Quando eu tinha uns 20 e poucos, trabalhava em uma pequena agência que fazia uma revista de decoração meio tosca.
A "redação" se resumia a mim, outro jornalista e uma estagiária, a Giu.
Nessa época, meu irmão tinha uns 15 ou 16. E me ligava pelo menos uma vez por semana, perto da hora do almoço, para saber como fazer macarrão com cebolinha.
A receita de macarrão com cebolinha é muito simples. Consiste, basicamente, em macarrão cozido com molho de manteiga e cebolinha frita (na própria manteiga).
Mas o João Paulo nunca se lembrava do que tinha que colocar primeiro na panela: o macarrão? A manteiga? A cebola?
A receita é bem simples e o macarrão com cebolinha pode ser obtido assim: cozinhe o macarrão; reserve*; frite cebola bem picadinha em uma ou duas colheres de manteiga; jogue o macarrão dentro; salpique com queijo ralado a gosto e está pronto.
Acho que a parte do "reserve" é a chave do preparo, e é justamente a que fugia ao João Paulo toda vez. Então ele achava que aquilo tudo ia sair de uma mesma panela: macarrão, água, manteiga, cebolinha. Até o queijo ralado, quiçá.
Até a Giu aprendeu a fazer o macarrão com cebolinha.
Já o João Paulo, não sei. Acho que ele aprendeu. Ou nunca mais teve vontade de comer.
* Pode-se, inclusive, reservar o macarrão na própria tampa da panela, se você quiser economizar louça. Mas isso pode causar acidentes como: queimaduras nas mãos do cozinheiro ao pegar a maldita tampa pela borda para misturar a massa ao molho; perda parcial ou total da massa para o ralo da pia devido à instabilidade da tampa, quando colocada de ponta cabeça; ou, ainda, ambas as anteriores.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Tempos difíceis
"She totally confused all the passingQuando eu estava no terceiro ano colegial não havia internet. Pelo menos, eu não conhecia ninguém que tivesse.
piranhas"
-- Presidents of the USA, Lump
Eram tempos difíceis para quem queria cantar direito suas músicas favoritas em inglês: poucos CDs tinham encartes, a Bizz Letras Traduzidas saía em uma periodicidade muito particular, quiçá insondável, e os folhetos da Fisk praticamente só tinham músicas do Roxette e do Bryan Adams.
Então, se você gostava de Presidents of the United States ou daquela música cantada por uma mina na trilha sonora do Pulp Fiction, tinha que se esforçar. E tirar de ouvido.
Aí, quando eu estava no terceiro ano colegial, um menino da minha classe foi estudar um semestre nos EUA.
Eu até gostei mais dele, que eu achava bobo antes, depois disso.
(Talvez porque eu gostasse de me apaixonar um pouco pelas coisas que estavam indo embora).
E na volta o menino ganhou alguma reputação, porque cantava "Lump" de cor e salteado, sem errar, nem embromar.
Esse era o tipo de coisa que te dava alguma reputação em 1995.
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Vá chamar o Vincebo
Começava assim:
"- Vá chamar o Vincebo."
A partir dessa frase corriqueira, toda a família se alvoroçava. Eles não eram ricos, longe disso, mas também não eram miseráveis. Moravam no campo, sem dúvida. Aquelas casas iluminadas à luz de lampião e caiadas de branco com janelas verde-água. Ou caiadas de verde-água com janelas azuis. Enfim.
A velhinha estava deitada na cama e só mandava chamar o Vincebo uma vez, decidida. Seu pedido seria atendido, mas custaria um bocado de elucubrações individuais para cada membro daquela família.
O problema é que *eu não consigo me lembrar porque ela estava mandando chamar o Vincebo*.
Eu pensei nessa história quando estava quase dormindo. Ela parecia muito boa. Muito boa mesmo. E, sobretudo, ela fazia total sentido.
Só que agora eu não me lembro do fim. Quer dizer, do motivo. O motivo era tudo. O motivo da velhinha para chamar o Vincebo.
Ou talvez eu só estivesse com febre, para inventar um nome assim.
(Pronuncia-se vincêbo, sim?, com a tônica no ê).
"- Vá chamar o Vincebo."
A partir dessa frase corriqueira, toda a família se alvoroçava. Eles não eram ricos, longe disso, mas também não eram miseráveis. Moravam no campo, sem dúvida. Aquelas casas iluminadas à luz de lampião e caiadas de branco com janelas verde-água. Ou caiadas de verde-água com janelas azuis. Enfim.
A velhinha estava deitada na cama e só mandava chamar o Vincebo uma vez, decidida. Seu pedido seria atendido, mas custaria um bocado de elucubrações individuais para cada membro daquela família.
O problema é que *eu não consigo me lembrar porque ela estava mandando chamar o Vincebo*.
Eu pensei nessa história quando estava quase dormindo. Ela parecia muito boa. Muito boa mesmo. E, sobretudo, ela fazia total sentido.
Só que agora eu não me lembro do fim. Quer dizer, do motivo. O motivo era tudo. O motivo da velhinha para chamar o Vincebo.
Ou talvez eu só estivesse com febre, para inventar um nome assim.
(Pronuncia-se vincêbo, sim?, com a tônica no ê).
domingo, 12 de setembro de 2010
Um branco, um xis, um zero
2010. A Lara entrou no meu quarto e falou:
- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.
1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.
- Minotaure.
Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).
Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.
Não é mais o menino. É só o perfume.
- Seu quarto tem o seu cheiro! Sempre tem esse cheirinho, desde que você morava na sua outra casa em São Bernardo. Em todas as suas casas, seu quarto tem esse cheiro.
1995. Eu tinha 17 anos e era apaixonada por um menino da escola. Um dia ele esqueceu a blusa na classe. Eu guardei e levei para casa. E tinha esse cheiro. Quando devolvi a blusa, perguntei que perfume era aquele.
- Minotaure.
Esse é o único perfume que eu uso. E isso só acontece quando eu tenho dinheiro para comprá-lo. No momento, tenho meio vidro em cima da penteadeira e passo todas as manhãs (em que não me esqueço).
Eu quase já me esqueci da cara do menino. Mas nunca do perfume.
Não é mais o menino. É só o perfume.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
As circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos
But it takes so long, my lordAí que quando vi pela primeira vez as fotos da Beatriz -- que, veja só, eu só conheço em fotos -- me apaixonei de imediato por ela. E estava tocando "Shine Yellow", da Mallu. E essa virou a música da Beatriz.
-- George Harrison, "My Sweet Lord"
E pouco antes do Pedro nascer -- depois de uma gestação que para nós, os mais de 35 mil espectadores pagantes (e ansiosos), pareceu levar cinco anos -- eu fui à casa dos pais dele e joguei Beatles Rock Band. E a gente, que enchia a sala, cantou "Dear Prudence". Tudo horrível, desafinado e cheio de amor. E essa virou a música do Pedro.
E quando eu soube que ia ser madrinha do Caetano, meus olhos se encheram de água e meu coração também. E o Winamp começou a tocar "My Sweet Lord". Que, no fundo, é uma oração. E essa continua sendo a música do Caetano.
Eu dou sorte com as circunstâncias musicais dos momentos mais bonitos.
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