domingo, 30 de maio de 2010
2012 é aqui
De como as palavras vão mudando
Siena é um pigmento marrom avermelhado de pintura. O pigmento siena chama assim porque vem da terra da cidade de Siena, na Itália. A cidade de Siena chama assim porque, segundo a lenda, foi fundada por Senio, filho de Remo.
Ele, que provavelmente é inventado, jamais poderia imaginar que daria nome a um marrom avermelhado.
(E a um carro da Fiat).
Outras palavras mudam de lugar, mas não de sentido.
O Capitólio era uma das sete colinas romanas, sede do poder mundial daqueles tempos de Roma caput mundi e tal. E é um prédio em Washington, sede do poder mundial destes tempos, "a A América para os americanos" e tal.
Não dá para não amar Roma e os romanos. Estou lá, lendo a história mítica da fundação da cidade, e *no mito* eles são fundados por gêmeos que mamaram em uma loba, foram morar com um pastor e roubavam salteadores em emboscadas na estrada. Quando decidiram partir do lugar onde foram criados, levaram com eles todos os párias possíveis e, no fim, um matou o outro porque cada qual queria que a cidade fosse num canto.
O mito é uma chance que se dá às pessoas de explicar suas origens com alguma licença poética, some embellishment, e ainda assim fiel à verdade. Mas o mito de Roma já é tipo "Náufragos, traficantes e degredados".

quinta-feira, 27 de maio de 2010
Family girl
Ela passou bem mal com a operação. E nem sequer voltou a enxergar direito. "Me botaram na mão dos estudantes!", ela me diz, indignada.
A mãe da tia Ana, que é minha bisavó e avó do meu pai, era parteira. Ela se chamava Filomena e morava no Indaiá, uma vila de Bertioga que devia ser meio parecida com as vilas de pescadores das novelas.
Eu perguntei se pagavam ela pelo trabalho. Ela disse que não era um serviço, assim, pago. As pessoas davam alguma coisa que tinham, ou nada. Era como eu imaginava, e fiquei orgulhosa.
A tia Ana tem saudades de comer tainhas. Tinha um monte delas por lá; meu tio Tião, que é sobrinho dela e irmão do meu pai, se lembra de uma pescaria mitológica, quando pegaram 4 mil tainhas passando a rede no Indaiá. "Ovada, Cla!", ele detalha. Isso quer dizer que elas tinham ovinhos na barriga, ovinhos que você pode assar e comer também.
Acho que vou investigar mais a respeito.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Mac, make me up
Nos finais de semana ou nas festas de formatura, passava também delineador e blush. Virei mestra do delineador na mesma época em que passei a frequentar a Twists, danceteria de São Caetano que abria aos domingos, das 20h à meia-noite. A prática levou à perfeição.
Passar maquiagem, na verdade, é usar uma cara que não é a sua.
Achava que esta máxima se aplicava somente à Lady Gaga, mas outro dia vi uma colega de trabalho sem make e quase não reconheci.
Maquiagem é propaganda enganosa. Por isso não passo todo dia. Para economizar um pouco na mentira.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Sorte grande
Às vezes quase choro de emoção quando ouço "Sorte Grande", da Ivete Sangalo. É. A música que eu (e a torcida do Flamengo) jurávamos se chamar "Poeira".
Engraçado, porque eu sempre tive o maior desprezo por axé music (coisa que veio a mudar depois do Carnaval de 2009, mas isso conto em momento mais adequado). Só que, num belo sábado de 2006, acordei amando essa música. Assim mesmo, acordei amando. Não é que acordei com ela na cabeça; que baixei e ouvi umas 4 ou 5 vezes no dia e passou. Não. Acordei amando.
Aí tudo bem, ficou aquele amor pelo hit de verão de Ivete ali, guardado. E, de repente, eu percebi que talvez eu amasse essa música porque ela me lembrava o meu irmão João.
Um, por razões óbvias: ele adora axé. Dois, por razões que só fui perceber depois: quando o João Paulo nasceu, eu não gostava muito dele. Narrei essa história mil vezes, e hoje ela é mesmo engraçada, mas eu sofri de verdade naquele outubro de 83, quando ele chegou depois de nove meses de promessas de "um amiguinho" e de repente eu tinha que dividir todo o meu mundo com mais alguém.
Mas em seis meses eu acho que já gostava mais do João Paulo do que de qualquer outra pessoa do mundo. A minha sorte grande foi ele cair do céu. Minha paixão verdadeira.

