Mostrando postagens com marcador aurora da minha vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aurora da minha vida. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Enquanto o mundo cai

"But passion most dissembles, yet betrays
Even by its darkness; as the blackest sky
Foretells the heaviest tempest"
-- Lord Byron, em "Don Juan"

Quando eu tinha 8 anos, assisti "Labirinto - A Magia do Tempo" e fiquei apaixonada pelo David Bowie, mesmo sem saber quem era o David Bowie.

Muito magnético, ele como Rei dos Duendes.

Depois, apareceu em casa uma fita K7 intitulada "Românticas (com eco)". Não sei onde meus pais arrumavam essas coisas.

A primeira música era "As the World Falls Down". Com eco, naturalmente.

Eu ficava ouvindo, rebobinando e ouvindo de novo, sem parar. Descobri que se jogasse a equalização para um caixa só, mesmo sem saber o que era equalização, a música ficava melhor.

E imaginava cenas das quais eu adoraria me lembrar melhor. Mas acho que envolviam o Rei dos Duendes ou o Peixinho, o menino mais bonito da escola; corridas em câmera lenta por campinas verdejantes e um castelo. Tudo na contraluz.

* * *

Quando eu tinha 3 anos, minha mãe me levou ao teatro para assistir a uma montagem da fábula "A Cigarra e a Formiga".

Eu fiquei apaixonada pela Cigarra.

Quando ela morreu, eu chorei. E não parei mais.

Não adiantou nada minha mãe explicar que a Cigarra não tinha morrido, que era só faz-de-conta e o moço estava vivo lá atrás do palco.

Ela me levou às coxias para provar que estava falando a verdade. Aí eu vi que o moço estava vivo mesmo, ele sorriu e fez festinha na minha bochecha e falou "tá tudo bem, viu?".

Mas ele não era a Cigarra. Era só um impostor com as roupas dela.

Ela tinha morrido mesmo.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Altas esperanças

"Não existe mais a casa...
-- Mas o menino ainda existe"
-- Manuel Bandeira, em Velha Chácara

O nível de esperança de uma pessoa que vai passar férias em Londres, Dublin e Edimburgo e, antes, marca uma depilação é...

a. doentio
b. razoável
c. descolado da realidade
d. normal. É verão na Europa, os termômetros vão marcar loucos 17 graus e nós vamos nos jogar na Serpentine. \o/

* * *

É incrível como seis pessoas que, antes, dividiam o espaço de um mero sobrado de dois quartos na rua dos Crisântemos possam ter se dispersado para tão longe.

Hoje as cinco pessoas que moraram comigo em quase toda minha memória de infância se espalham por cidades tão distantes quanto Curitiba e Bertioga. Mesmo as que moram perto ficam longe, de alguma forma, pelo trânsito, pela agenda, pelo adiantado da hora: Cotia, São Judas, São Bernardo, Cambuci.

Eu tenho muitas saudades destas pessoas todas. Eu tenho saudades de dividir um pacote de bolacha no sofá e brigar pela última, ou pelo sabor do pacote que deveria ser aberto: doce de leite, chocolate ou morango? As três eram definitivamente umas tranqueiras, mas cada um gostava de uma.

Eu tenho saudades de brigar pelo controle remoto e pelo melhor lugar do sofá. Eu tenho saudades de passar direto pelas pessoas de manhã, sem a obrigação de falar com elas.

Eu tenho saudades de quase tudo, e às vezes esta saudade fica forte mesmo, de doer a garganta, por mais que eu visite estas pessoas, às vezes menos do que eu gostaria.

* * *

Mas aí pelo menos você chega no trabalho segunda de manhã e as amigas elogiam sua bunda.

A mesma bunda que, poucos meses atrás, você descobriu que caiu sem aviso prévio, antes mesmo que você notasse que um dia sua bunda foi empinadinha.

terça-feira, 22 de março de 2011

Holding back the years

Hoje eu encontrei todas as figuras da minha infância penduradas no Museu de Arte de São Paulo: o Escolar, Suzanne Bloch, a bailarina Loïe Fuller, o lavrador de café, as moças de Guaratinguetá e Leopold Zborowski, que inclusive eu achava muito parecido com um namorado da minha tia mais velha cujo nome me foge agora.

Pode parecer que eu fui educada por preceptores, entre o apartamento de Paris e a casa de campo da Suíça.

Mas a verdade é apenas que meus pais me deram de presente um jogo chamado "Leilão de Arte", e ele foi muito jogado no sobradinho do bairro Assunção, no máximo em Bertioga, os limites da minha infância de subúrbio e de mar.


Eu sempre achei o Escolar perturbado. Hoje eu descobri que ele era funcionário de um sanatório. Isso explica um bocado


Reencontrei a Loïe lançando suas pernas no estupor do can-can


E este era o namorado da minha tia, gente

Há limites

Quando eu era pequena e passava as férias na praia, às vezes todo mundo tinha preguiça e ficava acertado que teria bauruzinho de jantar. Aquele lanche de pão de forma com presunto, queijo e tomate, um clássico das casas de praia de todo o Brasil.


