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sexta-feira, 4 de março de 2011

A memória vívida do Carnaval

"Tem xinxim e acarajé,
Tamborim e samba no pé"
-- Samba-enredo da Mangueira, 1986

Se tenho uma memória vívida do sobrado do bairro Assunção, além das almofadas estampadas em círculos com verde de vários tons, ornando com a cortina, é que dia e noite, naquela casa, tocava o disco dos sambas-enredo do ano.

Dia e noite não. Noite só, que era quando meu pai chegava em casa. E os discos eram dele.

Às vezes a gente afastava as almofadas em vários tons de verde e a cadeira de balanço de vime e ficava dançando na sala.

E aí, naquela casa de um subúrbio paulista, eu virei uma torcedora fiel da Estação Primeira de Mangueira.

E desenhava com canetinha verde e rosa as saias da porta-bandeira.



- Para o meu pai.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

E se minha mãe

"Aids, pop, repressão
O que é que eu fiz para merecer isto?"
-- Ratos de Porão

Sempre que passo por reveses em sequência -- a series of the same misfortunate event -- tenho a clara sensação de que aquilo nunca vai acabar. Eu nunca mais vou dormir bem, o sol nunca mais vai sair, etc.

É meio que o contrário da sensação de abrir a gaveta de roupas de lã no auge do verão e pensar indignada: "como eu pude usar isso um dia?"

* * *

Acordei às 7h e 55 minutos depois estava naquele ambiente asséptico, com chão de granito e suaves tons creme, iluminação indireta, ar condicionado, gente uniformizada falando baixinho.

Cheiro de aeroporto.

Tinha um espaço infantil, uma espécie de castelinho com pinturas coloridas e mesas minúsculas de plástico. Fiquei pensando como seria se eu tivesse uma filha e ela estivesse ali comigo. Imediatamente meu cérebro rebobinou sem eu pedir e pensei como seria se minha mãe estivesse ali e eu com ela, pequena.

Eu não iria no castelinho.

Mas o cheiro do lugar, as cores, as pessoas, iam ficar na minha cabeça para sempre.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Corte seco

Abri os olhos de manhã e vi um cursor de mouse estampado no cenário do meu quarto.

* * *

Nunca houve uma faca decente na minha casa de infância e adolescência, nem nas minhas casas adultas.

Era uma espécie de maldição, um encantamento que algum amolador de facas cigano deve ter jogado na minha mãe.

Não existia um conjunto completo de facas, como qualquer ser humano normal deve ter: uma de legumes, uma de carne, uma de pão, etc. Tinha uma faca boa - às vezes de lâmina, às vezes de serra - e muitas ruins.

E a gente descascava batata com faca de serra, porque era a única boa. No fim, a batata parecia uma ruffles.

Ou cortávamos pão com faca de lâmina, porque era a única boa. No meio do corte, terminávamos o serviço com a mão.

Anteontem eu comprei um conjunto de facas de marca boa, com quatro facas e, pasme!, uma tesoura de cozinha. (Na casa da minha mãe não se achava as tesouras nunca, fossem elas de qualquer cômodo. Muitas vezes a culpa era minha).

Custou só 86 reais.

Eu não sei porque demorei tanto.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tempo livre

Quando eu era pequena, tinha muito tempo livre.

Tinha tempo de congelar moscas e revivê-las de novo em colherzinhas cuidadosamente balançadas sobre a chama mínima do fogão.

(E ainda tinha tempo de convencer minha mãe de que os procedimentos eram absolutamente higiênicos, porque depois eu lavava a colher com álcool).

Tinha tempo de congelar xampu e condicionador em potinhos vazios outrora ocupados por filmes fotográficos do meu pai.

E depois tomar banho com eles, convencida de que o congelamento garantia uma melhor distribuição do produto.

(Eu tinha tempo de me convencer disso também).

Acho que eu era meio ligada em criogenia.

Ou apenas tinha muito tempo livre.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Physical

Eu sei que as mulheres da academia me olham com uma cara estranha.

Provavelmente porque elas pensam que eu sou anoréxica.

Mas tudo bem. Eu também olho para elas com cara de espanto.

