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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Xenofilia

"Aqui e lá há lacunas
Mas não há lá Iracemas"
-- Itamar Assumpção, Banzo

150 anos é tempo, seis horas é uma viagem curtinha. Isso se você é americano -- americano como todo mundo que nasce nas Américas, não só os estadunidenses.

Para um britânico, seis horas é longe. E 150 anos foi semana passada.

"Em seis horas daria para chegar na Rússia!", me explicou, indignado, o engenheiro britânico, esclarecendo porque achava Curitiba longe de São Paulo.

Ele, que passou o último Carnaval vestido numa alegoria cinza desfilando para uma escola da quarta divisão de Madureira, no Rio.

Que coisa linda é o Brasil.

* * *

Meu colega de classe suíço colou em mim depois da aula, nas escadas estreitinhas do prédio que abrigava a escola em Gloucester Road.

"What are you doing this afternoon?", perguntou, os erres levemente dobrados. Ele era suíço-italiano, o Alessandro.

Eu ia a um bar em Camden assistir a um espetáculo de slam poetry da minha amiga Roberta, às 18h. Convidei, deixei meu celular com ele e disse "se for, me avisa".

18h15, estou saindo de casa rumo ao bar. Chega um SMS do Alessandro: "acha que ainda dá tempo de eu ir?". Eu ri: "claro, vai pra lá, estou a caminho".

10 minutos depois ele já estava lá, me mandando torpedos. Onde já se viu? "Cheguei, tem picanha no menu!". E eu no metrô.

O menino conseguiu chegar antes de mim mesma na minha própria balada.

Entrei no bar meia hora depois dele. Aí lembrei: claro, ele é suíço. Fui distraída pelo sotaque italiano.

A apresentação começou quase às 21h.

* * *

A Irina era russa, devia ter por volta de uns 50, divorciada e com dois filhos em universidades inglesas, estudando Psicologia.

Ela era minha conversation partner naquelas semanas de junho. A gente tinha que conversar sobre as coisas mais diversas, tudo dentro das propostas mais ou menos surreais do material didático.

Um dia ela me contou sobre a Victoria, uma amiga que ela teve aos seis ou sete anos.

A Irina admirava muito a coragem tresloucada da Victoria, que aprendeu a andar de bicicleta em menos de uma semana porque não tinha medo de se arrebentar nos arbustos lá embaixo da ladeira onde elas praticavam.

Elas aprendiam levando a bicicleta até o alto da ladeira, montando e tentando descer.

Eu perguntei: "mas e as rodinhas?"

E a Irina: "que rodinhas?"

E eu: "aquelas rodinhas de apoio, que geralmente as crianças usam para aprender a andar de bicicleta".

E ela: "não existiam bicicletas assim na Rússia".

It's a hard knock life

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Malatesta

Hoje eu tô com a macaca.

Mas só por dentro.

* * *

Eu me lembro de uma viagem para a praia em que o Chicão foi. Essas viagens de adolescência. O Chicão tinha uns 12 anos e tinha se casado com uns 8. Traduzindo, ele devia ter uns 19 e tinha se casado aos 17, com a namoradinha de infância que ele conhecia desde os 6. Era uma história linda.

Aí a gente tava conversando num dos quartos, ouvindo o barulho do mar, e ele vira e me diz:
- Tirando sua mãe e a minha, eu gostaria de comer todas as mulheres do mundo.

Acho que o casamento dele não ia muito bem.

* * *

Eu me lembro quando eu e minha mãe estávamos em Napoli e tudo tinha dado errado e a merda do trem que esperávamos na Termini parecia incapaz de se decidir em qual binario ia chegar, e quando chegou era outro trem e o funcionário queria que a gente fosse em pé, e quando eu disse "so I want my money back" ele falou, com sotaque italiano, "no! no mâni béqui!", sacudindo as mãos, e no fim eu achei até engraçado.

Mas a gente tava em Napoli e não ia conseguir chegar a Capri, então resolvemos almoçar no porto e parou um navio de cruzeiro destes enormes e desceu um monte de franceses. E a gente continuou lá almoçando e depois decidimos fumar um cigarro e aí chegou um cara vestido de capitão de navio e pediu um cigarro e nós demos.

E ele começou a balbuciar umas palavras e a gente disse canhestramente, em umas cinco línguas diferentes, "desculpe, não entendo, não sou daqui (não tenho amor)", mas ele continuava balbuciando. E tirou os sapatos e colocou em cima da cadeira e eu pensei "mas esses franceses são bem à vontade, não?", mas de repente ele foi embora e o garçom do restaurante veio e falou: "malatesta!".

E pronto, eu amei essa palavra. O mala testa de Napoli.