Olhaí, meu olho já se encheu de água.
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Canta, Ivete, enquanto eles riem.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Música de verão
E só hoje descobri que o Little Joy fez uma versão ano passado. 41 anos depois da gravação da música, 16 anos depois de eu ter transformado, à revelia de todos os primos adolescentes, o meu The Mamas and The Papas: 16 of Their Greatest Hits - descoberto e adquirido em suave negociação com meu pai em uma visita ao Carrefour Anchieta - no hit álbum absoluto do verão de 1994, em Bertioga.
Tenho até hoje. Mas começa a pular em Monday Monday e só para em My Girl. Ainda bem que a excelente Dream a Little Dream of Me de Mama Cass permanece intocada.
domingo, 16 de maio de 2010
Os homens de saias
Mas sempre que não estou fazendo nada eu fico pensando em ações mirabolantes que vão definir a minha vida. Como escrever um livro, fundar uma ONG, me mudar para uma cidade longínqua ou pelo menos arrumar os comprovantes de pagamento das minha contas, que se acumulam em maços de papéis alojados nos lugares mais insuspeitos, como uma bolsa que eu não uso há meses ou a gaveta de lençóis do guarda roupa.
Quando eu penso em escrever um livro, quase sempre desisto porque nunca encontro a frase inicial perfeita. Imagina, então, encontrar o fim. Antes de largar a ideia, no entanto, fico pensando em quem eu seria de saias. Porque todo mundo parece ter essa fixação em definir uma mulher como um determinado fulano "de saias". Pode ser qualquer um, não importa: basta acrescentar o "de saias". "Nabokov de saias", "Paulo Coelho de saias", "Joyce de saias" - este último, para o português de costume, parece apenas uma expressão natural descrevendo a manicure, a vizinha ou a recepcionista do consultório envergando uma bela e florida peça usual do vestuário feminino, e não uma comparação perversa de gêneros (tanto sexuais como literários).
Caso o objeto de comparação já seja uma mulher, pode-se passar para o "tupiniquim", com a variação pseudolibertária "dos trópicos". Assim: Miranda July tupiniquim. Marian Keyes tupiniquim. Jane Austen dos trópicos.
Depois disso, só falta ganhar o Jabuti, que é o "Oscar da literatura". E se ver envolvida em um escândalo de superfaturamento de edições noticiado como o "editoragate".
O que eu mais quero/O que mais eu quero
Pensei que "cosa voglio di più" significasse "o que eu mais desejo". Acho que foi a foto do cartaz que me induziu à tradução errada.
Roma, solo Roma
Caput Mundi
E só hoje, ao escrever esta historinha, vim a descobrir que talvez "cosa voglio di più" não signifique "o que eu mais quero", mas sim "o que mais eu quero" ("what more do I want"), o que muda tudo; e mudar tudo me desaponta um pouco porque eu estava errada, mas também me enche de alegria porque mostra como uma mera, pequena troca de ordem, só de duas palavras, pode mudar todo o sentido de uma frase, e eu gosto de sentir que uma mera, pequena alteração em alguma coisa pode mudar tudo de forma radical.
Passei semanas refletindo sobre o que eu mais quero instigada pela imagem e pelas palavras do cartaz. A resposta, por incrível que pareça, é a mesma que eu daria se tivesse me esforçado para responder à pergunta "o que mais eu posso querer?". O que eu mais quero é o que mais eu posso querer.
Me surpreendi ainda mais, porque às vezes, mudar tudo não muda nada.
Os olhos treinados pegam a declaração de amor improvisada
e subterrânea a uma cidade
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Pedindo pouco
Comprei uma minipringles de páprica para o café da manhã. (E acompanhei com água com gás).
Se vocês acham que isso é amadorismo, esperem até ouvir a história da minha amiga Chris, que, em ato de rebeldia contra os poderes maternos, que nunca a deixavam pintar os cabelos, resolveu radicalizar e comprou um... xampu tonalizante.
Da mesma cor dos cabelos dela.
- Você já tomou a vacina da gripe?!
E eu: "hã?".
E ele: "a vacina da gripe. Precisa tomar, hein. Sua faixa etária já foi."
E eu: "olha, moço, não. A minha faixa etária é agora, é esta semana."
E ele, solando mais uma vez: "Quantos anos você tem?!"
E eu: "32!"
E ele: "Nossa, não parece. Mas não parece mesmo, hein, moça."
Gosto de como a gente nunca sabe para onde uma história vai.
* * *
Meu reino por uma semana, uma semaninha só, sem nenhum círculo em torno dos dias.

