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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Never mind the gap

Faz tempo.

* * *

Sempre que eu ouço o Ney cantando bem melífluo sobre o amor da flor de cactus, eu penso nesta pintura da Tarsila. Que nem é um cactus, mas um manacá.

* * *

Eu acho que nunca vi um manacá de verdade. Se vi, não sabia o que era ou não prestei atenção.

Assim como nunca vi uma groselha, nem um sagu.

* * *

O mês passado nas ilhas me levou a algumas observações safadas e genéricas sobre os ingleses.

Os ingleses têm três grandes obsessões, sendo a primeira as coisas feitas da maneira proper e a própria palavra em si. Tudo é ou deveria ser proper, até os cachorros-quentes e hambúrgueres.

A segunda (obsessão) são os trocadilhos, que vão das manchetes de jornais (ver "Fish in best ever shape after cutting the chips") aos nomes das lojas (ver a enoteca "Planet of the Grapes") aos títulos dos grandes clássicos da literatura nativa (ver "The Importance of Being Earnest").

E sendo a terceira o ameaçador, assustador, perigosíssimo e insidioso...

THE GAP.

Eles passam metade do tempo mandando você tomar cuidado com ele em todas as estações do metrô, às vezes com anúncios de voz escabrosa. Como se um vão de dez centímetros entre o trem e a plataforma fosse a maior ameaça viva ao império britânico nestes tempos de crise.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O teatro e o meu cu

Qual é o verdadeiro peru pandemonium?

Este...



Ou este?


TCHANAM! Zé Celso por Chico Porto

* * *

O edredon verdinho que ainda me cobre hoje tinha borboletas brancas, eu acho. Isto há muito tempo.

Digo 'eu acho' porque eu mesma desconfio muito de mim.

E também porque não há o menor sinal da estampa de borboleta sobre a trama agora.

Talvez eu tenha imaginado as borboletas brancas.

Mas por que eu teria imaginado isso?

* * *

Tem aquela história famosa que nós contamos sobre o Zé Celso.

Trata-se de um trecho inesquecível de uma entrevista em que ele explica como descobriu o teatro. Ele aponta para o cocoruto e repete a frase solene:

"Eu descobri o teatro quando eu descobri o meu cu".

Supostamente fui eu que assisti isso, ainda nos tempos de rua Atlântica. Muito tempo mesmo, era pré-YouTube. E contei para a Roberta. E ela contou para a classe inteira. E cada uma das meninas da classe reproduziu aquilo de forma que, hoje, os meus colegas de trabalho conhecem a frase. E não por mim.

Mas, para falar a verdade, eu não me lembro mais da cena.

Para falar a verdade, eu acho que a repetição da história simplesmente ocupou o lugar do acontecimento original.

(Porque, por outro lado, eu acho que seria incapaz de inventar esta cena, embora eu adoraria tê-la inventado).

Que nem as borboletas brancas.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Last call for alcohol

Quais as chances de, na Última Ceia, todo mundo ter *de fato* se sentado de um mesmo lado da mesa? Não dá para os comensais conversarem assim.

Mas vai ver Jesus estava com pressa, chegou no restaurante e pediu mesa para 13.

A hostess falou "de 30 a 40 minutos, Senhor" (naqueles tempos, assim como hoje, qualquer coisa relativa à comida -- das receitas à entrega da pizza ao vagar das mesas -- demorava de 30 a 40 minutos).

Ele olhou para o pessoal, que apaziguou.

Pedro arriscou "a gente pede umas bruschetinhas, fica de papo, passa rápido".

Jesus discordou. Virou para a hostess e mandou "não dá, fia, tenho pressa, hoje ainda vou padecer sob Pôncio Pilatos, ser crucificado, morto e sepultado. Não tenho o dia todo, não". E fez cara feia para o pessoal que estava tomando café e enrolando lá dentro.

A hostess falou "temos o balcão, Senhor".

E Ele respondeu "é nesse mesmo. Vamos, pessoal".

E aí ficou assim:

terça-feira, 22 de março de 2011

Holding back the years

Hoje eu encontrei todas as figuras da minha infância penduradas no Museu de Arte de São Paulo: o Escolar, Suzanne Bloch, a bailarina Loïe Fuller, o lavrador de café, as moças de Guaratinguetá e Leopold Zborowski, que inclusive eu achava muito parecido com um namorado da minha tia mais velha cujo nome me foge agora.

Pode parecer que eu fui educada por preceptores, entre o apartamento de Paris e a casa de campo da Suíça.

Mas a verdade é apenas que meus pais me deram de presente um jogo chamado "Leilão de Arte", e ele foi muito jogado no sobradinho do bairro Assunção, no máximo em Bertioga, os limites da minha infância de subúrbio e de mar.