Para mim, nenhuma precisava emagrecer.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Coisas que perdemos pelo caminho (graças a Deus)

Assistir a TV demais.

Assistir a Discovery Home & Health demais (o que significa ver bebês demais, mulheres rejuvenescidas demais e ambientes decorados demais).

Ter um sofá grande demais para a sala.

Ficar tempo demais em casa.

Ficar tempo demais sozinha.

Achar um produto de limpeza de 5 reais muito caro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Um branco, um xis, um zero

2010. A Lara entrou no meu quarto e falou:

- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.

1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.

- Minotaure.

Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).

Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.

Não é mais o menino. É só o perfume.

sábado, 26 de junho de 2010

Sometimes the clothes do not make the decade

"Gotta have some faith in the sound
It's the one good thing that I've got"

Há 20 anos George Michael lançava "Freedom '90".

Quer dizer, não há 20 anos exatos, porque o single saiu em 15 de dezembro.

Era o fim dos anos 80 e George declarava ele mesmo, em alto e bom som, que já não era mais aquele, olha a cara dele.




Uma nova década parecia surgir no horizonte, com a promessa de faces como Linda Evangelista, Cindy Crawford, Christy Turlington e Tatjana Patitz deixando para trás a era de Magda Cotrofe e Kelly LeBrock. Com a esperança de nunca mais cortarmos os cabelos daquele jeito ridículo ou de combinarmos rosa choque com amarelo e verde abacate.

Mal sabíamos que os anos 80 ainda iam durar mais 20 anos.

Mas a música continua uma delícia.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Para cima os corações

Às vezes, quando estou andando na rua, tenho uma vontade quase incontrolável de colocar coisas na cabeça.

Pode ser minha bolsa, o cachecol ou uma sacola.

Sabe o stuff on my cat? Vou fazer um stuff on my head.

* * *

Você sabe que está ficando velha quando percebe um sensível aumento no medo de ser atropelada. Mas sempre olha para a mão errada da rua antes de atravessar.

E quando não encontra mais o código de embed depois que o YouTube muda o layout.

domingo, 21 de março de 2010

Turning 32

Amanhã eu vou fazer 32 anos.

Hoje estava contando e já morei em 10 casas.

Isso dá uma média de 3,2 anos por casa, o que parece absurdo, já que tem uma casa em que parece que eu morei toda a minha vida: a casa do bairro Assunção.

Na verdade, a casa do bairro Assunção foi a terceira. Primeiro, logo que eu nasci, moramos num apartamento alugado em São Caetano do Sul. Depois, para meus pais conseguirem um fôlego a fim de financiar o grande sonho brasileiro da casa própria, moramos por um tempo na casa da minha avó, na Vila Alpina, em São Paulo.

Aí, quando eu tinha 4 anos, nos mudamos para a rua dos Crisântemos, 154. O simples enunciado do endereço, "rua dos Crisântemos um-cinco-quatro", me parece radiante, luminoso e fundamental ainda hoje.

O sobrado da rua dos Crisântemos tinha dois quartos, sala, cozinha, um banheiro, lavanderia, garagem na frente e quintal no fundo, ligados por um corredor, onde eu me deitava e olhava para a altura da casa bem rente ao muro. Era tão grande, meu Deus, parecia o Everest. Mas eu é que tinha só 4 anos.

A casa era um primor da cultura de subúrbio, com um ipê amarelo em frente, portão de alumínio, garagem coberta por aquelas telhas brasilit (que minha mãe sempre sonhava em transformar em uma laje, claro), vitrôs de vidro ondulado, carpete por dentro e móveis em cerejeira.

Eu nunca vi o telhado da casa do bairro Assunção. Morei lá de 1982 a 1990. Meu irmão nasceu quando a gente morava nessa casa. Eu fui para a escola nessa casa. A Rê veio morar com a gente nessa casa. E a Mari nasceu literalmente ali, pelas mãos da Angela (diz-se An-guê-la), a parteira alemã que veio ajudar a Tita a ter seu primeiro bebê.

82 a 90 são oito anos. Quase dez. Significativamente mais que 3,2. Mas ainda parecem pouco, oito anos, para a casa do bairro Assunção.