quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vincent

Algumas coisas na vida são realmente equivocadas.

Por exemplo, um serviço bancário personalizado e exclusivo intitulado Van Gogh.

O cara não vendeu uma única pintura em vida. Era sustentado pelo irmão mais novo. E se matou aos 34 anos.

Eu gostaria de saber de que forma essa existência solitária e miserável se conecta a um serviço bancário seletivo, oferecido apenas a quem tem um cascalho considerável, e que permite a você telefonar para o seu gerente às 9 da noite.

* * *

Depois de morto, Van Gogh virou uma referência. Em 90, seu "Retrato do Doutor Gachet" foi vendido em leilão por 82 milhões. De dólares.

Quando a mulher de Theo, irmão mais novo e esteio de Vincent, ficou grávida, ele escreveu a Van Gogh dando a boa nova. E avisou que o bebê ganharia o nome do irmão.

Vincent, então, pintou um quadro e o enviou ao irmão. Que ficou todo orgulhoso e o pendurou em lugar de destaque na casa da família.

Era o Almond Blossom.
* * *

Não é como se alguém abrisse uma firma de investimentos e colocasse o nome de Marx & Engels Brokers Co.?

(Obrigada, Daniel)


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Igual ao meu avô

Mi allontano dalla patria... San Giuseppe proteggimi!
-- Título de um manual de ajuda aos emigrantes italianos, Museo Della Emigrazione Italiana, Roma

O meu avô era igual ao Adoniran Barbosa, mas sem a ternura.

Ele se chamava Umberto sem H. Italianíssimo, mas nascido no Brasil das comidas gigantes.

Ele usava invariavelmente uma regata branca por debaixo da camisa. Ele nunca usou camisetas. Nem tênis. Só camisa. Com regata branca por baixo. E calças de alfaiate.

A regata branca era parte integrante do pacote e não podia ser vista separadamente. A não ser quando ele estava em casa. Aí ele tirava a camisa e ficava de regata branca, calças de alfaiate e com aqueles chinelos de velho.

Hoje eu fui trabalhar com uma calça de alfaiate. E regata branca.

Eu sempre me sinto parecida com o meu vô quando me visto assim.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Pequeno dicionário amoroso

G - Gut!, substantivo próprio. 1. revista de modelos feita à canetinha. 2. fig. interjeição que sempre era falada pelas modelos da capa.
O tempo é pródigo e livre quando você é pequeno. Para preenchê-lo, além de assistir ao Viva a Noite e ao Comando da Madrugada quando nossos pais saíam e nos deixavam por conta, a Tati e eu desenhávamos revistas de moda. A brochura era improvisada com cinco ou seis folhas sulfite dobradas ao meio e grampeadas bem no canto. Depois, desenhávamos as modelos - elas invariavelmente tinham caras quadradas - envergando os looks - sempre divididos em classificações como 'praia', 'campo', 'cidade' e... 'punk' (?!). A modelo mais legal era eleita em uma reunião editorial do nosso staff de duas pessoas, e refeita em tamanho maior, ou em uma pequena variação de pose, na capa. E da boca da modelo da capa *sempre* saía um balãozinho onde se lia... Gut!

H - Hadibre, substantivo próprio. 1. rei mandão.
Eu gostava muito de preencher folhas de linguagem com composições. Às vezes as folhas de linguagem, que eram quadradas e achatadinhas, com dois furos na margem, para prender com bailarinas, acabavam cedo demais (na história). Aí eu ganhava folhas de papel almaço e me dedicava a enchê-las com o resto do enredo. Uma das minhas composições mais longas se chamava "A história de um rei mandão chamado Hadibre" e eu não me lembro muito bem da trama, muito menos de onde veio esse nome (possivelmente do banco de nomes da escrivaninha. V. escrivaninha). Possivelmente era um amontoado de clichês, mas eu tinha oito anos e decorei toda a história com figurinhas recortadas de gibi, então tirei um "Excelente!". Com exclamação.

I - Itatinga, substantivo próprio. 1. vila fundada no início do século 19 nos arredores de Bertioga, onde meus primos moravam. 2. 'Pedra branca', em tupi-guarani.
O Itatinga era uma vila encravada entre a serra e o mar, no meio da Mata Atlântica, em Bertioga. A vila foi construída por engenheiros ingleses, que cravaram uma usina ali, no meio do mato. A Usina Hidrelétrica do Itatinga fornecia energia para a cidade (ou para o porto?) de Santos. Não me lembro bem, mas lembro que meu tio trabalhava lá e, portanto, morava na vila do Itatinga com sua mulher e seus quatro filhos, meus primos. Sempre que a gente ia para Bertioga visitava o Itatinga. Tinha que pegar uma estrada de terra, um barco para atravessar o rio Itapanhaú e um bondinho que ia pelo meio da mata, por uma meia hora, até dar na vila: duas fileiras de casas de madeira amarelas, com janelas e portas verde-água, que apontavam para a imponente usina de pedra ao pé da serra, lá no fundo. Tinha um grupo escolar, uma capela, um ambulatório. Demorou muito para ter um orelhão. Parecia os anos 50. Era incrível. Era tipo o paraíso. Até você morar lá.