Eu sempre achei o Escolar perturbado. Hoje eu descobri que ele era funcionário de um sanatório. Isso explica um bocado


Reencontrei a Loïe lançando suas pernas no estupor do can-can


E este era o namorado da minha tia, gente

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bombril

(Not so) secretly feeling like shit.

* * *

Sabe, eu acho que as pessoas já podiam parar de publicar esses livros começados com "1001".

"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer"

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer"

"1001 Livros Para Ler Antes de Morrer"

"1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer"

"1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Comidas Para Provar Antes de Morrer" (cuja capa é uma lagosta CLARAMENTE tentando escapar da panela, que tipo de gente faz isso?)

Se for para ficar só nestes, eu já tenho SETE MIL E SETE porras de compromissos. Ou seja, já lotou.

E, para dizer a verdade, no fundo esse tipo de livro estimula outra atividade: 1 milhão e oitocentos mil downloads para fazer (sendo que você não vai usufruir de metade).

Joga lá no Google p'cê ver.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

"Cézanne"

Ali naquela tarde, no D'Orsay, não eram incomuns os estudantes de arte fazendo reproduções de obras nos seus cadernos de estudos.

Aí tinha um japonês sentado de frente para uma tela.

E ele parou atrás do japonês e ficou olhando o trabalho.

Depois olhou para a tela original.

E de novo para o caderno do japonês.

E mais uma vez para a tela.

Parecia um filme mudo ou um desenho animado.

E eu vi que aquilo ia acabar de algum jeito.

Até que o japonês olhou para ele, por cima do ombro, queixo para cima. E falou: "Cézanne!"

E pronto, essa virou a hashtag da viagem.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Música de verão

Gravado entre 67 e 68, "The Papas & The Mamas" foi lançado pela banda de nome contrário em maio do ano que não terminou. Ao contrário do ano, tanto a banda quanto o álbum acabaram em grande estilo: com Midnight Voyage, uma música que eu ouço há 16 anos.



E só hoje descobri que o Little Joy fez uma versão ano passado. 41 anos depois da gravação da música, 16 anos depois de eu ter transformado, à revelia de todos os primos adolescentes, o meu The Mamas and The Papas: 16 of Their Greatest Hits - descoberto e adquirido em suave negociação com meu pai em uma visita ao Carrefour Anchieta - no hit álbum absoluto do verão de 1994, em Bertioga.

Tenho até hoje. Mas começa a pular em Monday Monday e só para em My Girl. Ainda bem que a excelente Dream a Little Dream of Me de Mama Cass permanece intocada.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Tudo sobre

É muito difícil eu querer saber tudo sobre um assunto.

Acho gente especializada um troço incrível. Tenho a maior admiração. Mas não consigo imaginar em torno de qual mesmo tema eu poderia gravitar pelo resto da minha vida. Pelo resto da minha vida, cara.

É como escolher uma comida só para almoçar, todos os dias, até a morte (a propósito, eu escolheria batata, porque dá para fazer de várias formas: assada, frita, purê etc).
Eu não sei se é falta de costume, falta de disciplina ou falta de saco - para falar a verdade, eu sequer sei qual a diferença entre costume, saco e disciplina.

Mas eu nunca consegui passar muito tempo debruçada sobre a mesma coisa.

Não que eu não saiba contemplar. Eu sei, e gosto. Sou um pouquinho ansiosa, sim, como todo mundo agora, mas estou longe do tipo que tem DDA.

Só acho chato passar uma vida falando e pensando sobre uma coisa só. Eu tenho um tempo para mastigar coisas, e pequenas obsessões de momento (das quais, quase invariavelmente, me envergonho depois), mas sempre chega a hora de dizer chega.

No entanto, se eu tivesse que escolher uma coisa sobre a qual se debruçar pelo resto da vida, e sobre a qual eu gostaria de saber tudo, e quando eu achasse que já sabia tudo sobre aquilo, ainda gostaria de descobrir mais um pouco, seria... a Capela Sistina.

Porque eu gosto demais daquele Deus que flutua em uma espécie de nave grená formada pelo próprio manto, para lá e para cá, mandando em tudo (inclusive no cara de bunda de fora, que eu não sei se é ele mesmo ou o quê):

E adoro a cobra gordinha (que é claramente uma mulher) e a cara blasé da Eva na cena em que ela e Adão caem em tentação:


E tenho um particular amor pela imagem de Jonas, o profeta, com um peixão atrás dele:

E não escapo de amar, sobretudo, aquela imagem manjada em que Michelângelo capta o momento da criação - e o momento da criação, para mim, é aquilo mesmo; as mãos que se estendem e não se tocam, o quase, o coro de violinos subindo em oitavas, prendo a respiração:


Mas nesta última visita me interessei sobremaneira pelo afresco da parede do altar, o Giudizio Universale, com um Cristo Juiz decidido e bem alimentado.

Se recuperou bem da cruz, benzadeus