terça-feira, 11 de maio de 2010
Podia por no Twitter
* * *
Hoje eu estava dentro do 856-R, sentadinha no banco solitário, com destino ao trabalho, comendo um pastel de escarola, olhando para a biblioteca da Henrique Schaumann através da Praça John Graz, quando de repente pensei naquela pergunta sensacional que fizeram para a minha amiga Losso:
- Você é menino ou menina?
Já me perguntaram muita coisa, mas ninguém nunca me perguntou isso.
* * *
Pensando bem: você sai do trabalho, apanha o crachá dentro da bolsa, aproveita para pegar o bilhete único, deixa um em cada bolso, *não* passa o bilhete único na catraca da empresa, ganha a rua observando os degraus, olha para um lado para atravessar (a rua é mão única), olha para o outro por via das dúvidas (porque uma vez quase foi atropelada por um manobrista de ré), desenrola o fio do fone de ouvido enquanto separa um cigarro, calcula o trabalho que vai dar o jantar, lista mentalmente o que precisa comprar no mercado antes de ir para casa, lembra que uma das três linhas possíveis para o caminho de volta está descartada (porque você tem que passar no mercado), encontra uma posição boa no ponto de ônibus (porque está fumando e não quer incomodar a geral), *não* passa o crachá na catraca do ônibus, decora o número de itens para comprar no mercado como forma de *não* se esquecer o que tem que comprar, muda de música enquanto manda um SMS, lembra daquela vez em que recebeu um SMS de um completo desconhecido que te chamava de 'Raposinha', fica tensa porque talvez tenha mandado o SMS para a pessoa errada, checa a caixa de saída do celular, desce no ponto do mercado, *não* pisa nas manchas deixadas pelos cachorros, acerta a força do passo porque a calçada é irregular, se sente culpada porque nunca deixou um cobertor um prato de sopa ou cinquenta centavos para os mendigos, se vê refletida na câmera de segurança do mercado e apanha a cestinha. E a noite nem começou.
Aí neguinho tem um derrame - ou menos: recebe qualquer outro tipo de sinal levemente irregular do cérebro (tipo "putz, esqueci a palavra!") - e acha que a cabeça não funciona mais.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
Tudo sobre

E tenho um particular amor pela imagem de Jonas, o profeta, com um peixão atrás dele:


Mas nesta última visita me interessei sobremaneira pelo afresco da parede do altar, o Giudizio Universale, com um Cristo Juiz decidido e bem alimentado.

Se recuperou bem da cruz, benzadeus
Depois de um longo inverno
As cidades têm uns sons que, quando a gente mora, deixa de perceber.
Eu tenho que me concentrar um pouco para ouvir o som de São Paulo (a não ser o caminhão do lixo ou o gerador do prédio ao lado quando acaba a energia, porque eles soam em uma frequência que funciona, para mim, como aqueles apitos de irritar cachorros).
Mas quando você passa um tempo em outra cidade, escuta tudo de novo.
Em Roma, as ambulâncias soam o tempo todo. E soam diferente das daqui. (As ambulâncias que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá). Aquilo me deixava em estado de atenção quase constante, porque a gente nem percebe, mas sobe os ombros quando ouve uma sirene.
Minha mãe e eu, que viajamos juntas, ficamos tentando entender qual era a das ambulâncias romanas. Vai ver o trânsito é tão disgramento - e, acredite-me, ele é - que os motoristas de ambulância ligam a sirene quando entram no veículo, de manhã, e só desligam à noite. Ou vai ver acontecem muitos acidentes, enfartos e corações partidos em Roma, então se precisa muito da ambulância e é sempre uma emergência.
Depois percebemos que estávamos hospedadas perto de um hospital.