Meus primos sempre iam para a casa de Bertioga nas férias de verão. O intercâmbio era mão única: eles na minha casa, em Bertioga ou em São Bernardo. Até que certo ano, por alguma razão, o intercâmbio foi mão dupla. Minha mãe levou o Roni e me deixou. Eu quase morri no Itatinga. Foram os 3 ou 4 dias mais longos da minha vida. Eu não gostava da comida da minha tia. Eu era picada por borrachudos. Eles tomavam toddy, e não nescau (meus primos, não os borrachudos). A gente assistiu "A Mosca" no videoclube à noite. Eu voltei para casa achando que, a qualquer momento, ia ser atacada por uma gigantesca mosca metamorfoseada, igual à do filme, saída de qualquer um dos arbustos que cercavam o caminho. O orelhão estava quebrado e eu tentava me conectar telepaticamente com a minha mãe para ela vir me buscar.

Acho que deu certo. Ela apareceu uns dias antes do combinado, com o Roni todo pimpão e feliz pela temporada longe de casa. E eu passei todos aqueles longos dias assistindo filmes de terror e tomando toddy, e não nescau.

domingo, 15 de agosto de 2010

Assim é a vida, Charlie Brown

Eu tinha 16 anos e era aula de Filosofia da Educação.

O professor se chamava Luis e as meninas achavam ele gatinho. Eu achava ele blasé.

Ele entrou e disse: "não se pode inventar nada que já não exista".

Eu pensei: "que tonto, eu mesma já inventei um monte de coisas que não existem" e já ia dizer: "olha, eu imaginei um monstro de geleia azul, com olhos de mola e meias vermelhas, por acaso isso existe? Não? Então eu inventei algo que não existe, como queríamos demonstrar", mas alguma menina com imaginação menos saltitante foi mais rápida:

- Mas e se eu inventar uma bruxa, professor?
- Bom, uma bruxa não existe, mas é a combinação de características e coisas que existem: uma mulher existe. Chapéu pontudo existe. Vassoura existe. Caldeirão existe. Verruga na ponta do nariz existe. Tudo o que você faz é imaginar uma combinação, não algo realmente novo.

Surtei.

Essa foi uma das grandes descobertas da minha vida.

Assim como quando minha mãe me contou que a bucha do banheiro era uma planta (isso explicava as misteriosas sementes que apareciam dentro dela!) e que é a gente que esquenta o cobertor, e não o cobertor que esquenta a gente.

A verdadeira sabedoria vem de onde a gente menos espera. Como o box do banheiro ou a sala de aula.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não sai da cabeça

- "Cavaleiros do Zodí-á-cô
Luuutadores com po-deras-tral
Siu inimigo é demoní-á-cô
Sua luta é normal!"

- Que cê tá cantando?

- A música dos Cavaleiros do Zodíaco.

- Eu sei, mas você prestou atenção?

- No quê?

- Como a luta deles pode ser "normal", se eles enfrentam um inimigo "demoníaco"?!

- Mas era assim.

- Não era não.

- Era, lembro direitinho.

- Não era. Não pode ser.

- Era, pô.

- Procura o vídeo na internet.



- Ah, é. É "mortal". A luta é mortal. Não pode ser normal, né, se os inimigos são demoníacos.

- Foi o que eu falei.

Pequeno dicionário amoroso

D - Duduca, substantivo masculino próprio. 1. Amigo imaginário do meu irmão.
O João Paulo passava longas horas sentado na escada do sobrado do bairro Assunção, à tarde, bem debaixo de um vitrô onde minha mãe deixava um vaso de violetas. Quando perguntado o que estava fazendo ali, estava invariavelmente conversando com o Duduca. Não sei sobre o que eles falavam. Nos desenhos do João Paulo, o Duduca era algo aproximado a uma bolinha, cheia de pernas. Um dia, com todo mundo já embarcado no carro, de mala e cuia prontas para a viagem de férias para Bertioga, o João Paulo fez todo mundo descer do carro para ele buscar o Duduca, que ele tinha esquecido.

Passou um tempo e o João Paulo parou de passar suas horas vespertinas no degrau da escada. Minha mãe perguntou onde estava o Duduca e o João Paulo respondeu: "foi pra Bahia".

E assim acabou a amizade deles.

E - escrivaninha, substantivo feminino. 1. mesa em que se escreve. 2. mesa de escritórios, com gavetas e escaninhos.
Eu não ligava de fazer a lição de casa, com seus arme e efetues e composições, na mesa de fórmica da cozinha mesmo. Mas minha mãe resolveu redecorar o sobrado do bairro Assunção numa época em que viviam lá muitas pessoas, então trocou os móveis do meu quarto por um beliche, um guarda-roupa novo e uma escrivaninha. Padrão cerejeira. Eu me apaixonei de pronto e enchia suas gavetinhas menores com itens do Museuzinho e nomes inventados escritos em tirinhas de papel. A gaveta maior guardava cadernos de desenho preenchidos com mãos e mapas imaginários, folhas de sulfite, composições antigas, pastas de papel de carta e recortes de jornal e papéis avulsos em geral. E seu fundo invariavelmente cedia, pesado demais para comportar minha vida e minha desorganização. E minha mãe brigava e me mandava arrumar.