O porto de Napoli bem naquele dia azul. O mala testa é o quarto à direita
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Mentira.



quarta-feira, 13 de julho de 2011

Never mind the gap

Faz tempo.

* * *

Sempre que eu ouço o Ney cantando bem melífluo sobre o amor da flor de cactus, eu penso nesta pintura da Tarsila. Que nem é um cactus, mas um manacá.

* * *

Eu acho que nunca vi um manacá de verdade. Se vi, não sabia o que era ou não prestei atenção.

Assim como nunca vi uma groselha, nem um sagu.

* * *

O mês passado nas ilhas me levou a algumas observações safadas e genéricas sobre os ingleses.

Os ingleses têm três grandes obsessões, sendo a primeira as coisas feitas da maneira proper e a própria palavra em si. Tudo é ou deveria ser proper, até os cachorros-quentes e hambúrgueres.

A segunda (obsessão) são os trocadilhos, que vão das manchetes de jornais (ver "Fish in best ever shape after cutting the chips") aos nomes das lojas (ver a enoteca "Planet of the Grapes") aos títulos dos grandes clássicos da literatura nativa (ver "The Importance of Being Earnest").

E sendo a terceira o ameaçador, assustador, perigosíssimo e insidioso...

THE GAP.

Eles passam metade do tempo mandando você tomar cuidado com ele em todas as estações do metrô, às vezes com anúncios de voz escabrosa. Como se um vão de dez centímetros entre o trem e a plataforma fosse a maior ameaça viva ao império britânico nestes tempos de crise.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Parem de perguntar

Hoje o dia está difícil. Dr. Getúlio morreu e o despertador estava programado para as 7h10. Acordei antes dele tocar, olhei a escuridão do quarto e pensei "ainda tenho umas boas três horas aí".

10 minutos depois, o despertador tocou.

* * *

Até ontem, eu era a única pessoa a estar lendo Agosto, do Rubem Fonseca, depois nos anos 2000.

O bem não triunfa no final. Mas o comissário Pádua é a gênese do Capitão Nascimento.

* * *

Amanhã Kate vai pra galere. Real. O hit do momento é o Kate Middleton For The Win.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Os dias na praia

No fim do ano passado, nos dias na praia, a gente assistia à novela das nove (anteriormente conhecida como novela das oito) todo dia.

E assistimos até a "Crepúsculo" no Cinema Especial, porque só pegava a Globo.

E foi uma ocasião muito feliz, porque de que outra forma poderíamos assistir a "Crepúsculo"?

Ver novela também foi prodigioso. Porque no dia seguinte eu me sentia por dentro de um assunto que mais da metade da população domina. É uma espécie de comunhão.

Quando a gente pode escolher entre 150 canais, isso obviamente não acontece.

Livre-arbítrio é que nem iPhone.

Só porque você tem não significa que você saiba usar.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bombril

(Not so) secretly feeling like shit.

* * *

Sabe, eu acho que as pessoas já podiam parar de publicar esses livros começados com "1001".

"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer"

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer"

"1001 Livros Para Ler Antes de Morrer"

"1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer"

"1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Comidas Para Provar Antes de Morrer" (cuja capa é uma lagosta CLARAMENTE tentando escapar da panela, que tipo de gente faz isso?)

Se for para ficar só nestes, eu já tenho SETE MIL E SETE porras de compromissos. Ou seja, já lotou.

E, para dizer a verdade, no fundo esse tipo de livro estimula outra atividade: 1 milhão e oitocentos mil downloads para fazer (sendo que você não vai usufruir de metade).

Joga lá no Google p'cê ver.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tudo que você não pode deixar para trás

"E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô,
Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento,
todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

-- Macunaíma, capítulo VII (A Macumba), Mario de
Andrade

A primeira vez que vi a neve achei que ela tinha pernas estúpidas.


* * *

Sonhei que eu tinha que tirar o João Paulo do Morro do Alemão, antes que os traficantes matassem ele. Meu plano era passar a noite em uma espécie de ong, onde eu sabia que estaríamos seguros, sair do Morro de madrugada e usar o dinheiro do prêmio para levá-lo para fora do país. Ou pelo menos para outro estado.

As moças da ong nos serviam pratos de salada e perguntavam se a gente não queria coração de galinha também.

No meio da comida, que mal me descia porque meu irmão podia ser assassinado *a qualquer momento* e ninguém viria nos salvar, começou mais um tiroteio. E eu pensei "é agora ou nunca". Eu não queria decidir, mas achei que nossa melhor chance era deixar os pratos de salada pela metade e eu gritei "corre, João!".

Depois a gente via uns caras correndo, armados. E nós também tínhamos armas.

E então eu acordei, graças a Deus.

* * *

Então ele se levantou e bebeu o leite que ele mesmo preparou.