Eu também queria ter uma jaqueta (de pelo) da Fruto Verde. E um tênis Nike.

Mas minha mãe só comprava Popi.

* * *

O Samuel tem 12 anos, veste 16 e calça 38. Não achei tênis para ele nas lojas infantis, fui a uma loja de adulto.

Comprei também uma camiseta verde. Mas temendo que ele seja corintiano.

* * *

Quando eu tinha 12 anos escrevia um diário. A capa do meu diário foi decorada em alguma tarde na casa da Roberta, em um estilo criado em conjunto que mais tarde ficou conhecido (entre nós duas) como "furacão de cabeças".

Tinha um Bart Simpson e um Axl Rose. Mas eu nem gostava de Guns.

* * *

Tenho que comprar um brinquedo para o Samuel. A Veruska me disse no e-mail que ele tem "muitos irmãos menores" e que às vezes "tem que se responsabilizar por eles".

Não entendi muito bem. Comprei um jogo de tabuleiro. Imagem & Ação. Ele pode desenhar *and* distrair os irmãos menores brincando com eles.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria ser arqueóloga. Culpa vocês já sabem de quem.

Até que minha mãe me disse que minha vida *não* ia ser igual à do Indiana Jones.

Aí eu quis ser professora, acho.

E eu fui.

* * *

Falta só um livro para completar meu pacote para o Samuel.

Queria comprar "Raul da Ferrugem Azul", da Ana Maria Machado, mas não sei se está esgotado.

Eu li "Raul" pela primeira vez aos 8 ou 9 anos. Mas continuo lendo esse livro até hoje, mesmo sem tê-lo aqui em casa.

Porque ele me diz, de uma forma colorida e bem disfarçada, tão disfarçada que levei 23 anos para decifrar: a vida é dura. Faça a coisa certa.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As rampas do planeta

Quando eu era pequena, minha mãe ouvia um LP da Gal chamado "Profana".

Tinha uma capa preta, com a cara bem de perto de uma Gal bem branca, com batom vermelho. Meio vampiresca. Eu podia olhar no Google e confirmar. Mas na minha cabeça era assim.

Eu gostava da música "Vaca Profana". Porque eu fazia imagens (loucas) das coisas (loucas) de que a letra falava, sem saber muito bem onde ficava Tel Aviv ou quem era Thelonious Monk. Mas eu literalmente viajava com aquilo.

Além de tudo, ela falava tetas. Era meio que um prazer clandestino, um semipalavrão.

Mas o que eu mais me lembro é que eu pensava que a Gal falava das "rampas do planeta", não das "Ramblas do planeta". Só fui descobrir quando fui a Barcelona. Com mais de 25 anos.

E o lance da orchata de chufa descobri ano passado.

Não que faça muita diferença, no fim, eu acho.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Levanta, defunto

"I felt so much love this mornin'"

-- Joe Jeffrey Group, My Pledge of Love

Joe Jeffrey Group: me ajudando a levantar da cama desde 1995 (quando eu ouvia Alpha Memory).