Ah, eu também fazia lição nela.

F - Flicts, substantivo próprio. 1. certa cor.
Eu chorava toda vez em que lia Flicts.


sábado, 7 de agosto de 2010

Sem figuras

As figuras de linguagem atrapalham minha vida.

Depois de tantos cantores e poetas declararem que pensam em alguém todo dia, como é que eu vou falar pro meu amigo Caio que pensei nele duas vezes esta semana?

Parece pobre.

Pensei com afeto, espontaneamente, de coração. Do nada. Não é que lembrei que ele me deve um layout para este blog, nem que olhei uma fotografia de Salvador e pensei "puxa, é mesmo, olha o Caio".

* * *

As figuras estabelecem um novo padrão de carinho. Um padrão hiperbólico. Mais beijinhos que peixinhos no mar. Pensar em você todo orado dia.

Não há quem aguente.

(Além do mais, pensar em alguém todo dia não é necessariamente bom. Você pode pensar no filhodaputa que te passou herpes, por exemplo).

* * *

Quando o João Paulo era pequeno, ele chamava aquele formigamento da língua em contato com o gás do refrigerante de "figuras".

Claro que ele não tinha a menor ideia de que figura = desenho, ilustração, aparência. Então ele pegou essa palavra de algum lugar e a colocou a serviço de explicar para os outros porque ele punha a língua para fora depois de beber guaraná:

"É que me dá figuras na língua".

* * *

Gente, não se esqueçam que aqueles cabelos da propaganda da Garnier não existem. Nem as partículas de extra-limpeza. Nem o Laboratório de Pesquisas Oral-B, forrado de telões e cheio de gente de jaleco branco.

É tudo figura.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Colombo, esse pioneiro

Colombo foi o primeiro frila da história.

Ele, que era italiano, fez um puta frila para a Espanha. Navegou da Europa até a América, aportando por aqui em 1492 e enchendo o caixa de Fernando e Isabel.

Mas assinou uma espécie de cessão de direitos autorais e ficou com uma mísera parte da riqueza que gerou.

Não tão mísera, na verdade. Mas como era um administrador pífio (como todo frila), morreu esquecido e renegado pelo edit..., digo, rei da Espanha.

E, para completar, como todo frila, ele ficou conhecido por vários pseudônimos, ao gosto do freguês: Cristóbal Colón, Christophorus Columbus, Cristóvão Colombo, Christopher Columbus e o original Cristoforo Colombo.

Acho que o Colombo devia ser o patrono dos frilas.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pequeno dicionário amoroso

A - Assiralc, substantivo feminino próprio. 1. Meu nome ao contrário.
Quando eu era pequena, tinha bastante tempo para me divertir explorando as coisas de vários ângulos, inclusive do avesso. Entrava no guarda-roupa e o olhava por dentro: as dobradiças da porta com restos de cola, os cantinhos, o cheiro de dentro. Virava meu nome. Desenhava retratos fiéis só da minha mão, depois de transferir seu contorno para um papel sulfite, preenchendo-o de detalhes como os poros das falanges, seus pelinhos muito finos e as linhas das juntas -- que, no fundo, eram as dobradiças dos dedos. Assim como Assiralc seria meu nome escrito se alguém olhasse por baixo do bordado.

B - Bertioga, substantivo feminino próprio. 1. Cidade balneário do litoral norte de São Paulo. 2. Vila de Bertioga; bairro central da cidade. 3. metonímia: casa onde passávamos as férias.
Tento manter viva a memória de Bertioga porque é o lugar que conheço há mais tempo na vida. A cidade já não é aquela que eu conheço, mas é a cidade onde nasceram meus pais e tios, e minha parenta mais velha ainda viva, a tia de meu pai, Ana. Eu achava que talvez desse para ver a África depois do mar de Bertioga. E que tinha fantasmas morando no Forte. E que a caixa d'água, uma grande construção de concreto no fundo do quintal, era um palquinho para cantar e dançar com panos de chão enrolados no corpo, presos com pregadores, e uma vassoura à guisa de microfone.

C - costa, substantivo feminino. 1. Parte de trás do tronco.
O João Paulo, como todo mundo, aprendeu a falar construindo sua própria hipótese sobre as coisas e as palavras. Eu ficava confortavelmente sentada em minha própria construção, só olhando e me divertindo. Ele calculava que 'costas', naturalmente, era um plural, de forma que só se aplicava a duas partes de trás do tronco de uma pessoa. Logo, quando ele se referia às próprias costas, falava no singular: "Mãe, tá doendo a minha costa" ou "Tata, tem um bicho na minha costa?". Eu morria de rir. De vez em quando, eu saía do meu sólido castelinho de hipóteses já construídas e ia brincar no quintal dele. Dizia: Paulo, como chama a mulher do bonitão? E ele: bonitona. E do grandão? Ele: grandona. E do anão? Ele: anona. E eu morria de rir de novo.

Não sei se ele achava muita graça.