Então minha mãe comprava meio quilo de presunto, meio quilo de queijo e três pacotes de pão de forma. E aquilo tinha que virar bauruzinho para os 523 primos que estavam ali na casa de praia, jogando Jogo da Vida ou Rouba Monte ou zanzando em volta da casa, pelos corredores do quintalzão.


Logo, cada lanche levava tão somente uma fatia de presunto. Uma única, contada fatia, senão o presunto acabava antes. (E, se o presunto acabasse antes, faziam-se os lanches apenas com queijo).


Hoje eu ainda hesito ao estender a mão rumo a uma segunda fatia de peito de peru quando faço um lanche para o meu café da manhã. Porque este é o tipo de coisa que forja o caráter, dividir o presunto com 522 primos.


* * *


Minha mãe, por sua vez, quando era pequena, só comia apresuntado. E olhe lá.


* * *


A Lara não gostou muito do carpaccio que ela experimentou hoje, pela primeira vez, no restaurante tipo buffet aqui perto.


(Em compensação, adorou os chips de abobrinha e o tiramisú de rapadura).


Quando ela quis voltar a se servir e eu disse para ela usar o mesmo prato, ela comeu todo o carpaccio que estava no cantinho, sem reclamar.


Está forjando o caráter.


* * *


Fazer coisas que a gente não gosta forja o caráter. Mesmo que seja pelo prazer de se livrar delas quando a gente cresce.


Como colocar duas, às vezes três fatias de peito de peru no sanduíche das manhãs e se sentir feliz com isso.

* * *


O Arcade Fire não é uma bad hair band?

Ainda bem que eles não precisam ser mais uns rostinhos bonitos na multidão.

* * *

Only Dean has the magic technique.


segunda-feira, 14 de março de 2011

San Andreas Fault

"Go west, paradise is there"
-- San Andreas Fault, Natalie Merchant

Um dia minha mãe assistiu a um documentário sobre a Falha de San Andreas e ficou, como posso dizer?, fascinada.

Tão fascinada que me contou tudo a respeito.

Eu fiquei mais maluca ainda quando soube que existia uma rachadura especial sob a Terra. Como um pontilhado. E que todos esperavam que, um dia, este pontilhado se destacasse de vez. Esperam, ainda.

E eu ainda acho isso estranhamente aceitável e maluco.



* * *

Os temas de interesse da minha mãe são, como posso dizer?, um pouco como terremotos.

Ela se interessa (ou já se interessou) por coisas tão diversas quanto gnomos, tradições gaúchas e a série "Jornada nas Estrelas".

Eles vêm, sacodem a vida dela, botam algumas coisas para sempre em lugares diferentes e se vão.



quarta-feira, 9 de março de 2011

A completa desconhecida

"Stop telling the same story"
-- Ziggy Marley, Tomorrow People

Eu queria um grooveshark em que a gente digitasse "músicas da praia" e ele tocasse "Tomorrow People", "Corações Psicodélicos" e outras músicas que me lembram as tardes de chuva ou de sol em todos aqueles anos de Bertioga.

* * *

Um dia minha tia mais nova saiu para ir à padaria. Caiu a maior chuva e ela voltou para casa dividindo o seu próprio guarda-chuva com uma completa estranha. Só estávamos eu e minha tia mais velha em casa.

Ela parou na porta com aquela perfeita desconhecida ao lado e falou: "adivinhem quem eu encontrei na padaria?".

E eu pensei: "eu devia conhecer esta mulher?".

E minha tia mais velha ficou sem fala.

Como as crianças sabem que quase nunca estão por dentro do que acontece no mundo dos adultos, logo dei de ombros. Minha tia trouxe uma desconhecida em casa, mas tudo bem. Talvez eu esteja perdendo uma parte da história e, de alguma forma, isso é normal.

Aí a mulher foi tomar banho. E minha tia mais velha ficou no corredor, falando baixinho e fazendo caretas para a minha tia mais nova: "bom, agora ela está colocando todas as coisas de valor na bolsa".

E eu pensei: "mas o que ela pode roubar do banheiro? Sabonetes?"

Acho que minha tia mais velha falava mais para torturar a mais nova, recriminando a cabecice-de-vento da irmã caçula. Porque ninguém pode roubar algo de valor de um... banheiro.

(Tirando algum ladrão que entrasse no castelo daquele rei da França que mantinha a Mona Lisa no banheiro).

Minha tia mais nova era cabeça-de-vento e coração-de-ouro. Conheceu a mulher na padaria, deu carona para ela no guarda-chuva e, por alguma razão, se compadeceu dela e convidou-a para tomar banho em casa.

A mulher desconhecida aceitou a generosidade, tomou banho, foi embora e todos os sabonetes continuaram lá.

Minhas tias provavelmente nem se lembram desta história. E talvez ela nem tenha acontecido mesmo.

