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terça-feira, 5 de abril de 2011

Last call for alcohol

Quais as chances de, na Última Ceia, todo mundo ter *de fato* se sentado de um mesmo lado da mesa? Não dá para os comensais conversarem assim.

Mas vai ver Jesus estava com pressa, chegou no restaurante e pediu mesa para 13.

A hostess falou "de 30 a 40 minutos, Senhor" (naqueles tempos, assim como hoje, qualquer coisa relativa à comida -- das receitas à entrega da pizza ao vagar das mesas -- demorava de 30 a 40 minutos).

Ele olhou para o pessoal, que apaziguou.

Pedro arriscou "a gente pede umas bruschetinhas, fica de papo, passa rápido".

Jesus discordou. Virou para a hostess e mandou "não dá, fia, tenho pressa, hoje ainda vou padecer sob Pôncio Pilatos, ser crucificado, morto e sepultado. Não tenho o dia todo, não". E fez cara feia para o pessoal que estava tomando café e enrolando lá dentro.

A hostess falou "temos o balcão, Senhor".

E Ele respondeu "é nesse mesmo. Vamos, pessoal".

E aí ficou assim:

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Bombril

(Not so) secretly feeling like shit.

* * *

Sabe, eu acho que as pessoas já podiam parar de publicar esses livros começados com "1001".

"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Lugares Para Conhecer Antes de Morrer"

"1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer"

"1001 Livros Para Ler Antes de Morrer"

"1001 Vinhos Para Beber Antes de Morrer"

"1001 Maravilhas Naturais Para Ver Antes de Morrer"

"1001 Comidas Para Provar Antes de Morrer" (cuja capa é uma lagosta CLARAMENTE tentando escapar da panela, que tipo de gente faz isso?)

Se for para ficar só nestes, eu já tenho SETE MIL E SETE porras de compromissos. Ou seja, já lotou.

E, para dizer a verdade, no fundo esse tipo de livro estimula outra atividade: 1 milhão e oitocentos mil downloads para fazer (sendo que você não vai usufruir de metade).

Joga lá no Google p'cê ver.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tudo que você não pode deixar para trás

"E os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô,
Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento,
todos esses macumbeiros saíram na madrugada".

-- Macunaíma, capítulo VII (A Macumba), Mario de
Andrade

A primeira vez que vi a neve achei que ela tinha pernas estúpidas.


* * *

Sonhei que eu tinha que tirar o João Paulo do Morro do Alemão, antes que os traficantes matassem ele. Meu plano era passar a noite em uma espécie de ong, onde eu sabia que estaríamos seguros, sair do Morro de madrugada e usar o dinheiro do prêmio para levá-lo para fora do país. Ou pelo menos para outro estado.

As moças da ong nos serviam pratos de salada e perguntavam se a gente não queria coração de galinha também.

No meio da comida, que mal me descia porque meu irmão podia ser assassinado *a qualquer momento* e ninguém viria nos salvar, começou mais um tiroteio. E eu pensei "é agora ou nunca". Eu não queria decidir, mas achei que nossa melhor chance era deixar os pratos de salada pela metade e eu gritei "corre, João!".

Depois a gente via uns caras correndo, armados. E nós também tínhamos armas.

E então eu acordei, graças a Deus.

* * *

Então ele se levantou e bebeu o leite que ele mesmo preparou.


sábado, 27 de novembro de 2010

The hard knock life

"'Steada treated, we get tricked!
'Steada kisses, we get kicked!"
-- Annie and the orphans, It's the hard-knock
life
Hoje eu fui comprar coisas para o Samuel.

A missão foi um pouco difícil, porque eu não conheço o Samuel.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria aprender latim. E grego. Culpa do meu professor de História, que era meu maior herói.

Eu também queria ter uma jaqueta (de pelo) da Fruto Verde. E um tênis Nike.

Mas minha mãe só comprava Popi.

* * *

O Samuel tem 12 anos, veste 16 e calça 38. Não achei tênis para ele nas lojas infantis, fui a uma loja de adulto.

Comprei também uma camiseta verde. Mas temendo que ele seja corintiano.

* * *

Quando eu tinha 12 anos escrevia um diário. A capa do meu diário foi decorada em alguma tarde na casa da Roberta, em um estilo criado em conjunto que mais tarde ficou conhecido (entre nós duas) como "furacão de cabeças".

Tinha um Bart Simpson e um Axl Rose. Mas eu nem gostava de Guns.

* * *

Tenho que comprar um brinquedo para o Samuel. A Veruska me disse no e-mail que ele tem "muitos irmãos menores" e que às vezes "tem que se responsabilizar por eles".

Não entendi muito bem. Comprei um jogo de tabuleiro. Imagem & Ação. Ele pode desenhar *and* distrair os irmãos menores brincando com eles.

* * *

Quando eu tinha 12 anos queria ser arqueóloga. Culpa vocês já sabem de quem.

Até que minha mãe me disse que minha vida *não* ia ser igual à do Indiana Jones.

Aí eu quis ser professora, acho.

E eu fui.

* * *

Falta só um livro para completar meu pacote para o Samuel.

Queria comprar "Raul da Ferrugem Azul", da Ana Maria Machado, mas não sei se está esgotado.

Eu li "Raul" pela primeira vez aos 8 ou 9 anos. Mas continuo lendo esse livro até hoje, mesmo sem tê-lo aqui em casa.

Porque ele me diz, de uma forma colorida e bem disfarçada, tão disfarçada que levei 23 anos para decifrar: a vida é dura. Faça a coisa certa.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

domingo, 30 de maio de 2010

De como as palavras vão mudando

Eu gosto de como as palavras vão mudando e desenterrando sentidos.

Siena é um pigmento marrom avermelhado de pintura. O pigmento siena chama assim porque vem da terra da cidade de Siena, na Itália. A cidade de Siena chama assim porque, segundo a lenda, foi fundada por Senio, filho de Remo.

Ele, que provavelmente é inventado, jamais poderia imaginar que daria nome a um marrom avermelhado.

(E a um carro da Fiat).

Outras palavras mudam de lugar, mas não de sentido.

O Capitólio era uma das sete colinas romanas, sede do poder mundial daqueles tempos de Roma caput mundi e tal. E é um prédio em Washington, sede do poder mundial destes tempos, "a A América para os americanos" e tal.

* * *

Não dá para não amar Roma e os romanos. Estou lá, lendo a história mítica da fundação da cidade, e *no mito* eles são fundados por gêmeos que mamaram em uma loba, foram morar com um pastor e roubavam salteadores em emboscadas na estrada. Quando decidiram partir do lugar onde foram criados, levaram com eles todos os párias possíveis e, no fim, um matou o outro porque cada qual queria que a cidade fosse num canto.

O mito é uma chance que se dá às pessoas de explicar suas origens com alguma licença poética, some embellishment, e ainda assim fiel à verdade. Mas o mito de Roma já é tipo "Náufragos, traficantes e degredados".