A gente preenche o passado com impressões e imaginação, e depois não sabe mais o que é cada qual.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A memória vívida do Carnaval

"Tem xinxim e acarajé,
Tamborim e samba no pé"
-- Samba-enredo da Mangueira, 1986

Se tenho uma memória vívida do sobrado do bairro Assunção, além das almofadas estampadas em círculos com verde de vários tons, ornando com a cortina, é que dia e noite, naquela casa, tocava o disco dos sambas-enredo do ano.

Dia e noite não. Noite só, que era quando meu pai chegava em casa. E os discos eram dele.

Às vezes a gente afastava as almofadas em vários tons de verde e a cadeira de balanço de vime e ficava dançando na sala.

E aí, naquela casa de um subúrbio paulista, eu virei uma torcedora fiel da Estação Primeira de Mangueira.

E desenhava com canetinha verde e rosa as saias da porta-bandeira.



- Para o meu pai.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E se minha mãe

"Aids, pop, repressão
O que é que eu fiz para merecer isto?"
-- Ratos de Porão

Sempre que passo por reveses em sequência -- a series of the same misfortunate event -- tenho a clara sensação de que aquilo nunca vai acabar. Eu nunca mais vou dormir bem, o sol nunca mais vai sair, etc.

É meio que o contrário da sensação de abrir a gaveta de roupas de lã no auge do verão e pensar indignada: "como eu pude usar isso um dia?"

* * *

Acordei às 7h e 55 minutos depois estava naquele ambiente asséptico, com chão de granito e suaves tons creme, iluminação indireta, ar condicionado, gente uniformizada falando baixinho.

Cheiro de aeroporto.

Tinha um espaço infantil, uma espécie de castelinho com pinturas coloridas e mesas minúsculas de plástico. Fiquei pensando como seria se eu tivesse uma filha e ela estivesse ali comigo. Imediatamente meu cérebro rebobinou sem eu pedir e pensei como seria se minha mãe estivesse ali e eu com ela, pequena.

Eu não iria no castelinho.

Mas o cheiro do lugar, as cores, as pessoas, iam ficar na minha cabeça para sempre.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tempo livre

Quando eu era pequena, tinha muito tempo livre.

Tinha tempo de congelar moscas e revivê-las de novo em colherzinhas cuidadosamente balançadas sobre a chama mínima do fogão.

(E ainda tinha tempo de convencer minha mãe de que os procedimentos eram absolutamente higiênicos, porque depois eu lavava a colher com álcool).

Tinha tempo de congelar xampu e condicionador em potinhos vazios outrora ocupados por filmes fotográficos do meu pai.

E depois tomar banho com eles, convencida de que o congelamento garantia uma melhor distribuição do produto.

(Eu tinha tempo de me convencer disso também).

Acho que eu era meio ligada em criogenia.

Ou apenas tinha muito tempo livre.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

No banheiro

Quando eu era pequena, tomava banho com a minha mãe.

Ela depilava as pernas e eu ficava olhando, intrigada.

Um dia, eu devia ter uns 8 anos, estava tomando banho sozinha e resolvi fazer o mesmo.

Eu sabia para que servia aquele procedimento, eu sabia que não servia de nada nas minhas perninhas peladas. Mas eu queria fazer igual: apoiar a perna, arquear o corpo, passar a gilete. Parecia uma pintura, era bonito, minha mãe fazia. Por que não, não é mesmo?

Aí eu ensaboei a perna, peguei a gilete e - skrit, skrit! - descasquei a pele da canela que nem eu descascava as batatas para ajudar minha mãe a fazer a sopa.

Depois eu tive que usar dois bandaids, de comprido, no lugar descascado.


Quando a gente é pequeno, a gente tem mesmo muito tempo livre.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Lições da infância

Uma vez, quando eu era pequena, ganhei um quebra-cabeças.

Como balainho novo tem três dias de torno, eu não largava o quebra-cabeças. Para lá e para cá.

Mas, mesmo amando muito meu quebra-cabeças, depois de montá-lo no quintal com algum raro amiguinho da rua, deixei as peças lá, esparramadas sobre as lajotas da garagem.

Pouco mais tarde, fui procurar o quebra-cabeças lá, exatamente onde o deixei.

E nada de quebra-cabeças.

Sentei à mesa do jantar e perguntei para o meu pai se ele tinha visto o quebra-cabeças quando chegou do trabalho.

E ele: "não".

E eu: "ué".

E ele: "vai ver alguém roubou".

E eu (só pensando): "que tipo de gente serra um portão de alumínio para roubar um quebra-cabeças de 20 peças, e depois forja o portão rapidinho no mesmo lugar, sem deixar rastros?" (Eu já tinha analisado as barras do portão).

E ele: "você precisa aprender a guardar suas coisas direito".

E eu (só pensando): "acho que ele está tentando me dar uma lição".

Depois do jantar ele devolveu meu brinquedo.

Desde esse dia aprendi que dificilmente alguém invade uma casa para roubar um quebra-cabeças. Mas pais podem fazer coisas ainda menos sensatas.